"Jente", "jigante" e "keijo"? Professor defende ortografia mais simples para o português

Carla Hosoi
Especial para o UOL :Educação

São Paulo

Por que estender com ‘s’ e extensão, com ‘x’? Por que água-de-coco com hífen e suco de uva, sem? Por que Nova Guiné sem hífen e Timor-Leste e Guiné-Bissau, com? Por que água-de-colônia com hífen e água de cheiro, sem?

Quem já estudou gramática sabe: a língua portuguesa é um mundaréu de regras – e exceções. Isso torna a ortografia um dos grandes desafios para quem quer escrever de acordo com a norma culta. Para o professor Ernani Pimentel, que já causou muita polêmica na mídia por defender uma escrita mais simples, nosso idioma ficaria melhor sem tanta confusão entre gês e jotas, agá e sem agá, hífen ou sem hífen.

Não tem jeito: as exceções das regras têm de ficar na cabeça na base do decoreba. Pimental é contra. “Hoje não interessam mais fórmulas dogmáticas e irracionais. As regras têm de ser lógicas, baseadas no entender e raciocinar”, diz.

Atualmente, cerca de 400 horas são gastas para ensinar ortografia no ensino básico do Brasil. Para ele, a simplificação das regras e a eliminação das exceções permitiriam usar esse tempo para aprender outras coisas.

Pimentel lista sugestões para tornar mais fácil a escrita.  O ‘h’ sumiria. As palavras com som de “jê/gê” ou “ji/gi” seriam escritas com ‘j’, não com ‘g’. “Nas línguas nórdicas, o ‘g’ tem sempre som de ‘gue’. Aqui deveria ser assim”, diz. O ‘s’,’c’,’ç’ se resumiriam a uma única letra quando usadas no meio da palavra. Já a letra ‘k’ entraria de vez na nossa língua, não apenas em palavras estrangeiras.

 “Acordo ortográfico é retrocesso, não evolução”

Pimental é um dos maiores críticos do Acordo Ortográfico de 1990, que vigora por aqui desde janeiro de 2009. “O Brasil está falando sozinho. Todos os outros países que usam o português sabem das enormes barreiras que impedem o aprendizado das novas regras”, diz.

Entre os países signatários, o Brasil determinou que, até o fim de 2012, coexistem as normas da antiga e da nova grafia. Depois disso, só as regras do Acordo serão aceitas. Portugal estendeu o prazo para 2015, mas pretende colocar a lei em prática apenas em 2018. Moçambique e Angola não vão colocar as normas em vigor. Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste aguardam a implementação.

Segundo o professor, o Acordo desrespeita algumas de suas determinações. Por exemplo, de que deveria ter sido publicado o Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, com termos técnicos e científicos acordados por todos os envolvidos. Mas até hoje esse documento não existe. O que vale é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), que se fundamenta apenas em Brasil e Portugal.

“Isso já é um desrespeito ao Acordo, pois há muitas contradições entre este e o Volp. O primeiro diz que a grafia correta de azeite de dendê é sem hífen, enquanto o VOLP sugere com hífen”, esclarece. Já as palavras an-hidro, co-herança, re-humanizar são escritas dessa maneira pelo Acordo, mas perdem o hífen no VOLP.

Por lei, a ABL (Academia Brasileira de Letras), é obrigada a ter a aprovação do Congresso Nacional e das oito partes envolvidas em qualquer alteração que promove no Acordo. “Mas eles incluem ou excluem regras sem considerar suas próprias bases legais. No que diz respeito ao hífen, por exemplo, a ABL incluiu prefixos que eliminavam o hífen antes do h sem consultar ninguém. O trema, por exemplo, nunca deveria ter sido excluído da nossa língua”, defende.

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