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Naturalismo: O "romance de tese"

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

O naturalismo desenvolveu-se paralelamente ao movimento realista, sendo uma espécie de realismo que carrega nas tintas. Nem por isso deixou de dar origem a obras de grande valor, apesar de - no Brasil - primar pela mediocridade.

Influenciado pelo desenvolvimento das ideias científicas na época, especialmente na área das ciências biológicas e sociais, o Naturalismo tentava explicar de forma materialista ou científica os fenômenos da vida e do comportamento humano.

Em outras palavras, buscava as explicações dos fatos sociais e pessoais, por meio do determinismo, das relações de causa e efeito das ciências. Acreditava-se que os acontecimentos e atitudes eram decorrentes ou condicionados pelo meio físico, pelas circunstâncias vividas ou pela etnia, segundo as ideias do filósofo francês Hypolite Taine.



Romances de tese

Isso fica claro em romances e contos, nos quais as personagens são o resultado da sua descendência e das condições em que vivem. Condicionadas pela situação, seu livre arbítrio inexiste e não lhes resta a menor chance de evoluírem por si mesmas.

As obras naturalistas são também chamadas de romances de tese: apresentam um ponto de vista e tentam demonstrá-lo através dos fatos narrados. Em geral, focalizam o lado patológico dos indivíduos ou da sociedade, ou seja, as piores situações sociais, como: traição, atentado ao pudor, exploração sexual etc.

Em seguida, procuram os motivos de tais problemas, encontrando-os na etnia, nos costumes, no ambiente social, no temperamento, na falta de valores morais e na libertinagem. Enfim, dissecavam as taras humanas, vistas como consequências da hereditariedade, de doenças, vícios, má formação do caráter e das relações sociais.



Descrição e distanciamento

As cenas, narradas com tantos detalhes, em descrições caudalosas, são verdadeiros retratos ou quadros da situação. Os personagens que a protagonizam são muito mais estereótipos do que seres humanos.

Os autores procuram assumir a postura de cientistas que observam experimentos. Tentam ser o mais objetivos possíveis, demonstrando distanciamento e impessoalidade no trato dos fatos do romance, como se estivessem num laboratório, diante de cobaias.

Os autores brasileiros estavam influenciados pelo português Eça de Queirós e pela produção francesa - mais especificamente pelos romances de Émile Zola, como "Thérèse Raquin" (1867), que introduziu o Naturalismo literário em seu país.

Zola, por sua vez, tinha suas ideias moldadas no evolucionismo de Darwin e no positivismo religioso de Comte, os principais responsáveis pelos estudos e pesquisas que deram fôlego e material de trabalho à literatura.



Autores brasileiros

Os que mais se destacam neste universo fatalista são: Inglês de Sousa, com "O Missionário" (1888); Domingos Olímpio, com "Luzia-Homem" (1903); Adolfo Caminha, com "O Bom Crioulo" (1895); Júlio Ribeiro, "A Carne" (1888) e, principalmente, Aluísio Azevedo, com sua obra prima, "O Cortiço" (1890).

A exceção deste último, que ocupa sem dúvida um lugar de destaque em nossa literatura, Inglês de Souza, Adolfo Caminha e Júlio Ribeiro excessivamente descritivos, preocupados em pintar detalhadamente um retrato físico dos personagens e dos cenários em que eles se movimentam, produziram antes de mais nada uma literatura chata, aborrecida, onde a narração é de tal forma entrecortada pelos caudalosos trechos descritivos que o leitor precisa ter paciência - e não pouca - para chegar da primeira à última página.

O esquematismo não deixa de estar presente também nos referidos autores. Senão no invariável caráter trágico do enredo, ao menos na suposta análise científica que os romances naturalistas fazem de seus temas, reduzindo os personagens a criaturas determinadas pelo meio físico e por seus instintos sexuais mais animalescos ou, pior, animalizados pelos autores, com o intuito de demonstrar suas teses.



Denúncia vazia

Ora, há limites óbvios entre a arte e a ciência e, quando se tenta desconsiderar esses limites, o resultado é inevitalmente arte de má qualidade ou anticiência, como se vê em obras como "O Missionário" (1888), de Inglês de Souza, ou "A Normalista" (1893), de Adolfo Caminha, ou ainda "A Carne" (1888), de Júlio Ribeiro.

Nas três obras, o que não faltam são preconceitos e chavões deterministas, difundidos em nome de uma suposta denúncia crítica da sociedade (burguesa). Sem falar que a trama abusa sempre de aspectos escabrosos do corportamento humano e de seus tipos mais mesquinhos, resvalando inevitavelmente para as cenas ou episódios de mau gosto.

Nesse sentido, é plausível encerrar essa breve avaliação do naturalismo brasileiro com duas citações. O filósofo oitocentista Karl Marx, nas "Teses contra Feuerbach", disse que "a filosofia se limitou a explicar o mundo, cabe transformá-lo". Referindo-se ao próprio Marx e aos pensadores que seguiram sua filosofia, o cientista político francês Raymond Aron (1905-1983), mais percucientemente, disse que "os intelectuais não querem nem explicar nem transformar o mundo, mas somente denunciá-lo".

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