História geral

Quadrinhos e neocolonialismo: Heróis e super-heróis na África e na Ásia

Túlio Vilela

As histórias em quadrinhos ajudaram a popularizar uma visão estereotipada e fantasiosa da África e da Ásia. Entre essas histórias, merecem destaque as aventuras dos heróis Tarzan, Mandrake, Fantasma, Jim das Selvas e Pantera Negra. Os três primeiros foram criados quando a Grã-Bretanha ainda possuía um império colonial, o último quando vários países africanos e asiáticos já haviam se declarado independentes.

Tais histórias em quadrinhos refletiriam qual visão: a dos colonizadores e exploradores europeus e norte-americanos ou a dos povos nativos da África e da Ásia? Podemos dizer que Tarzan seria um agente a serviço do neocolonialismo? Haveria ainda nesses quadrinhos mensagens racistas? Antes de responder a essas perguntas, vale a pena revisar o conceito de neocolonialismo.

Neocolonialismo

Em fins do século XIX, as potências europeias começaram a reivindicar e conquistar terras na África e na Ásia. Neocolonialismo foi o nome dado ao conjunto de políticas expansionistas e imperialistas praticadas pelas potências europeias nos continentes africano e asiático a partir da década de 1880. O prefixo “neo” que significa “novo” é para distinguir essas políticas do “velho colonialismo”, aquele iniciado no século XVI, como consequência das Grandes Navegações, das quais Portugal e Espanha foram as potências pioneiras.

Para justificar a dominação europeia na África e na Ásia, os europeus recorriam a argumentos científicos. O problema é que o discurso dominante na ciência do século XIX estava contaminado pelo racismo, dois exemplos disso são o “darwinismo social”, uma interpretação equivocada e distorcida da teoria formulada pelo naturalista inglês Charles Darwin. Assim, segundo a visão racista da época, brancos europeus eram “superiores” ou “mais evoluídos” que os “negros” africanos. Ainda dentro dessa visão racista, a “raça amarela”, da qual fariam parte chineses, japoneses, coreanos e outros povos asiáticos seria também “superior” aos negros, mas ainda “inferior” aos brancos.

O Neocolonialismo teve início numa época em que muitos achavam que a “era dos impérios” havia terminado, pois com os processos de independência política dos países americanos, as potências colonialistas europeias acabaram perdendo colônias que possuíam neste continente. Ledo engano, os avanços tecnológicos trazidos pelas duas primeiras revoluções industriais (das quais a Grã-Bretanha foi pioneira, o que permitiu que o Império Britânico se tornasse o maior de sua época) e a busca por mercados e matérias-primas para os produtos industrializados ampliaram a presença europeia nos continentes africano e asiático.

Exemplo disso é que nas primeiras décadas do século XIX, a presença europeia na África limitava-se a algumas possessões nas áreas costeiras, mas no fim do mesmo século, quase todo o continente africano estava sob domínio de nações europeias. A disputa por possessões no continente africano chegou a tal ponto que, em 1885, foi realizada a Conferência de Berlim, na Alemanha, durante a qual foi realizada a partilha da África, ou seja, foram demarcadas fronteiras para decidir quais “pedaços” da África teria por “direito” cada potência europeia.

Alemanha e Estados Unidos

Vale lembrar que Grã-Bretanha e França, as duas maiores potências coloniais, ganharam um concorrente de peso em fins do século XIX: a Alemanha, cuja unificação foi completada em 1871, após uma guerra contra a rival França. A Alemanha entrou tardiamente na corrida colonial, mas logo passou a ter o segundo maior parque industrial da Europa, perdendo apenas para o da Grã-Betanha. A rivalidade entre as potências colonialistas transformaria a Europa num “barril de pólvora”, cujo “pavio” seria aceso em 1914, quando teve início a Primeira Guerra Mundial.

A política neocolonialista não era exclusiva dos paises europeus. Dois países não-europeus também adotariam práticas expansionistas: os Estados Unidos e o Japão. Se no início os Estados Unidos eram banhados apenas pelo Atlântico, após a expansão em direção ao oeste, com a anexação de territórios que antes pertenciam aos indígenas e ao México, também passariam a serem banhados pelo Pacífico, o que levaria à busca por territórios e mercados nesse oceano e à ampliação tanto da marinha de guerra quanto da marinha mercante.

Dentro do contexto do neocolonialismo, expedições de cunho científico (mas atendendo aos interesses políticos das potências colonialistas) foram realizadas na África e na Ásia, com a participação de estudiosos de diferentes áreas como arqueologia, etnologia, antropologia, geologia, zoologia e botânica entre outras. A África e a Ásia despertavam a curiosidade de europeus e norte-americanos e também serviam de inspiração para a imaginação de escritores de ficção, não apenas de contos e romances, mas também de uma nova mídia surgida com a massificação da imprensa em fins do século XIX e nas primeiras décadas do século XX: as histórias em quadrinhos.

Tarzan, o “homem-macaco”

Tarzan foi criado pela imaginação do escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs. Antes de tentar a sorte como escritor, Burroughs tentou ganhar a vida numa série de ocupações, entre as quais, policial, mas fracassou em todas elas. Aos trinta e cinco anos de idade, tinha uma família para sustentar e estava praticamente falido. Assim, tentou a carreira de escritor.

Ele conseguiu vender suas histórias para serem publicadas em revistas de literatura barata então muito populares nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX. Assim, a primeira história de Tarzan foi publicada em outubro de 1912, numa revista chamada All-Story. Foi um sucesso imediato e Burroughs escreveu vinte e quatro romances sobre o herói das selvas. O escritor enriqueceu, pois detinha os direitos autorais sobre sua criação. Por outro lado, alguns dos artistas que desenharam os quadrinhos para jornais (tiras diárias e páginas para suplementos dominicais) reclamavam que ganhavam pouco, pois a maior parte do lucro ia para Burroughs, e após sua morte em 1950, para seus herdeiros.

Burroughs nunca havia posto os pés na África. O escritor também não se preocupou em pesquisar seriamente sobre o continente africano para escrever as aventuras de Tarzan. Para criar as aventuras de Tarzan, usou apenas sua fértil imaginação e buscou inspiração nos livros de aventura de escritores como Rudyard Kipling, autor de O livro da selva (também conhecido como O livro da Jângal, numa tradução de Monteiro Lobato) e H. Rider Haggard, autor de As minas do rei Salomão.

Na obra de Kipling, ambientada na Índia, o personagem principal era Mogli, o menino-lobo, uma criança órfã adotada por lobos. Para se diferenciar da obra de Kipling e não ser acusado de plágio, Burroughs fez três alterações significativas: mudou a ambientação da Índia para a África, enquanto Mogli foi adotado por lobos, Tarzan foi adotado por macacos, e enquanto Mogli era uma criança indiana, Tarzan era filho de uma família de aristocratas ingleses. Em comum com os livros de Haggard, a obra de Burroughs tinha a ambientação na África e elementos como cidades e tesouros perdidos.

Depressão e entretenimento

Tarzan se tornou um personagem ainda mais conhecido quando foi adaptado para outras mídias como filmes e histórias em quadrinhos. A primeira adaptação de Tarzan para os quadrinhos estreou nos jornais norte-americanos em sete de janeiro de 1929. Antes da década de 1930, os quadrinhos publicados em jornais eram, em sua grande maioria, de teor cômico ou humorístico (daí os quadrinhos em inglês serem chamados de comics). A adaptação de Tarzan para tiras de jornal foi uma das primeiras séries de quadrinhos de aventura a se tornar popular entre leitores de jornais do mundo inteiro. A depressão econômica que se seguiu à quebra da bolsa de Nova York em 1929 não impediu que as tiras de Tarzan continuassem fazendo sucesso.

Origem inverossímil e mensagem neocolonialista

Nos quadrinhos, a origem de Tarzan foi recontada de maneira bastante fiel ao primeiro romance de Burroughs: John Clayton, também conhecido como Lorde Greystoke, viaja com sua esposa da Inglaterra para uma colônia britânica na África; durante a viagem, os marinheiros realizam um motim e o casal é abandonado numa selva africana, onde constroem uma casa na árvore; a esposa enlouquece, adoece e morre; Lorde Greystoke é morto pelo macaco Kershak, o bebê de um ano do casal inglês é encontrado e adotado por uma macaca chamada Kala.

A origem de Tarzan é totalmente inverossímil, mas é justamente em algumas de suas inverossimilhanças é que percebemos uma mensagem de teor neocolonialista, sem falar numa pitada de racismo: Tarzan é filho de ingleses, mas mesmo órfão e privado do contato com outros seres humanos, consegue provar a suposta “superioridade” do homem branco ao superar os grandes macacos em inteligência, a ponto de se tornar o líder deles (após matar Kershak numa luta), e os igualar em força física (o que o torna mais forte que qualquer ser humano, inclusive os negros das tribos próximas ao seu lar).

No primeiro romance escrito por Burrroughs, Tarzan consegue até aprender a ler e escrever sozinho: ao encontrar a cabana onde os pais biológicos viviam, descobre alguns livros no antigo escritório do pai e começa a tentar decifrar os textos e pratica exercícios de caligrafia. Ou seja, a história de Tarzan reflete uma visão de mundo marcada pelo determinismo biológico (o que está intimamente ligado ao darwinismo social): seriam os genes,a ascendência, é que determinariam o sucesso e não o meio social.

A África segundo os quadrinhos de Tarzan

Nos quadrinhos, Tarzan passou pelas mãos de uma série de desenhistas, a maior parte bastante competente do ponto de vista técnico, pois sabiam tornar convincentes as tramas mais inverossímeis. O primeiro artista a desenhar uma versão em quadrinhos de Tarzan foi o canadense Harold Foster (1892-1982), que ficou famoso anos mais tarde por criar seu próprio personagem: o Príncipe Valente.

Entre os artistas que desenharam as aventuras de Tarzan no decorrer das décadas podemos destacar Rex Maxon, Burne Hogarth, Jesse Marsh, Bob Lubbers, Russ Manning, Gil Kane, Gray Morrow, Joe Kubert e John Buscema entre outros. Alguns deles desenharam apenas as tiras diárias e as páginas dos suplementos dominicais, outros desenharam histórias que foram publicadas exclusivamente em gibis mensais. Quanto aos roteiristas que escreveram as histórias (boa parte delas, adaptações dos livros de Burroughs), a maioria permaneceu anônima, entre as exceções estão Archie Goodwin, Roy Thomas e o já citado Kubert, que além de desenhar também escrevia.

Tarzan questiona os valores da chamada “civilização”. Ao criar Tarzan, Burroughs pode ter sido influenciado pela  ideia ingênua do “bom selvagem”  (“o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”) criada pelo filósofo iluminista Rousseau. A ideia do “bom selvagem” influenciou também na criação da figura romântica e idealizada do índio em obras literárias como O Guarani do escritor José Alencar, ele Tarzan prefere viver com simplicidade e em harmonia com a natureza a viver numa grande metrópole. Tarzan é um produto da indústria cultural e já foi licenciado para vender mercadorias tão diversas quanto camisetas e brinquedos, mas em suas aventuras, o rei da selva não demonstra interesse nos supostos confortos ou atrativos da sociedade de consumo.

Túlio Vilela formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).

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