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Alunos de escolas particulares opinam sobre ocupações em SP

Denny Cesare/Código 19/Estadão Conteúdo
Imagem: Denny Cesare/Código 19/Estadão Conteúdo

Hugo Araújo

Do UOL, em São Paulo

27/11/2015 05h00

Nas últimas duas semanas, mais de 100 escolas estaduais foram ocupadas por alunos em protesto contra a reorganização escolar, anunciada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) em setembro. A medida divide as escolas estaduais por ciclo único – por exemplo, estudantes do ensino fundamental ficam em unidades diferentes do ensino médio – e fecha 93 escolas. Segundo a Secretaria da Educação, escolas de ciclo único possuem melhor desempenho.

Os alunos, que são contra a reorganização, argumentam que a medida não tem como objetivo melhorar o ensino e, sim, cortar gastos. Além disso, eles temem a superlotação das salas de aulas e afirmam que não houve diálogo com a comunidade durante o processo.

Com a educação pública em debate nas ruas, a reportagem do UOL foi em três escolas particulares de São Paulo – Colégio Oswald de Andrade, Colégio Bandeirantes e Colégio Rio Branco – para entender como os alunos delas veem as ocupações. Afinal, esta é uma luta de toda a classe de secundaristas?

Reorganização

Todos os alunos ouvidos pela reportagem se posicionaram contra a reorganização escolar. “É uma medida que vai contra as reformas feitas na educação, que têm como objetivo diminuir o número de alunos por sala, para que o professor dê uma atenção maior a cada aluno”, explica Isabel, 16, aluna do 2º ano do ensino médio do Colégio Oswald de Andrade.

“A reorganização deveria ser discutida com os alunos, não ser feita dessa forma autoritária e imposta, partindo do pressuposto de que eles não têm voz, nem direito de escolha”, afirma Maria Luiza, 18 (Colégio Oswald de Andrade).  

Amanda, 17, que estuda no Colégio Rio Branco, acredita que o objetivo da medida é “cortar gastos”. “Em um país que você precisa de educação, não tem como cortar verba de lá”, opina. 

Ocupações

Os estudantes se dividiram quanto às ocupações como forma de pressionar o governo para barrar a reorganização. "As ocupações são legítimas. As pessoas de escolas públicas merecem ter as mesmas oportunidades que nós", opina Marian, 16, aluna do Colégio Bandeirantes. 
 
"[A medida] fecha escolas, tira isso dos alunos. Eles devem ocupar, as ocupações são muito válidas", afirma Matheus, 17, do 3º ano do ensino médio do Colégio Rio Branco. 
 
Já Gianpaolo, 17, e Juliana, 17, também alunos do Colégio Rio Branco, acreditam que os estudantes deveriam buscar outras formas de manifestação. "Não acho que é a forma ideal de protestar, acho radical demais, eles deveriam achar uma forma que não atrapalhasse o funcionamento das escolas, como as manifestações de rua", afirma Gianpaolo.
 

Participação

"Acho que é uma luta de todos os estudantes paulistas, mas o protagonismo tem que ser do secundarista de escola pública. A gente não sente [o problema] na pele, não tem noção da realidade deles", afirma Leonardo, 16, que está no 2º ano do ensino médio no Colégio Oswald de Andrade.
 
Já Isabel discorda. "Nós somos todos alunos, a gente tem que lutar junto. A questão é a educação de um país todo, não de protagonismo. Tem que ajudar a ocupar, a gente deve apoiar mesmo não vivendo. O ensino público deveria ser melhor e isso não é um problema só deles", explica. Ela conta que, junto com outros alunos do Colégio Oswald de Andrade, visitou a ocupação da E. E. Godofredo Furtado, em Pinheiros, e levou alimentos e primeiros socorros. "Nós conversamos com os estudantes e conseguimos enxergar o ponto de vista de quem ocupa". 
 
Camilla, 18, que também estuda no Colégio Oswald de Andrade, acredita que o protagonismo deve ser do aluno de escola pública e que ela "deve dar um apoio secundário à luta". "A gente tem que apoiar, mas eu acho incoerente, por exemplo, a gente dormir lá. Temos que levar comida, ir lá, conhecer e conversar com os estudantes. Acho que nós temos de entender qual é o papel que eles querem que a gente tenha", conclui. 
 

Ação policial

Outro tema comentado pelos alunos foi a ação da Polícia Militar (PM) nas ocupações. Por exemplo, na E. E.  Fernão Dias, em Pinheiros, 100 policiais cercaram a escola por quatro dias, impedindo a entrada no prédio. Eles usaram spray de pimenta contra manifestantes que estavam em frente à ocupação
 
Natalia, 16, aluna do 2º ano do ensino médio acredita que "há uma diferença de tratamento, por serem alunos de escola pública". "Se a gente ocupasse o [Colégio] Bandeirantes, e a Polícia cercasse, todo mundo acharia um absurdo. Agora como são estudantes de escolas públicas, as pessoas parecem achar normal a Polícia estar lá. Os estudantes são crianças, eles [PM] nem podem fazer isso", afirma. 
 
"Sou contra a repressão policial. Não precisa disso em nenhum caso de manifestação. A escola é um espaço dos alunos e eles não devem ser oprimidos pelo Estado", afirma Camilla. 
 
Já Marian condena a ação policial, mas acredita que quem deve ser responsabilizado são as autoridades que ordenam este tipo de ato. "Não acho justo julgar a Polícia. Eles estão obedecendo uma ordem, estão lá porque mandaram. Tem que acusar quem mandou, quem autorizou", explica. 
 

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