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Inocência - Análise do livro de Visconde de Taunay

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

O professor, político, historiador e sociólogo carioca Alfredo d'Escragnolle-Taunay (1843-1899) escreveu apenas um livro dentro do gênero denominado de regionalismo romântico, "Inocência" (1872). Conseguiu com ele, porém, um ótimo resultado. Deu um tom regional e coloquial ao seu texto e, ao mesmo tempo, conseguiu descrever a paisagem brasileira e criar uma narrativa que cativa o leitor.

Ambientado no sertão de Mato Grosso, em 1860, o romance tem como protagonista Inocência. Órfã de mãe, ela foi criada pelo pai, o mineiro Martinho dos Santos Pereira, que pauta a sua vida por valores como a honra e a palavra dada, além do amor incondicional pela filha. Julgando que está fazendo o melhor por ela, decide casá-la com Manecão Doca, um homem simples e rude, mas rico.



Paixão e final trágico

O drama se instaura quando aparece o prático de enfermagem Cirino Ferreira de Campos, caipira de São Paulo, criado em Ouro Preto, 25 anos, que cavalgava pelo sertão realizando curas de maleitas e febres. Ao curar Inocência, desperta nela uma grande paixão, que terá um final trágico, pois Manecão, inconformado com o desinteresse da noiva pelo casamento, termina por matar o rival numa estrada. Tempos depois, Inocência, melancólica, também falece, numa morte e tristeza própria do romantismo.

Cristaliza-se assim a lógica romântica: ou o par central realiza seu amor em vida, vivendo felizes para sempre, ou os protagonistas acabam por se encontrar em outro plano, morrendo.

Dois anos depois de sua morte, o naturalista alemão Meyer recebe, na Alemanha, uma homenagem da Sociedade Geral Entomológica e da imprensa, pela descoberta de uma borboleta (Papilio Innocentia), à qual dera esse nome justamente para imortalizar a jovem brasileira que conhecera no sertão.

Meyer é um personagem muito interessante. Ele viajava pelo interior do Brasil catalogando insetos e, após elogiar a beleza da filha de Pereira, torna-se objeto da desconfiança dele e de Manecão. Porém, enquanto eles julgam que o cientista é a causa da frieza da moça, não percebem que abrem caminho para que a relação entre os jovens brote ainda com mais força.



Descrições realistas

O romance, considerado por alguns uma espécie de Romeu e Julieta (obra de Shakespeare) do sertão brasileiro, região que o autor conheceu bem em suas andanças como militar, não sucumbe ao excesso de sentimentalismo, com descrições bastante realistas da natureza brasileira. O fato de ele ter conhecido os ambientes que descreve faz uma grande diferença.

Taunay consegue, ao longo da obra, realizar uma bem contada história de amor, com final trágico, a partir de um triângulo amoroso, repleta de descrições do modo de falar e de viver do sertão brasileiro.

Essa combinação é rara na literatura brasileira, pois exige o domínio de dois tipos de discurso: o romântico e o realista, ou melhor, uma fabulação atraente com componente amoroso e elementos descritivos do ambiente e da fala regional.

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista, mestre em artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

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