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Análise: Não dava para esperar que milagres acontecessem na educação

Educador Mozart Neves Ramos - Sergio Lima/Folhapress
Educador Mozart Neves Ramos Imagem: Sergio Lima/Folhapress

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

22/09/2016 19h56

A reformulação do ensino médio foi anunciada nesta quinta-feira (22) pelo governo Michel Temer (PMDB). Entre as principais mudanças, oficializadas por meio de uma medida provisória, estão a expansão do ensino em tempo integral e a flexibilização do currículo escolar.

Atualmente, os estudantes cursam 13 disciplinas durante os três anos do ensino médio. Com a MP, parte da grade curricular será composta por disciplinas obrigatórias e a outra com matérias de interesse de cada aluno. O novo modelo está previsto para começar no primeiro semestre de 2017 e será adotado gradualmente, de acordo com o ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM).

Para o educador Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna e que chegou a ser cotado assumir o MEC na gestão interina de Temer, não dava para esperar que "milagres" acontecessem na educação brasileira. Para ele, a medida provisória foi um caminho encontrado para colocar em prática mudanças "urgentes".

"Dados de aprendizagem indicam estagnação desde 1999. Essa mudança já está atrasada. A cada novo resultado do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], éramos surpreendidos porque nada estava sendo feito [para melhorar]”, comentou.

Leia a seguir a entrevista com o educador.

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UOL - O senhor concorda com a reformulação do ensino médio vir por meio de MP? Por quê?

Mozart – Na verdade, a medida provisória foi um caminho que o ministro [Mendonça Filho] encontrou para colocar em prática o projeto de lei [PL 6840/2013]. Se fôssemos esperar este ano, com toda certeza não ia dar tempo de passar no Congresso. Para não postergar mais um ano, a MP foi adotada.

Pela urgência da situação do ensino médio, estava na hora de fazer uma medida provisória porque tudo foi amplamente debatido com profissionais estaduais de educação para o projeto de lei. É uma MP que não surgiu do nada. Ela tem a legitimidade do próprio Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação).

Estão esperando que milagres aconteçam? Não dá. A gente sempre acha que na educação um milagre pode acontecer, mas o problema é muito grave. Dados de aprendizagem indicam estagnação desde 1999. Essa mudança já está atrasada. A cada novo resultado do Ideb, éramos surpreendidos porque nada estava sendo feito.

UOL - O que representa essa mudança para os estudantes? E para os professores? Como você acredita que será a implantação desse novo ensino médio?

Mozart – O MEC vai ter que fazer um grande núcleo para implantar o novo modelo, envolvendo as secretarias de educação básica, da educação profissional e da educação superior. Não existe mudança estruturante que seja fácil.

Considerando que hoje o Brasil tem 13 disciplinas e um único percurso para todos os alunos, independente se ele quer ir para o mundo do trabalho ou para a universidade, a flexibilização é necessária. Por exemplo, se o aluno quiser ir mais para as engenharias, ele vai ter uma formação mais densa, focada em matemática, física, química.

Sobre o modelo de ensino integral, já existem muitos exemplos que dão certo. A gente encontra um caminho fértil nesse sentido.

Para os professores, também será uma mudança muito profunda, principalmente na questão da formação para o ensino médio. Além do déficit que se tem de professores, a falta de qualidade da formação é um grave problema. A médio prazo, a formação deverá se preocupar com a qualidade e só não com a quantidade [de profissionais formados].

Mas a própria base nacional comum vai ajudar nessa orientação. Muito trabalho vem sendo feito nesse sentido.

UOL - O impacto será o mesmo na reformulação do ensino médio para alunos de escolas públicas e privadas?

Mozart   Apesar de as escolas particulares geralmente terem um desempenho melhor que o das públicas, o desempenho de alunos da rede privada vem caindo também. O resultado do Ideb mostra isso. E é outro problema grave.

Quando compara com dados internacionais, o desempenho das nossas particulares está próximo ao de escolas de menor nível dos países do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). No padrão internacional, nosso desempenho tem muito a desejar. Por isso, é preciso esse esforço nacional para que as mudanças sejam graduais [tanto na rede pública quanto privada]. 

UOL - Como fica o acesso dos estudantes ao ensino superior?

Mozart   Vai exigir mudanças nas universidades. Não adianta mudar um lado da ponte e o outro lado continuar com a mesma perspectiva de chegada de alunos ao ensino superior.

UOL - De que maneira a reforma irá repercutir no Enem?

Mozart   O Enem para este ano vai ser no modelo já proposto. Mas, naturalmente, vai precisar ter uma readequação à medida em que o processo for se reestruturando. O modelo da prova do Enem vai ser de acordo com o percurso do aluno.

Seria, eu imagino, como um modelo da segunda fase dos vestibulares de hoje [disciplinas com pesos diferentes conforme o curso escolhido pelo candidato]. Só que sem ser naquela linha 'conteudista'. De jeito nenhum pode se tornar um exame 'conteudista'. Ele deve ser muito mais para explorar o desenvolvimento do pensamento crítico dos jovens, da visão sistemática do mundo. E isso vai exigir que o banco de dados de questões pré-testadas seja extremamente bem montado. Mas acredito que esse não seja o problema central; o desfio, na verdade, vai ser operacionalizar todas essas mudanças [em todo o ensino médio].