História geral

Futebol e política: Esporte começou guerra entre Honduras e El Salvador

José Renato Salatie

Esportes costumam ser associados à paz e à confraternização entre os povos. Mas houve um dia na história em que o futebol foi o estopim de uma guerra envolvendo dois países vizinhos da América Central: Honduras e El Salvador. O fato aconteceu em 1969, quando as seleções disputavam uma vaga nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, no México.

Honduras e El Salvador possuem histórias parecidas de pobreza, colonialismo, golpes de Estado e guerras civis. Nos anos 1970, devido à instabilidade política da região, foram chamados de "repúblicas das bananas", numa associação ao principal produto de exportação da América Central.

O conflito ficou conhecido como Guerra do Futebol, ou Guerra das 100 horas, pois foi esse o tempo que o conflito durou, de 14 a 18 de julho, terminando com a morte de aproximadamente seis mil pessoas e dezenas de milhares de feridos. Vilas inteiras foram destruídas e milhares de pessoas ficaram desabrigadas. A guerra só terminou com a intervenção da OEA (Organização dos Estados Americanos) e a criação, em 1971, de uma zona desmilitarizada.

Reforma agrária

Os reais motivos da guerra envolveram a disputa por terras. El Salvador é o menor país da América Central. Na época, tinha a maior concentração demográfica do continente americano, com uma média de 60 habitantes por quilômetro quadrado. A maior parte das terras era concentrada nas mãos de uma oligarquia formada por 14 famílias de latifundiários. Dois terços da população rural do país não possuíam terras.

A situação motivou o êxodo para o país vizinho, Honduras, que possui uma extensão territorial seis vezes maior e tinha a metade da população de El Salvador. Durante anos, os salvadorenhos atravessaram a fronteira para se estabelecerem em Honduras, onde conseguiam terras e formavam vilarejos. Nos anos 1960, já eram cerca de trezentos mil.

Os hondurenhos, por seu lado, começaram a pressionar o governo para que este realizasse uma reforma agrária no país. Acontece que a maior parte das terras pertencia à multinacional americana United Fruit, dona de extensas plantações de bananas, e a latifundiários que governam o país até hoje, com o apoio dos Estados Unidos.

A solução encontrada foi desapropriar as terras invadidas pelos salvadorenhos durante anos, obrigando-os a retornar ao país de origem. O governo de El Salvador, contudo, temendo conflitos agrários em seu território, fechou as fronteiras para os camponeses.

As relações diplomáticas entre os países ficaram cada vez mais tensas. A animosidade era alimentada pela imprensa de ambas as nações, insuflando o patriotismo e o ódio xenofóbico. Foram registrados também alguns conflitos isolados.

Jogos

Nesse contexto político ocorreram as partidas entre as seleções de Honduras e El Salvador, em 1969, na disputa por uma vaga na Copa do México de 1970, que consagraria o Brasil como campeão.

O primeiro jogo foi realizado no dia 8 de junho, na capital hondurenha, Tegucigalpa. A seleção salvadorenha chegou um dia antes para pernoitar num hotel da capital, mas os atletas passaram a noite sem dormir, pois os torcedores gritavam, buzinavam em frente ao hotel e atiravam pedras nas janelas dos quartos em que o time de El Salvador estava hospedado. Eles também batiam tambores e soltavam rojões.

No dia da partida, os salvadorenhos estavam exaustos e, nesse clima pouco amistoso, perderam a partida por 1 a 0. O gol foi marcado no minuto final pelo atacante hondurenho Roberto Cardona.

Quando isso aconteceu, a salvadorenha Amelia Bolanios, 18 anos, que assistia à partida pela TV, em San Salvador, se matou com o revólver do pai. O suicídio da torcedora foi noticiado nos jornais e comoveu o país. O enterro foi transmitido ao vivo pela TV e acompanhado pelo presidente da República, seus ministros e também pelos 11 jogadores, que já haviam retornado ao país.

Guerra

No dia 15 de junho foi a vez de El Salvador receber a seleção hondurenha para o segundo jogo, que aconteceu na capital. Os torcedores salvadorenhos deram o troco: à noite, estilhaçaram as janelas do hotel que abrigava os atletas, atiraram ratos mortos e ovos podres.

No dia seguinte, o time rival teve que ser escoltado pelo Exército até o estádio. Antes da partida, os torcedores vaiaram a execução do Hino Nacional de Honduras e hastearam um pano de chão no lugar da bandeira oficial do país.

Como resultado, El Salvador ganhou por 3 a 0. Na saída do estádio, os jogadores foram escoltados até o aeroporto, enquanto a torcida hondurenha era massacrada pelos torcedores de El Salvador. Duas pessoas morreram e dezenas ficaram feridas.

Horas depois do jogo, a fronteira foi fechada. Na manhã de 14 de julho, El Salvador começou a bombardear a capital hondurenha. El Salvador era militarmente superior ao oponente, com 20 mil soldados no Exército e mil na Força Aérea, contra 12 mil soldados do exército hondurenho e 1.200 na Força Aérea. Apesar disso, a guerra inflamou o patriotismo dos hondurenhos, que se armaram até com facões para defender as vilas dos ataques inimigos.

Depois de 100 horas de conflitos, na noite de 18 de julho, a guerra terminou sem vencedores, assim como a disputa por terras. Uma parte dos camponeses voltou a El Salvador, enquanto outra permaneceu no país vizinho. Levou mais de uma década para os países finalmente assinarem um tratado de paz, em 30 de outubro de 1980.

Uma terceira partida entre as seleções foi realizada em território neutro, no México, dia 27 de junho, com a vitória de El Salvador por 3 a 2. No estádio, as duas torcidas ficaram isoladas por um "muro" de policiais mexicanos.

José Renato Salatie é jornalista e professor universitário.

Bibliografia

  • A Guerra do Futebol (Companhia das Letras): livro do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski. Ele foi o primeiro a noticiar a guerra entre El Salvador e Honduras, e descreveu as batalhas entre os dois países.

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