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Espécies exóticas invasoras - Organismos prejudicam a biodiversidade

Levado à Argentina para ser usado na caça esportiva, o javali passou para o Uruguai e, a partir do Rio Grande do Sul, a espécie invadiu o Brasil - Richard Bartz/Creative commons
Levado à Argentina para ser usado na caça esportiva, o javali passou para o Uruguai e, a partir do Rio Grande do Sul, a espécie invadiu o Brasil Imagem: Richard Bartz/Creative commons

Ronaldo Decicino

Espécies exóticas invasoras são organismos (plantas, animais e microrganismos) que, uma vez introduzidos em um novo ambiente, ali se estabelecem, passam a desenvolver populações autorregenerativas e, depois de certo período de tempo, causam impactos ecológicos, econômicos ou sociais negativos.

Esse verdadeiro processo de invasão biológica tende a causar inestimável perda de biodiversidade - e é considerado pela União Internacional para Conservação da Natureza (The World Conservation Union - IUCN) como a segunda causa de extinção de diversidade biológica.

Animais, plantas ou microorganismos introduzidos num ecossistema do qual não fazem parte originalmente, mas onde se adaptam e passam a dominar, prejudicam os processos naturais e os organismos nativos.

Há várias formas de invasão. Algumas podem ser acidentais, como, por exemplo, quando larvas, ovos, sementes, microorganismos ou insetos são transportados de um lugar para outro involuntariamente pelo homem. A maior parte das invasões, no entanto, está relacionada a atividades intencionais do homem, como o comércio internacional de animais de estimação, as criações de interesse econômico e o cultivo de plantas ornamentais ou de outros tipos.

Embora não existam números precisos, calcula-se que as espécies exóticas invasoras causem prejuízos de US$ 1,4 trilhão por ano no mundo: US$ 137 bilhões só nos Estados Unidos e US$ 49 bilhões no Brasil. Mesmo assim, ainda se gasta muito pouco na prevenção, no controle e na erradicação dessas espécies.

A Convenção sobre Diversidade Biológica, da qual o Brasil é signatário, trata da questão das invasões biológicas, exigindo que os países impeçam a introdução de espécies exóticas que representem ameaças à biodiversidade e aos sistemas produtivos, ou que as controlem ou erradiquem.

Grandes problemas

No Brasil, o número dessas espécies chega, aproximadamente, a 250, entre insetos, mamíferos, peixes, moluscos, gramíneas, árvores e diversos outros tipos de organismos.

Não há um ranking das espécies que causam maiores prejuízos. Mas, entre elas, encontram-se, no Brasil, o mexilhão dourado, o javali e o caramujo gigante africano.

O mexilhão dourado é um bicho pequeno - não tem mais do que 4 centímetros -, um molusco de água doce, originário do sul da Ásia, que chegou ao Brasil em 1998. Já infestou rios, lagos e reservatórios da região sul e do Pantanal e começa a ser detectado em São Paulo. Além de desequilibrar os nichos ecológicos em que se instalou, colocando em risco de extinção espécies nativas, o invasor ameaça o setor elétrico brasileiro, a agricultura irrigada, a pesca e o abastecimento de água, já que entope tubulações, interfere na cadeia alimentar e provoca contaminação.

Além disso, o mexilhão dourado se reproduz e se propaga com muita rapidez - a espécie começa a se reproduzir ainda muito jovem, quando tem apenas 5 milímetros, e se espalha ao ritmo de 240 quilômetros por ano.

O caramujo gigante, nativo da África, um molusco terrestre que atinge 15 centímetros de comprimento por 8 de largura e pesa mais de 200 gramas, foi introduzido no Brasil há cerca de 20 anos como alternativa econômica ao escargot. A experiência não deu certo. Dez anos depois, descobriu-se que ele podia transmitir doenças. Os criadores, então, soltaram o animal na natureza. Ele proliferou e hoje é encontrado em quase todo o território nacional, principalmente no Nordeste.

Além transmitir vermes, que causam a angiostrongilíase meningoencefálica - doença que tem como sintomas dor de cabeça forte e constante, rigidez na nuca e distúrbios do sistema nervoso -, o caramujo destrói plantações, come frutas e legumes, e compete com outros moluscos da fauna nativa, podendo levá-los à extinção.

O javali, por sua vez, não chegou ao país como clandestino e nem foi trazido para ser criado. A espécie foi levada à Argentina para servir na caça esportiva. De lá passou para o Uruguai e, depois, em 1991, para o Brasil, invadindo o Rio Grande do Sul, de onde se espalhou pelo país. Hoje, é encontrado em estado selvagem no Paraná, em São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. O javali ataca plantações de milho e animais de criação, e pode transmitir doenças para a fauna nativa.

Outras espécies perigosas

Além desses três invasores há, por exemplo, algumas gramíneas africanas, como a braquiária e o capim-gordura, que infestam espaços naturais e agrícolas, e são muito difíceis de erradicar. Há também espécies do gênero Pínus que podem se dispersar facilmente em áreas naturais, causando grande impacto em regiões de savana ou de vegetação rasteira.

Entre os animais, ainda podemos citar os seguintes: a) rã-touro, que se alimenta vorazmente de invertebrados e pequenos vertebrados; b) lebre européia, responsável por prejuízos à agricultura, que invadiu o país pela fronteira com a Argentina e já é encontrada no sul de Goiás; c) tartaruga tigre d'água, dos Estados Unidos, muito comercializada como animal de estimação e que normalmente é abandonada depois de adulta em cursos de água, onde compete com as espécies nativas; e d) búfalo, animal que causa grande impacto nas unidades de conservação e áreas naturais do Brasil, como a Reserva Biológica do Guaporé, em Rondônia, e a Região dos Lagos do Amapá.

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