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Lutando contra leucemia, estudantes fazem Enem em hospital de Campinas (SP)

Trycia Regine, 18, e Oziel Oliveira, 16, fazem o Enem dentro do hospital - Arquivo pessoal
Trycia Regine, 18, e Oziel Oliveira, 16, fazem o Enem dentro do hospital Imagem: Arquivo pessoal

Fabiana Marchezi

Colaboração para o UOL, em campinas (SP)

06/11/2016 10h09

A luta contra a leucemia não foi motivo para barrar o sonho de dois estudantes em Campinas (SP). Em meio aos efeitos da quimioterapia, Oziel de Oliveira Costa Junior, 16, e Trycia Regine Lupiano, 18, não desistiram de fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

A diferença é que eles estão respondendo as questões da prova em um hospital, em uma sala do Centro Infantil Boldrini, onde fazem tratamento. Neste ano, 44 estudantes que estão sob tratamento de saúde farão o exame dentro de hospitais, segundo o MEC (Ministério da Educação).

Com a vida resumida, de repente, à rotina hospital, casa, casa, hospital, os dois viram nos estudos uma forma de aliviar os transtornos causados pela doença. 

No caso de Oziel, a doença foi só mais um estímulo para seguir uma maratona de estudos e tentar passar no vestibular de medicina.

“Eu sempre pensei em ser médico, mas a leucemia me incentivou. Depois que passou o choque do diagnóstico e comecei o tratamento tive certeza do que queria. Para mim, além de poder ajudar as pessoas, a medicina será uma forma de retribuição ao tratamento que estou recebendo”, comentou o estudante.

Mesmo fazendo a prova apenas para conseguir experiência, uma vez que ainda cursa o 2º ano do ensino médio, Oziel encarou uma rotina pesada de estudos ao longo deste ano. Por conta das longas internações, ele acabou perdendo cerca de 80 dias de estudos e para compensar quando estava bem chegava a estudar 9 horas por dia.

"Eu sempre pensei em ser médico", diz Oziel, que luta contra a leucemia em Campinas (SP) - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Eu sempre pensei em ser médico", diz Oziel, que luta contra a leucemia em Campinas (SP)
Imagem: Arquivo pessoal

“Estudar bastante me faz esquecer o tratamento, é uma forma de distrair e tirar o foco da doença, além de me capacitar para passar o ano que vem, quando eu realmente poderei ingressar na faculdade”, considera Oziel.

Como passa grande parte do dia no hospital, Oziel contou com o apoio da equipe pedagógica Boldrini, formada por voluntários, professores e estagiários que organizam o conteúdo do exame para os pacientes.

A doença, descoberta em abril deste ano, mudou a vida de toda a família, que vivia em Goiabeira, Minas Gerais. Depois do diagnóstico, os pais de Oziel deixaram o sítio onde viviam para acompanhar o tratamento do único filho em Campinas. O tratamento só deve acabar no final de 2018. “Enquanto isso, entre uma internação e outra eu vou estudando e adquirindo experiência para a hora de, finalmente, passar no vestibular”, concluiu.

Adiou o sonho para se tratar

Diferentemente de Oziel, para Trycia, o Enem já vale como um caminho para entrar na faculdade de direito. Por conta da leucemia, ela precisou adiar em um ano o sonho de prestar vestibular. Este ano, ela terá a chance de fazer o exame dentro do hospital. 

Eu ainda não sei quais serão minhas limitações, se poderei frequentar as aulas assim que o tratamento acabar ou se terei de continuar estudando em casa, mas sempre sonhei em emendar a faculdade no ensino médio e ter de adiar isso foi bem difícil. O tratamento me deixou bem debilitada e no ano passado, quando concluí o ensino médio, acabei nem tentando. Mas este ano, apesar de todos os sintomas da quimioterapia, como enjoos, vômitos, me esforcei bastante, estudei muito e estou bastante animada”, disse.

Durante o tratamento no hospital, Trycia continuou em contato com seus professores do cursinho pré-vestibular e também contou com o apoio dos professores do hospital para tirar suas dúvidas.

“Quando não estava em casa, estava no hospital me tratando e estudando. Recebi todo o apoio necessário para me preparar dentro do hospital e estou bem animada. Não estou achando a prova tão difícil”, concluiu a vestibulanda, que quer ser juíza ou delegada.

Para a coordenadora pedagógica do hospital, Luciana de Mello, a mobilização de toda a equipe no processo, desde a orientação nos estudos até a hora da prova, é recompensada ao garantir o direito do paciente. “Ver o objetivo deles realizado é muito gratificante.”

A realização do exame no hospital segue o mesmo padrão das escolas. As provas chegam em um malote lacrado trazido pelos funcionários dos Correios, com escolta da Polícia Militar e fiscais do Ministério da Educação (MEC) acompanhar todo o exame.

Uma equipe do hospital também fica de prontidão para qualquer emergência em relação à saúde dos estudantes e eles têm uma hora a mais de prazo para concluir o exame. Todos os hospitais do país podem fazer o pedido para que as provas sejam realizadas no local desde que o estudante faça a ins crição.

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