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Tecnologia leva ensino médio a comunidades isoladas do Amazonas

Alunos assistem a aulas a distância para o ensino médio em de Parintins (AM) - Divulgação/Seduc-AM
Alunos assistem a aulas a distância para o ensino médio em de Parintins (AM) Imagem: Divulgação/Seduc-AM

Luciana Alvarez

Do UOL, em São Paulo

12/03/2012 14h35

Todos os anos, até 2007, os milhares de estudantes de comunidades rurais do Amazonas que terminavam o ensino fundamental não podiam dar prosseguimento aos estudos no local onde moravam. A dificuldade de acesso a uma escola de ensino médio os impedia de estudar. Há cinco anos, porém, a questão geográfica, com inúmeras comunidades rurais praticamente isoladas, está sendo superada com ajuda da tecnologia. O modelo de ensino a distância (EAD) estimulou a criação de um programa governamental que permite o acesso desses alunos ao ensino médio sem que eles saiam da comunidade. Pelo sistema, já passaram 19 mil estudantes.

Embora existam escolas de ensino médio em todos os municípios do Estado, o governo não consegue oferecer colégios regulares nas mais de 6.000 comunidades do Amazonas. “Era necessário pensar em uma alternativa devido ao tamanho do Estado; temos quase um quinto do território nacional”, afirma o professor José Augusto de Melo Neto, coordenador do Central de Mídias da Educação, responsável pelo EAD no Amazonas.

Em alguns lugares, diz Melo Neto, o acesso a uma escola que ofereça ensino médio leva dias. “Antes, o estudante tinha de se mudar para um centro urbano se quisesse continuar os estudos. Agora, ele tem a opção de ficar onde está”, completa. No início, em 2007, o projeto atingia 200 escolas de ensino fundamental que, equipadas, passaram a funcionar também como centros de educação a distância para o ensino médio. Para este ano, estão previstas 800 unidades conectadas, beneficiando um total de 32 mil alunos.

A Secretaria de Educação do Amazonas classifica o sistema como ensino presencial com mediação tecnológica. Isso porque grupos de alunos se reúnem no mesmo horário (à tarde ou à noite) para participar de aulas por meio de videoconferências.

  • Divulgação/Sec. Educação do Amazonas

    Professoras dão aula a distância a partir de um estúdio de transmissão, no Amazonas

O texto institucional da secretaria afirma que o sistema permite que professores e alunos interajam como se estivessem no mesmo espaço físico. Na prática, porém, a interação encontra barreira na própria dimensão do programa. Os alunos deste ano serão divididos em oito grupos –uma média de 4 mil alunos conectados ao mesmo tempo, assistindo às explicações de um só professor. Por haver câmera e microfone em sala, a interação é possível.

Para a consultora de EAD Marta Maia, da FGV (Fundação Getulio Vargas), o tamanho das turmas põe em cheque o aprendizado. “Além de passar conteúdo com qualidade, o professor tem o papel de estimular e acompanhar o processo de aprendizagem. Com tantos alunos, é impossível”, avalia. José Manuel Moran, professor de novas tecnologias da USP (Universidade de São Paulo), concorda: “Não basta a transmissão do conteúdo, é preciso alguém que oriente e supervisione, sobretudo quando se trata de jovens”, diz.

Para tentar suprir essa necessidade, no EAD do Amazonas, além do professor especialista em cada disciplina, que dá aula para milhares a partir de um estúdio em Manaus, existe a figura do tutor da turma. O tutor está fisicamente presente em cada sala de aula, fazendo a mediação e acompanhando de perto o desempenho dos estudantes. “Nosso modelo é uma combinação de EAD com ensino presencial, porque tem professor dos dois lados”, afirma José Augusto de Melo Neto, responsável pelo EAD no Amazonas.

O conteúdo das aulas é produzido em três estúdios de TV do Centro de Mídias, em Manaus. É de lá que uma equipe de professores ministra as aulas, transmitidas em tempo real via satélite para as escolas. Cada uma das salas de aula está equipada com um kit tecnológico composto por antena, roteador-receptor de satélite, microcomputador, webcam com microfone embutido, TV de 37 polegadas, impressora e estabilizador.

O conteúdo das dez disciplinas do ensino médio é dividido em módulos. Esgota-se um assunto antes de partir para outro, enquanto nas escolas presenciais as disciplinas são intercaladas. A carga horária é a mesma do ensino médio tradicional, com 800 horas/aula anuais, conforme prevê a LDB (Lei Diretrizes e Bases da Educação).

Qualidade do ensino
As taxas de evasão e de aprovação, assim como as notas dos alunos em exames nacionais de desempenho, estão dentro da média do Estado, segundo a coordenação do programa. Como os estudantes têm aulas em unidades pequenas, e poucos apresentam interesse em prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), apenas um centro de ensino mediado por tecnologia teve mais de dez participantes no exame de 2010, o único com a média divulgada pelo MEC (Ministério da Educação): 500 pontos. As escolas públicas do Estado alcançaram média de 531. “Isso mostra que essa modalidade de ensino tem a mesma qualidade das demais”, diz Melo Neto.

A oferta de escolas com ensino a distância para o ensino médio quadruplicou em cinco anos. Além disso, o projeto ganhou prêmios nacionais e internacionais. Apesar de o modelo ser avaliado como um sucesso pelo governo, não há intenção de que o ensino médio a distância substitua o tradicional. “Estamos ampliando o atendimento, não o substituindo. A melhor fórmula para nossa realidade é a combinação”, afirma Melo Neto. A intenção é continuar a expansão do sistema, levando o ensino a distância para 4.000 das 6.000 comunidades do Estado, e oferecer por meio da modalidade também o ensino fundamental.

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