Sociologia

Liberal-socialismo - primeiras formulações: De Stuart Mill a Guido Calogero

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

As primeiras formulações teóricas sobre a doutrina do liberal-socialismo surgiram na primeira metade do século 19, em alguns países europeus, em particular na Alemanha, França e Inglaterra.

Dentre outras influências, o liberal-socialismo pode ser entendido como a síntese de alguns dos princípios básicos do liberalismo clássico e do socialismo emergente, que começava a ganhar força em razão dos escritos de importantes pensadores sociais, como Marx e Engels.

A nova doutrina recebeu contribuições tanto de intelectuais liberais como dos socialistas. Mas é importante ressaltar, porém, que o liberal-socialismo se originou da insatisfação dos ideólogos liberais, que submeteram a doutrina do liberalismo clássico a várias críticas.

O filósofo inglês John Stuart Mill (1806-1873) é apontado como o precursor da ideologia liberal-socialista ao defender a incorporação, no âmbito da concepção liberal de Estado, de alguns princípios socialistas pré-marxistas, tais como a distribuição relativa da riqueza material gerada no âmbito das sociedades capitalistas e o fim dos privilégios e desigualdades sociais.

Além desses elementos, Stuart Mill foi um defensor da intervenção estatal moderada na economia, como forma de sanar alguns efeitos indesejáveis ou perversos do capitalismo da época, que funcionava sob o princípio do livre mercado ou laissez faire, expressão de origem francesa (cujo significo literal é deixar ir ou deixar fazer) que serviu como fundamento da filosofia econômica do século 18.


 

Evolução da ideologia liberal-socialista

Entre o final do século 19 e início do século 20 o liberal-socialismo recebeu novas contribuições, provenientes de várias correntes de pensamento social, e desse modo tornou-se uma ideologia mais consistente.

O debate sobre o liberal-socialismo permaneceu centrado nos países europeus ocidentais, mas desta vez foram os teóricos e intelectuais pertencentes às mais variadas vertentes ideológicas socialistas que rediscutiram a doutrina liberal e a integração de alguns de seus princípios, de modo a reformular a doutrina marxista ortodoxa.

Décadas de intensos debates nessa área acabaram por dar forma ao chamado "socialismo democrático", que absorveu alguns princípios basilares do liberalismo político, tais como o método político-parlamentar, que representa o canal institucional para a conquista do poder político estatal, tendo por objetivo consolidar estruturas sociais mais justas em benefício das classes operárias e populares, mas respeitando, porém, a propriedade privada dos meios de produção e a permanência da economia capitalista de mercado.

Os principais teóricos do socialismo democrático (ou socialismo liberal) dessa fase foram: os italianos Francesco Saverio Merlino (1853-1930), Carlo Rosselli (1899-1937) e Guido Calogero (1904-1986); e o inglês Leonard Hobhouse (1864-1929).

A partir da década de 1930 até o período do pós-guerra, o debate sobre o socialismo democrático foi retomado pelos intelectuais e ideólogos liberais.



Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política - 1972-1985".

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