Sociologia

Cultura política - abordagem marxista: Gramsci valorizou a esfera cultural

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

O filósofo alemão Karl Marx, bem como as diversas gerações de pensadores marxistas, tratou a esfera da cultura política como um fenômeno sem importância, principalmente pelo fato de concebê-la como uma esfera da vida social que não possuía autonomia.

Na perspectiva marxista, a cultura política era determinada pela infra-estrutura da sociedade, representada pelo modo de produção da vida material.

Consequentemente, para o pensamento marxista ortodoxo, a cultura política teria pouca ou nenhuma relevância para a análise social, já que toda discussão sobre valores, crenças e sistemas políticos redundaria no pressuposto determinista de que esses elementos não passavam de projeções que asseguravam os interesses das classes dominantes.

O filósofo italiano e revolucionário marxista Antonio Gramsci, porém, conseguiu romper com essa visão ortodoxa e produziu estudos importantes (cuja influência perdura até os dias de hoje) sobre os processos políticos, a partir da valorização da esfera cultural.
 

Coerção e consenso

O conceito de hegemonia política de Gramsci, por exemplo, é resultado de uma análise mais sofisticada dos fenômenos político-culturais.

Gramsci sugeriu que a classe dominante (ou classe dirigente) emprega a ideologia como parte de um arcabouço político para impor seus interesses às outras classes sociais.

A dominação, para Gramsci, tem duas faces: é exercida, por um lado, por meio da "coerção estatal", representada pela aplicação das normas e leis; e, por outro, por meio do "consenso", que é obtido através das ideias.

Ou seja, a existência de um determinado regime ou sistema político requer que seu próprio funcionamento e sua estabilidade institucional sejam aceitos como legítimos por parte de todos os grupos e classes sociais que integram a sociedade.

Na opinião de Gramsci, os valores e as crenças políticas se converteram no principal foco da ação revolucionária, como parte de uma estratégia para quebrar a hegemonia política da classe dominante.

O passo seguinte - que, até hoje, não se realizou em termos práticos, ou seja, históricos - seria a construção de um modelo alternativo de regime ou sistema político fundamentado em uma nova base consensual e centrado nos interesses do proletariado.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política - 1972-1985.

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