Sociologia

Modernização (2): Transformação social

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

A modernização social sofre grande influência da modernização econômica. A industrialização, por exemplo, altera profundamente a distribuição demográfica das populações. A mecanização da agricultura é um dos fatores que acarretam êxodo de mão-de-obra excedente para a zona urbana. Além disso, o crescimento da oferta de emprego gerado pela expansão da indústria acaba atraindo mais pessoas (que antes viviam no campo) para as cidades.

Os empregos gerados pela indústria e pelo comércio nas zonas urbanas dão origem à necessidade de mão-de-obra especializada. Neste aspecto, a exigência de alfabetização aparece como primeiro requisito para aquisição de conhecimentos profissionais. A alfabetização pode ser considerada o processo primário de instrução dos indivíduos.

A alfabetização em larga escala através da oferta de escolarização pública estimulará o surgimento dos meios de comunicação de massa, cujo exemplo mais importante é a imprensa. Embora tenha surgido devido às necessidades de profissionalização, a alfabetização também aparece como exigência do processo de socialização, que é o meio pelo qual os indivíduos assimilam novos valores sociais. Com o passar dos anos, a alfabetização ganhará status social e passará a ser considerada um valor cultural e um direito do cidadão.

Mobilidade social

Outro fenômeno importante constitutivo do processo de modernização social (e que também é diretamente influenciado pela modernização econômica) é a estratificação social, que pode ser entendida como uma mudança nos padrões de mobilidade social (horizontal e vertical).

A mobilidade social de caráter horizontal está relacionada com o aumento do deslocamento geográfico dos indivíduos, reflexo das migrações internas. Esse deslocamento é causado pela movimentação espacial dos indivíduos que deixam o campo e rumam para as cidades e que também se deslocam de uma cidade para outros meios urbanos.

A mobilidade social vertical está relacionada com a constituição de classes sociais e o surgimento dos valores de ascensão social. A estratificação social altera profundamente os padrões de sociabilidade, que passam a se assentar na solidariedade grupal a partir do desempenho de funções produtivas semelhantes.

A ideologia de ascensão social, por outro lado, desempenha importante papel na busca dos indivíduos pela superação da condição de classe. Um elevado grau de escolarização e uma boa formação educacional e profissional se transformam em bens capazes de alterar os padrões de mobilidade social vertical.

Entendendo as crises

O conceito de modernização foi um instrumento analítico muito importante para a área de pesquisa em ciências sociais. A título de ilustração, cumpre destacar que o conceito de modernização foi muito empregado para se entender períodos e conjunturas de crises políticas que afetaram o Brasil.

O período da República Velha (1889-1930), por exemplo, foi marcado pela adoção do voto popular e de eleições periódicas para constituição do governo representativo. Não obstante, o sistema político representativo foi considerado muito avançado para um país predominantemente agrário, com a maioria da população vivendo na zona rural e sob controle dos grandes latifundiários.

O fenômeno do coronelismo é explicado sociologicamente a partir da existência de um sistema político representativo avançado (portanto, moderno) em funcionamento numa sociedade arcaica, atrasada social e economicamente.

Paradoxalmente, as frequentes crises de governabilidade que marcaram o período populista (1945-1963), em que a mais grave provocou o golpe militar de 1964, foram comumente interpretadas como a incapacidade do sistema político de canalizar eficazmente as crescentes demandas sociais geradas pelos processos de modernização econômica e social que afetava a sociedade brasileira.

Nesse caso, em particular, o sistema político não conseguiu acompanhar as rápidas mudanças na estrutura econômica e social. O país se modernizava econômica e socialmente, mas o sistema político foi incapaz de acompanhar as transformações que acabaram gerando graves crises institucionais.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política - 1972-1985".

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