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Criança que começa a ir para a escola mais cedo fica mais esperta?

Leonardo Soares/UOL
Imagem: Leonardo Soares/UOL

Cintia Baio

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2016-07-01T06:00:00

2016-07-01T13:20:54

01/07/2016 06h00Atualizada em 01/07/2016 13h20

Mandar ou não os filhos ainda pequenos para a escola é uma das decisões que podem tirar o sono de muitos pais. Por lei, a criança precisa estar matriculada na escola a partir dos 4 anos.

Entre as principais argumentações favoráveis à matrícula “prematura”, está a ideia de que ir mais cedo para a escola deixa crianças mais espertas e facilitam a vida escola no futuro. Será que isso é verdade?

De acordo com os especialistas ouvidos pelo UOL, não há grandes diferenças de aprendizado entre uma criança que entra na escola com um ano de idade e outra que chega aos quatro.

Ou pelo menos, não há ganhos diretos. O que acontece, segundo eles, é um estímulo maior do ponto de vista de sociabilização e autonomia da criança -- ou seja, os ganhos são nas competências socioemocionais. 

Bem estimulada e segura, a criança melhora sua capacidade de entender a lógica nos processos de aprendizado futuros. No entanto, vale ressaltar que esses estímulos podem acontecer tanto em casa quanto na escola.

Não tem 'conteúdo' para crianças pequenas

“A relação do aprender e ensinar como estamos acostumados, é algo que deve ser priorizado muito mais no ensino fundamental", diz Maristela Angotti, professora do curso de pedagogia da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

“A proposta da escola nessa fase precisa priorizar a noção de sociabilização, de descentralização e de coletividade na criança. O conteúdo, como o português e a matemática, ainda é algo secundário e sempre deve ser apresentado como uma brincadeira”, explica Angotti.

As creches devem funcionar com espaço lúdico, para Márcia Malavasi, professora da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“Hoje, dificilmente as crianças brincam na rua, ou seja, conseguem interagir com muitas pessoas da mesma idade que elas. Com essa recomposição histórica e com os pais trabalhando fora, a escola assume esse papel”, explica Malavas.

Se a criança tiver essas condições de desenvolvimento entre a família ou na vizinhança, a matrícula na escola pode ficar para a idade obrigatória. Malavas explica: “Uma criança que consegue começar uma brincadeira, gosta de interagir, demonstra respeito e carinho em casa, também está se desenvolvendo e ganhando repertório”.

Arquivo Pessoal/Roberto Berrondo
Esses são os filhos de Roberta Berrondo, cada um entrou na escola em uma idade diferente Imagem: Arquivo Pessoal/Roberto Berrondo

Depende da criança

Mãe de cinco filhos, com idades entre 25 e dois anos, a dona de casa Roberta Berrondo decidiu colocar cada um deles com uma idade diferente na escola.

O mais velho, hoje com 25 anos, entrou na escola aos 3. Camila (21) e Hugo (10) foram matriculados com pouco mais de 1 ano de idade, mas não se adaptaram e só voltaram aos 4. Aline, hoje com 8 anos, entrou com um ano e lá permaneceu. Os planos para Maria, de 2 anos, é começar aos 4.

Com toda essa experiência, Roberta acredita que o que determina o momento ideal da criança ir para a escola é a personalidade do pequeno e a necessidade dos pais.

“Em alguns casos, não acredito que fiz uma boa escolha, como é o caso do Hugo. Acho que ele se sentiu inseguro e abandonado indo para a escola tão cedo. Já para a Aline, a escola a fez desabrochar e em poucos dias ela era mais sociável”, diz Berrondo.

Nem na escola, nem em casa

Para alguns pais, a resposta para a socialização dos filhos antes dos 4 anos não precisa passar, necessariamente, pela escola tradicional.

Quando sua primeira filha, Maryeva, completou 3 anos, a advogada Fabiana de Barros optou por, no lugar de colocá-la em uma creche, matriculá-la em cursos que chamavam a atenção da menina.

“Para ajudar na socialização, a coloquei no balé, natação e inglês”, conta Barros.

Outro ponto que pesou na escolha por diversos cursos foi a incompatibilidade de horários das escolas tradicionais. Barros explica: “Não tinha necessidade de colocá-la no integral, nem de acordá-la tão cedo para o horário matutino. O que sobrava era o período vespertino, mas não queria comprometer seu soninho da tarde”. 

“A interação social é a maior habilidade que a criança pode aprender desde cedo, pois irá determinar como ele se comporta com outras pessoas para o resto de sua vida. E a interação com os outros, que lhe  ajudará a ser forte para superar desafios e resolver conflitos”, diz a psicopedagoga Monica.

Ganhos pedagógicos

Embora os especialistas acreditem que o grande ganho para a criança que começa já cedo na escola é o avanço do ponto de vista emocional, alguns estudos demonstram que essa escolha também pode ter consequências positivas no aprendizado a longo prazo.

Um estudo patrocinado pelo governo americano e conduzido pelo National Institute of Health Study, por exemplo, monitorou o desempenho escolar de 1.300 crianças entre os 0 e 12 anos. Metade deles ficou em casa até os cinco anos, enquanto a outra parte frequentou a escola.

Até os 12 anos, o grupo foi submetido a provas para avaliar o desempenho escolar. De acordo com a pesquisa, as crianças que frequentaram a escola mais cedo se saíram melhor que todas as disciplinas testadas.

Outro fato que chamou a atenção dos pesquisadores é que as crianças matriculadas antes dos cinco anos eram mais agressivas em sala de aula do que outros colegas. De acordo com a avaliação, isso pode ter ocorrido porque, na escola, eles precisaram disputar a atenção mais cedo do que aquelas que ficaram sob os cuidados maternos. Mas o resultado não foi conclusivo. 

O mesmo estudo, aponta que é a partir dos três anos que a criança começa a aproveitar melhor os benefícios da escola. Antes disso, o que contribui a favor do desenvolvimento é a atenção e o afeto, não importando de onde vem.

No entanto, para a psicopedagoga e psicanalista Monica Pessanha, “não há nada que estabeleça uma relação entre a idade ideal e o ingresso na escola. O que vai determinar é a necessidade dos pais”, explica.

Segundo os dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), entre 2007 e 2014, o número de crianças que frequentam creches ou “escolinhas” antes dos quatro anos —idade em que a escolarização se torna obrigatória no Brasil— aumentou 38,5% na faixa dos zero a três anos.

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