Topo

'Precisamos de mais índios na universidade', diz professor kaiowá

Arquivo pessoal
O antropólogo Tonico Benites (centro) durante pesquisa de campo em 2011 Imagem: Arquivo pessoal

Marcelle Souza

Do UOL, em São Paulo

2013-04-19T08:09:55

19/04/2013 08h09

Aos 8 anos, Tonico Benites sentou em uma cadeira de escola pela primeira vez. Nascido na aldeia Sassoró, em Tacuru (MS), o guarani-kaiowá queria aprender a ler e a escrever, mas ainda não entendia uma só palavra do português. Era o primeiro de muitos desafios que ele iria encontrar pela frente.

“Aprendi português na escola e estou aprendendo até hoje”, diz.

Hoje aos 41, Benites está prestes a concluir o doutorado em antropologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), tornou-se especialista em educação indígena e dá aulas na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados).

Benites pertence à etnia Kaiowá, um subgrupo dos guaranis que tem população de cerca de 30 mil pessoas, localizadas principalmente na região sul do Mato Grosso do Sul. Nasceu na década de 1970, quando se intensificaram as desapropriações de terras indígenas, processos que geram violentos conflitos e elevados índices de suicídio até hoje na região.

Primeiro a concluir, em 1993, o ensino fundamental na reserva em que morava, o professor já perdeu as contas de quantos kaiowás ensinou a ler e a escrever. E, apesar dos prédios improvisados, do preconceito e do desafio da alfabetização bilíngue, nunca deixou de acreditar no poder de dar mais autonomia ao índio a partir da educação.

A primeira escola em que Tonico Benites estudou pertencia a uma missão evangélica e atendia tantos aos índios da aldeia Sassoró como aos filhos de trabalhadores rurais da região. “Éramos chamados de ‘bugres’, ‘sujos’. Às vezes, tinha briga na estrada”, conta.

Entre a 1ª e a 4ª série do ensino fundamental, foram seis anos de estudo e algumas reprovações. Viu muitos amigos desistirem da escola por causa das diferenças culturais, da falta de apoio da família e das dificuldades na hora de aprender o português.

“Os professores diziam que a gente era índio, mas que, em pouco tempo, ia virar ‘brasileiro’. Por isso, tínhamos que cantar o hino nacional e fazer orações todos os dias. Hoje sei que era uma política nacional, uma ideia de que em pouco tempo a nossa cultura ia acabar”, diz.

Professor

Aos 14 anos, Benites interrompeu os estudos, já que não havia escola de 5ª a 8ª série perto da reserva indígena onde morava. Trabalhou com o pai e foi para o corte de cana. Quando tinha 18 anos, decidiu completar o ensino fundamental e fez supletivo na cidade vizinha de Iguatemi.

  • Arquivo Pessoal

    A aldeia Jaguapiré, em Tacuru (MS), onde Tonico Benites deu aulas no início da carreira

“Quando eu concluí a 8ª serie, era considerada uma pessoa importante na comunidade, porque ninguém tinha estudado lá. Então me chamaram para dar aula na aldeia Japiré [também em Tacuru], uma área que ainda estava em processo de demarcação”, diz o professor.

Sozinho, Tonico Benites começou a alfabetizar crianças kaiowás. A escola era improvisada e a turma tinha cerca de 30 crianças de várias idades e diferentes estágios de aprendizagem. Dava aulas pela manhã e à tarde ia para a cidade fazer o ensino médio - na época, o magistério.

Em 2001 deixou a pequena escola – que passou de 30 para cerca de cem alunos – para estudar pedagogia na UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), em Dourados, município que abriga hoje cerca de 15 mil índios. Mudou para uma aldeia em Laguna Carapã, cidade vizinha a Dourados, e começou a dar aulas na comunidade para se sustentar.

“Eu era o único indígena da minha sala na faculdade e, quando ia apresentar algum trabalho, diziam ‘lá vem ele falar de índio de novo’, e alguns saíam da sala. Eu estudava o tema porque era a realidade que eu conhecia”, conta.

Concluiu a graduação e, após três anos, entrou no mestrado em antropologia na UFRJ. Conseguiu uma bolsa e foi enfrentar a cidade grande. Defendeu sua dissertação, sobre educação indígena, em 2009, mesmo ano em que entrou no doutorado na mesma instituição e continua estudando o tema.

“Antes falavam que o indígena não era um ser um humano completo, por isso, não podia ser professor, não podia fazer faculdade. Estudar é importante para mostrar que nós somos capazes. Precisamos de mais índios na universidade, pesquisando e atualizando a academia”.
 

Mais Educação