Sociologia

Liberal-socialismo - o legado: Superação de diferenças, Welfare State e Terceira Via

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

A ideologia liberal-socialista nasceu de um processo de autocrítica e revisionismo interno, suscitado pela crise das respectivas correntes de pensamento político: o liberalismo clássico (laissez faire) e o socialismo marxista.

A conciliação de alguns princípios contidos em ambas as ideologias num sistema diferente, mas único, exigiu, porém, que cada corrente de pensamento abandonasse alguns dogmas.

Os socialistas não aceitavam um mercado livre de regulamentação e deram ênfase à solidariedade e à igualdade social, fundamentadas numa concepção de Estado interventor que fosse capaz de controlar as forças de mercado e prover as bases de uma sociedade capitalista igualitária e justa.

Não obstante, no decorrer do processo de revisionismo, os socialistas precisaram aceitar as conquistas da democracia liberal, fundamentadas nos direitos políticos e nas liberdades individuais assegurados pelo constitucionalismo.

Por sua vez, os liberais tiveram que superar o dogma que concebia o laissez faire como princípio econômico (na verdade, uma concepção ético-filosófica) indissociável da doutrina do liberalismo clássico.

Os liberais do início do século 20 se defrontaram com um mundo em rápida mudança, provocada pelo avanço do capitalismo industrial e pela formação das massas proletárias, que se organizaram e passaram a exigir, dentre outros direitos, a melhoria das condições de trabalho e de vida social.

Nesse contexto, os liberais foram forçados a rediscutir o papel e a função do Estado no progresso material e social das sociedades capitalistas.

O legado do liberal-socialismo

A ideologia liberal-socialista amadureceu no final da primeira metade do século 20 e, sem dúvida alguma, influenciou profundamente os rumos da política econômica dos países da Europa ocidental.

Essa influência pôde ser percebida com mais nitidez após a Segunda Guerra Mundial, período marcado pelo surgimento de um novo tipo de Estado: o Estado do bem-estar social (ou Welfare State) nos países europeus ocidentais.

O Estado do bem-estar social está baseado nos princípios de progresso material e na justiça social. Esses princípios, por sua vez, estão assentados na aceitação de uma economia de livre-mercado em que haja uma coexistência de empresas privadas e estatais, no planejamento e relativa intervenção do Estado na economia (sob a forma de regulamentação do mercado) e na criação de estruturas de serviços públicos essenciais (tais como seguridade social, educação e assistência a saúde, entre outros).

O liberal-socialismo é também considerado a ideologia política do que se convencionou chamar de Terceira Via (ou Terceiro Caminho). A Terceira Via representa um novo projeto de Estado e sociedade, que foi planejado para fazer frente à conjuntura de polarização envolvendo a sociedade capitalista ocidental e o comunismo soviético.

O liberal-socialismo é um esforço de síntese entre os dois modelos contrastantes de organização social. Nos países europeus ocidentais, a chamada Terceira Via esgotou-se em meados da década de 1970, devido à crise do Estado do bem-estar social.

Paradoxalmente, porém, o conceito de Terceira Via foi amplamente difundido na América Latina entre o final da década de 1980 e início dos anos 90, numa conjuntura marcada pela redemocratização dos países que haviam passado pela experiência de regimes e ditaduras militares.

Na década seguinte, a Terceira Via deixou de ocupar o centro do debate político latino-americano.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política - 1972-1985".

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