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Sociologia


Norbert Elias - o autocontrole - Coerção e interdependência

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Norbert Elias dá importância ao estudo da vida cotidiana para elucidar como as práticas sociais, incluindo a conduta e as atividades humanas, são produzidas e reproduzidas continuamente através do fluxo constante da vida em sociedade.

Segundo Elias, são os próprios indivíduos que constroem, dão forma e mantêm as configurações sociais baseadas em teias ou cadeias de interdependência, firmadas a partir do momento em que duas ou mais pessoas interagem socialmente.

Mas a questão é entender como os indivíduos se relacionam no fluxo da vida cotidiana e contribuem para manter estabilizadas as relações e práticas sociais. De acordo com Elias, as formações sociais passaram, num determinado período histórico, por mudanças que resultaram num processo de autocontrole.

O autocontrole representou uma importante mudança de caráter individual, pois os impulsos afetivos e emocionais não puderam mais ser vivenciados como antes nas relações cotidianas. Essa metamorfose transformou a compulsão externa interpessoal em compulsão interna individual.

A partir desse ponto, muitos impulsos afetivos foram controlados subjetivamente, impedindo a manifestação de comportamentos violentos em contextos de interação social. Não podemos esquecer, contudo, que os autocontroles individuais surgiram no âmbito da vida social. Assim, o maior distanciamento reflexivo foi acompanhado da diminuição da ação afetiva espontânea.

A orientação da conduta individual

Como explicar então o controle mais firme, mais geral e uniforme das emoções, juntamente com o aumento da compulsão interna? O que impede que todos os impulsos espontâneos se manifestem direta e imediatamente, no momento da ação social?

É na própria teia de interdependência que Elias encontrará a resposta para a orientação da conduta individual, em face dos outros indivíduos situados nas mesmas cadeias de interdependência. As teias de interdependência agrupam indivíduos que dependem uns dos outros - e esses laços de dependência (ou necessidades) são, em sua grande maioria, gerados socialmente.

À medida que as cadeias de interdependência tendem para uma maior diferenciação e integração, elas produzem alterações nas emoções e nas estruturas de controle dos indivíduos em sociedade.

Configuração das redes sociais

As duas ordens de mudança são, na verdade, processos que ocorrem simultaneamente - e que não podem ser compreendidos separadamente.

As teias de interdependência devem passar por uma transformação qualitativa, ou seja, não basta aumentar a quantidade de indivíduos ao longo das cadeias de interdependência, mas, sim, aumentar a complexidade e diversificação da rede de interesses e necessidades. É essa rede que leva os indivíduos a formarem cadeias de interdependência e, também, o nexo do que Elias denomina de configuração.

Para Elias, a cognição também é levada em consideração como um elemento presente nas ações motivadas que os indivíduos empreendem em locais ou contextos de interação. Entretanto, o autor privilegia as coerções que se originam no seio da própria teia de interdependência, levando os indivíduos a se comportarem de determinada maneira - o que mantém estabilizadas as práticas e atividades sociais.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política, doutorando em ciências sociais e autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política -1972-1985" (Edufscar).

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