Filosofia

Pragmatismo (2): William James e o valor das crenças

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Junto com Charles Sanders Peirce (1839-1914), William James (1842-1910) é considerado o fundador do pragmatismo norte-americano, apesar de ambos os pensadores terem desenvolvido duas escolas distintas na tradição. Peirce é reconhecidamente o criador do método pragmatista, mas foi James quem o popularizou e usou pela primeira vez o termo em livros e conferências.

Peirce e James estão de acordo quanto ao fato de o pragmatismo não ser uma filosofia propriamente dita, isto é, não diz nada a respeito do que é o mundo e sobre o conhecimento que temos dele, e muito menos se configura como uma doutrina ou metafísica. Pragmatismo é simplesmente um método pelo qual o significado dos conceitos é depurado pelos fatos, pela experiência.

Quando o pragmatista está diante de um candidato a problema filosófico, ele questiona: o que a decisão a respeito da verdade de A ou de B poderá trazer em termos de efeitos práticos para nossas vidas? Se não provocar nenhuma mudança em nosso comportamento ou entendimento a respeito de algo, então não tem nenhum efeito. Portanto, nenhum significado.

Para dar um exemplo simples - e atual -, qual seria o significado pragmático de chamar o vírus da gripe suína de "nova gripe"? A mudança do nome vai ampliar nosso conhecimento sobre a doença ou trazer alguma mudança real em termos de saúde pública e prevenção? Caso a resposta seja negativa, então não tem nenhum sentido.

Podemos fazer o mesmo perguntando qual o significado pragmático da arte, da religião e dos sistemas filosóficos, para verificar se resistem ao confronto da realidade.

Conforme diz James: "Toda a função da filosofia deve ser a de achar que diferença definitiva fará a mim ou você, em instantes definidos de nossa vida, se esta fórmula do mundo ou aquela outra for a verdadeira" (1979: 19).

E ainda: "Tem-se de extrair de cada palavra o seu valor de compra prático, pô-lo a trabalhar dentro da corrente de nossa experiência" (1979: 20).

O pragmatismo consiste, portanto, em sempre olhar os frutos, ou seja, as consequências práticas que uma teoria veicula. Nisso tanto o "pai" do pragmatismo, Peirce, quanto James estão de acordo. A diferença está: (1) na interpretação da máxima do pragmatismo; (2) na sua aplicação e (3) no seu escopo, conforme veremos a seguir.



James: o foco no indivíduo

Vamos começar pela interpretação da máxima pragmatista. Para Peirce, o significado de um conceito ou teoria é dado pelas consequências práticas concebíveis que o objeto será capaz de proporcionar e, deste modo, afetar a conduta humana.

No exemplo dado pelo filósofo, "O diamante é duro" é uma expressão significativa porque, caso o diamante fosse submetido a testes, sua superfície não seria arranhada em contato com outros objetos duros. Já a expressão "Deus existe" não tem nenhum sentido, porque não é possível demonstrar a existência de Deus por meio da experiência futura.

Para James, ao contrário, o significado pragmático são os efeitos práticos que provoca na crença do indivíduo. Para uma doente, por exemplo, acreditar que Deus existe e que pode curá-lo pode ter efeitos práticos muito melhores do que o caso de ele ser ateu e achar que vai morrer. Essa crença, por exemplo, poderia estimular seu sistema imunológico e contribuir para o tratamento da doença. Portanto, em James, "Deus" passa no teste pragmático.

Diz James: "Se há qualquer vida que seja realmente melhor do que a que devemos levar, e se há qualquer ideia que, em sendo acreditada, ajudar-nos-ia a levar tal vida, então seria melhor para nós acreditar nessa ideia, a não ser que, na verdade, a crença que se lhe depositasse colidisse incidentalmente com outros benefícios vitais de maior vulto" (1979: 29, grifos do autor).

Isto é, se a crença em Deus não causa nenhum prejuízo material nem coloca em risco nossas próprias vidas - como no caso de tornar o crente um fanático suicida - e, além disso, nos torna melhores em nosso dia-a-dia e com as outras pessoas, então, para James, é pragmaticamente relevante.



Religião tem significado pragmático

Em resumo, para Peirce o foco é o caráter geral e o objeto da crença que devem ser investigados, enquanto para James, o foco está no particular e no indivíduo que acredita. Ao fazer isso, James amplia o pragmatismo para além do método científico, como o queria Peirce, para incluir questões morais e, principalmente, religiosas.

Para James, "[...] o pragmatismo alarga o campo da procura de Deus. [...] Levará em conta as experiências místicas se tiverem consequências práticas. Acolherá um Deus que viva no âmago mesmo do fato privado - se esse lhe parecer um lugar provável de encontrá-lo" (1979: 30).

Se a religião afeta nossas vidas, nos torna melhores, então tem um significado pragmático, segundo James.

Esta interpretação do método pragmatista se aproxima daquilo que James chamou de opção genuína em sua obra "A Vontade de Crer" (1897), pela qual afirma que, em determinadas situações, o indivíduo tem o direito de acreditar em algo mesmo que não tenha condições racionais de estabelecer se sua crença possui um objeto correspondente real.

São decisões que temos que tomar sem que tenhamos elementos suficientes para saber se a escolha é certa ou errada. Por exemplo, se estamos caminhando em uma trilha, à noite, na Mata Atlântica, e escutamos um rugido próximo, é bem provável que acreditemos que esse rugido é sinal que uma onça está por perto e adotemos uma atitude em relação a isso, antes mesmo de ter certeza de que se trata do animal e não um porco-do-mato, por exemplo.

Do mesmo modo, se estamos de carro em uma rua escura e vemos um homem em atitudes suspeitas, provavelmente não iremos parar no semáforo e nos arriscar a sofrer um assalto, mesmo sem saber ao certo as intenções do desconhecido.

É um tipo de escolha prática bem diferente daquela tomada por um cientista que está num laboratório. Ele pode errar e refazer os testes até ter certeza de que está de posse de uma crença verdadeira. Crenças vivas, contudo, atendem a propósitos imediatos.



Pragmatismo como teoria da verdade

Por isso, para James, verdade terá um sentido diferente daquele sustentado por escolas filosóficas anteriores. Para essas correntes da filosofia, verdade consiste numa cópia fiel da realidade, isto é, aquela teoria que corresponde aos fatos, que "espelha" o real. Cumpria, portanto, descobrir a verdade das coisas, pois só existe uma que atenda a tais exigências.

James, por outro lado, diz que a verdade está localizada no meio do caminho entre a teoria e os fatos. É preciso que exista uma coerência entre ambos. Por exemplo, se quero construir uma ponte, preciso respeitar uma série de princípios de engenharia e, além disso, tenho que levar em conta as condições materiais e dificuldades geográficas e físicas que o mundo me impõe. O melhor projeto de ponte, aquele que irá funcionar, será o verdadeiro.

Uma crença verdadeira, portanto, é aquela que atende aos nossos propósitos, que funciona na prática, em nosso cotidiano, e que nos traz benefícios, que nos permite continuar atuando no jogo do viver. Logo, verdade é algo mutável e pluralista: "Verdadeiro é o nome do que quer que prove ser bom no sentido da crença, e bom, também, por razões fundamentadas e definitivas" (1979: 28).

Este é o valor pragmático da verdade - e outro ponto de discordância com Peirce: em James, o pragmatismo também é um método para se alcançar a verdade.

Uma dieta rica em verduras e com baixa taxa de gordura animal e açúcar pode não ser tão agradável ao nosso paladar quanto comer pizzas, sanduíches e churrasco, mas é, num sentido pragmático, a decisão mais correta se tivermos em vista nosso bem-estar e nossa saúde.

Em resumo, o pragmatismo em James, (1) interpreta a máxima pragmática de Peirce em uma esfera individual, (2) amplia sua aplicação para questões religiosas e (3) torna o método também uma teoria da verdade.

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista e professor universitário.

Bibliografia

  • JAMES, William. A Vontade de Crer. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
  • JAMES, William. "Pragmatismo", em Os Pensadores. Abril Cultural, 1979.
  • DE WAAL, Cornelis. Sobre Pragmatismo. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

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