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Coletânea: Textos ajudam a identificar o tema e a ampliar a reflexão sobre ele

Sueli de Britto Salles, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Hoje, na maioria dos vestibulares, o tema de redação normalmente é acompanhado de uma coletânea de textos que precisam ser explorados pelo candidato. A coletânea pode ter funções diferentes, dependendo de cada proposta, mas nunca pode ser ignorada. Quando o tema é mais subjetivo e abstrato, a coletânea ganha importância ainda maior, pois uma falha na interpretação de seus textos pode significar erro na identificação do tema específico da proposta, levando a redação a ser desclassificada.

Por isso, depois de dedicar a devida atenção ao enunciado que orienta a produção textual, o aluno precisa desenvolver uma estratégia para primeiro interpretar os textos da coletânea e depois usá-los de acordo com as orientações da proposta, ou seja, como indicadores do tema a ser depreendido pelas semelhanças e diferenças ou como ampliadores dos enfoques possíveis de um tema principal já especificado.

No ENEM 2009, por exemplo, o tema específico era "O indivíduo frente à ética nacional", que veio acompanhado de uma coletânea composta por uma charge e dois textos opinativos, publicados na mídia impressa. Como a análise de charges já foi tratada em outro artigo, vamos observar alguns caminhos para a leitura interpretativa dos outros textos da coletânea - um da escritora Lya Luft, publicado na revista Veja em 2006, e outro do psicanalista Contardo Calligaris, publicado na Folha de S. Paulo em 2005 (Atenção! A autoria não foi identificada na prova).
 

Texto 1

Andamos demais acomodados, todo mundo reclamando em voz baixa como se fosse errado indignar-se. Sem ufanismo, que dele estou cansada, sem dizer que este é um país rico, de gente boa e cordata, com natureza (a que sobrou) belíssima e generosa - sem fantasiar nem botar óculos cor-de-rosa que o momento não permite, eu me pergunto o que anda acontecendo com a gente. 


Tenho medo disso que nos tornamos ou em que estamos nos transformando, achando bonita a ignorância eloquente, engraçado o cinismo bem-vestido, interessante o banditismo arrojado, normal o abismo em cuja beira nos equilibramos - não malabaristas, mas palhaços.
LUFT, L. Ponto de vista. Veja. Ed. 1988, 27 dez. 2006 (adaptado).


 

Análise frase a frase

1ª.frase: faz uma afirmação com tom de verdade: nós (toda a sociedade brasileira) não nos indignamos (não especifica com o quê) por comodismo ou por medo de isso ser considerado errado;

2ª.frase: critica os que veem o Brasil de modo otimista em relação às riquezas naturais do país ou à cordialidade de seu povo, considerando isso uma forma de encobrir a feia realidade da nação;

3ª frase: diz temer a inversão de valores do brasileiro que, ao valorizar comportamentos reprováveis (a ignorância, o cinismo, o banditismo), aceita passivamente ter sua nação corrompida e explorada, mostrando-se um verdadeiro palhaço (no mau sentido).
 

Considerações gerais

A crítica da autora é abstrata, pois não se refere a uma situação específica (observe que o texto é de 2006 e foi usado em 2009) mas a comportamentos: a falta de indignação do povo brasileiro com as coisas erradas do país e a consequente aceitação (e até valorização) de comportamentos eticamente reprováveis.

Para explorar esse texto, o participante deveria pensar primeiro se concorda com essa crítica. E, se concorda, aceita a generalização feita pela autora (todo o povo brasileiro age mesmo dessa forma?). Seja qual for seu posicionamento, é essencial que ele seja defendido com vários argumentos e exemplos concretos que comprovem a veracidade da sua afirmação.

Importante: o texto usado na coletânea tem características de uma crônica, que possui regras diferentes da dissertação, ou seja, na crônica a autora pode expor de modo subjetivo sua opinião, usar abstrações, expressões coloquiais e linguagem conotativa (metáforas, ironias).

Na redação do ENEM e da maioria dos vestibulares, porém, o tipo de texto pedido é a dissertação, assim as regras são outras: deve-se procurar evitar a usar 1a.pessoa do singular (eu); a exposição dos fatos deve ser objetiva (sem comentários e valores pessoais), com fatos bem explicados e exemplos concretos, em norma culta, com predominância de linguagem denotativa.
 

Texto 2
Qual é o efeito em nós do "eles são todos corruptos"?
 

As denúncias que assolam nosso cotidiano podem dar lugar a uma vontade de transformar o mundo só se nossa indignação não afetar o mundo inteiro. "Eles são TODOS corruptos" é um pensamento que serve apenas para "confirmar" a "integridade" de quem se indigna.
 

O lugar-comum sobre a corrupção generalizada não é uma armadilha para os corruptos: eles continuam iguais e livres, enquanto, fechados em casa, festejamos nossa esplendorosa retidão.
 

O dito lugar-comum é uma armadilha que amarra e imobiliza os mesmos que denunciam a imperfeição do mundo inteiro.

CALLIGARIS, C. A armadilha da corrupção (adaptado).


Análise frase a frase

Título: questiona-se o efeito na sociedade de uma frase típica do senso comum: "eles são todos corruptos". Importante perceber que nem no título nem no texto haverá uma identificação de a quem se refere o pronome "eles", mas, a partir também do senso comum pode-se deduzir que o texto fala principalmente dos políticos brasileiros. Isso não está dito, mas o termo corrupção é mais frequentemente associado a esse grupo.

1ª frase: o autor faz um diagnóstico sobre o típico comportamento humano (não apenas de brasileiros): não há como querer consertar uma atitude ruim quando se trata de um comportamento generalizado. Nesse caso, apenas é possível lamentar;

2ª frase: o indivíduo que, de modo generalizado, acusa um grupo (do qual não faz parte) de corrupto usa essa estratégia para apresentar-se como íntegro;

3ª frase: a acusação generalizada de corrupção a um grupo (políticos?) não afeta seus integrantes, que continuam livres em seus atos. Serve apenas para que fiquemos "fechados em casa" (conformados, passivos, sem reagir) felizes por nos acharmos corretos (característica de quem age com retidão);

4ª frase: ao aceitar o pensamento generalizado, pronto e comumente reproduzido pelo senso comum, o indivíduo perde sua capacidade de refletir sobre seu papel social, de agir de modo crítico, e passa apenas a apontar a imperfeição dos outros.
 

Considerações

O autor foca seu texto em um determinado comportamento humano: o de fazer acusações generalizadas, especificamente de corrupção, apenas como forma de defender sua postura íntegra, sem que isso gere uma ação efetiva contra um problema social. Mostra que essa atitude é improdutiva para a sociedade, já que os corruptos generalizados, sem identificação, continuam agindo livremente.

Observe que este texto não tinha a sua data identificada na prova e também trata o tema de modo atemporal, sem se referir a algum episódio específico. Porém, como já foi apontado, cabe ao candidato buscar no seu repertório pessoal fatos (passagens históricas, notícias, exemplos literários...) que ilustrem suas considerações na dissertação.

Os dois textos, portanto, tratam da postura passiva e acomodada da sociedade diante de comportamentos de desrespeito à ética, como o cinismo, o banditismo e a corrupção. Ao considerar-se pertencente ao restrito grupo de pessoas éticas na sociedade, o indivíduo isenta-se da responsabilidade de agir diante dos problemas sociais e apenas aceita a situação deteriorada do país como algo imutável, já enraizado na realidade brasileira.
 

Atenção

A coletânea não pode ser copiada pelo participante da prova! O que se espera é que o candidato reflita sobre o conteúdo desses textos e, a partir disso, use os fatos que conhece para desenvolver seu próprio texto. Ele pode, porém, a partir da coletânea, aproveitar raciocínios interessantes para o plano da sua dissertação. Vejamos:
 

  • O que é ética? O brasileiro delimita sua ética com base em quê (leis, tradição...)?
     
  • Sempre houve comportamento antiético nas sociedades humanas? E no Brasil?
     
  • A população brasileira possui comportamento predominantemente ético ou antiético? Que exemplos ajudam a provar isso?
     
  • Os valores sociais brasileiros mudaram com o passar do tempo? Como, quando e por quê? Que exemplos concretos podem ser dados para provar isso?
     
  • Como é possível provar que a generalização conduz a julgamentos falhos? Que valores e circunstâncias devem ser levados em conta para determinar o que é ético ou não, sem cair na generalização (tanto em relação à acusação quanto em relação ao conformismo)?

    Enfim, depois de analisar com muita atenção todos os textos que compõem a coletânea, relacionando-os pelos pontos complementares ou de oposição, torna-se mais simples levantar essa série de perguntas polêmicas que ajudam a mostrar o que há para ser discutido em relação ao tema sugerido. Para cada questão, o candidato deve vasculhar seu arquivo de conhecimentos prévios em busca de informações precisas, exemplos criativos e que sirvam bem a determinados propósitos. Só depois de ter todo esse conjunto de dados anotados é que ele deve, seguindo as orientações do enunciado inicial, começar a construir a "planta" de seu texto, com o roteiro de análises, parágrafo por parágrafo, respeitando a estrutura e as características da dissertação argumentativa.

    A coletânea de qualquer prova de redação deve servir ao aluno como ponto de apoio, pois, lendo-a com atenção, de modo interpretativo, este chegará a inúmeros questionamentos que o conduzirão à busca de suas verdades para, depois, construir um texto que dialogue com os textos da coletânea e com o público em geral.
     

Sueli de Britto Salles, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é mestra em língua portuguesa, leciona em cursos universitários e participa de bancas corretoras de redações em vestibulares.

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