Sociologia

Cultura política - abordagem culturalista: Estudos foram influenciados pelo determinismo

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Quando utilizamos a expressão cultura política podemos estar nos referindo ao conjunto de atitudes, normas, crenças e valores políticos partilhados pela maioria dos membros de uma determinada sociedade ou nação. Além disso, o tipo do sistema ou regime político em vigor num determinado país, incluindo as instituições políticas existentes, também integram o conceito de cultura política.

Como se vê, a cultura política de uma determinada sociedade ou nação representa um vasto e complexo campo para a pesquisa social. Vasto porque lida com uma multiplicidade de variáveis (ou fatores) que integram a cultura política propriamente dita, entre elas: a) o comportamento de apatia (alienação) dos cidadãos; b) os graus de confiança e de tolerância; c) a adesão ou recusa a determinadas formas de ação política e instituições, em detrimento de outras; d) as configurações das forças políticas atuante; e) as identidades partidárias; e f) os modos como os conflitos políticos que surgem no sistema são percebidos e solucionados.

Esses e muitos outros fatores envolvendo práticas comportamentais - direcionadas às esferas de ação política - podem ser agregados ao conceito de cultura política. A cultura política também é um campo de pesquisa bastante complexo, porque os padrões de crenças e valores políticos não são fenômenos estáticos. Ou seja, como eles mudam, a cultura política também pode sofrer transformações no transcurso de determinado período de tempo.

Além disso, uma configuração predominante de valores, crenças e atitudes convive com outras configurações, menos influentes, as chamadas subculturas políticas, que podem ser condicionadas por diferenças de classes sociais, religião, etnia, fatores geracionais (diferenças entre gerações), entre outras. Tais diferenças estão presentes e atuantes em uma mesma sociedade.

Há também teóricos que chegam a mencionar a existência de uma cultura política das massas e uma cultura política das elites.

 

Influências antropológicas

No âmbito da ciência política, os primeiros estudos acadêmicos (elaborados no início do século 20) envolvendo a noção de cultura política sofreram fortes influências intelectuais provenientes das pesquisas antropológicas, sobretudo da antropologia culturalista.

Por conta dessa influência - um paradigma inerente, mas superficial -, a maioria desses estudos foi marcado pelo determinismo, o que se traduziu numa visão distorcida da realidade, sob a alegação de que cada nação apresenta uma configuração específica de valores, crenças e práticas políticas, homogêneas e imutáveis, que derivam de características naturais ou inatas de cada povo (sobretudo da raça e etnia).

Aliado à ausência de uma sólida base de fundamentação empírica, o enfoque determinista produziu resultados equivocados que se traduziram em visões preconceituosas sobre as sociedades estudadas.

Além dessas deficiências e limitações, as abordagens de raízes culturalistas produziram análises apriorísticas sobre o "destino político" das nações, ao indicarem que, por exemplo, a democracia, o autoritarismo, o militarismo, a ditadura eram sistemas políticos derivativos de determinadas culturas políticas.

Consequentemente, supunha-se que as matrizes culturais dos povos bloqueariam qualquer tentativa de mudança de sistema político. O que não é verdade.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política - 1972-1985.

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