Crise do RJ atrasa salário e faz aposentado da Uerj correr risco de despejo

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Marcela Lemos/UOL

    Jurandir Lopes de Oliveira, 81, é funcionário da Uerj há 40 anos e sofre com a crise financeira do Estado e da Universidade

    Jurandir Lopes de Oliveira, 81, é funcionário da Uerj há 40 anos e sofre com a crise financeira do Estado e da Universidade

Jurandir Lopes de Oliveira tem 81 anos, 40 deles dedicados à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Aposentado em 2001, Didi, como é conhecido na instituição, conta que pela primeira vez corre o risco de ser despejado. O antigo funcionário do Estado é um dos 175 mil servidores que tiveram novamente o salário parcelado devido à crise financeira do Rio de Janeiro.

Didi afirma que deve R$ 1.650 à proprietária da casa onde mora em Saracuruna, na Baixada Fluminense. O valor é referente a três meses de aluguel de um quarto e sala onde vive sozinho. O atraso nesta e em outras contas mensais começou desde que seus salários passaram a cair parcelados ou com atraso.

A primeira parcela do salário referente ao mês de janeiro de servidores ativos, inativos e pensionistas, com exceção de funcionários da Segurança e da Educação, foi depositada apenas na última quarta-feira (22). No entanto, Didi ressalta que o valor de R$ 577 não é suficiente para cobrir gastos básicos com remédios e alimentação. Ele conta ainda que tem recebido ajuda de professores e alunos da UERJ.

"No mês passado, amigos aqui da faculdade fizeram uma vaquinha e me deram R$ 700 para ajudar nas despesas da casa. Eu fui logo pagando as contas de luz atrasadas. Estava tão preocupado que acho que paguei mais de uma vez a mesma conta, pois a deste mês veio zerada. A minha luz não foi cortada por bondade de funcionários que me ajudaram", diz ele.

Jurandir conta ainda que não precisaria de ajuda financeira, caso os salários fossem pagos integralmente e na data correta. Ele ganha R$ 2.400, mas por causa de dívidas contraídas, os valores depositados pelo governo ficam retidos no banco. Segundo ele, sobra apenas metade do salário.

"Recebi agora a primeira parcela do meu vencimento. O banco já ficou com tudo, ou seja, eu continuo sem dinheiro e contraindo mais dívidas".

Uerj: retrato da crise no Rio

Servidor do Estado, Didi convive de perto com dois problemas do Rio de Janeiro: a calamidade financeira que pesa nos salários dos servidores e a crise da Uerj, que também em decorrência dos problemas econômicos do Estado, está sem aulas desde o ano passado.

Criada em 1950 e considerada a 11° melhor universidade do Brasil, a UERJ vive desde de 2015 a mais grave crise da sua história. A instituição, que possui 8.654 funcionários e 44.133 alunos, teve as atividades suspensas no ano passado por 5 meses e meio. As aulas referentes ao 2° semestre de 2016 estavam previstas para recomeçar no dia 17 de janeiro, o que não ocorreu devido à falta de estrutura, segundo a instituição.

A falta de repasse de recursos do governo à universidade comprometeu o pagamento de empresas terceirizadas responsáveis pela limpeza, manutenção e segurança. Alunos bolsistas também tiveram o benefício suspenso. Já os servidores começaram a ter os salários parcelados em novembro. O vencimento referente ao mês de dezembro, por exemplo, foi quitado apenas em fevereiro. O governo deve ainda os proventos relativos a janeiro e também o 13° salário

De cabelos grisalhos e andando com muita dificuldade devido a um problema no joelho cujo motivo não sabe explicar, Didi vai quase todos os dias ao campus principal da UERJ na Zona Norte do Rio. São quatro horas de ônibus para ir e voltar. Figura querida de funcionários e alunos, o antigo servidor ainda colabora com a realização de eventos e organização de murais na faculdade. Todo o esforço, apesar da idade avançada, tem um motivo:

"A UERJ é minha vida, é minha casa. Vi, vejo muita gente entrar e sair, tem professores  que são meu amigos há anos."

Também servidora do estado, a técnica da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ, Erika Vilela, descreve o aposentado como uma pessoa feliz e ativa, apesar das dificuldades que enfrenta.

"Ele participa de todas as assembleias dos servidores, participa de manifestações. Nos últimos protestos na Assembleia Legislativa, no Centro do Rio, tivemos que procurá-lo em meio à multidão e mandá-lo embora. Ficou perigoso para ele. Imagina? Ele tem dificuldade para se locomover", lembra ela.

Outro lado

Procurada sobre a situação dos aposentados da instituição, a UERJ não quis se pronunciar. Já a Secretaria de Estado de Fazenda disse através de nota que o governo reconhece a importância da Universidade e tem concentrado esforços na busca de soluções para a superação das dificuldades enfrentadas pela instituição.

A pasta informou ainda que apesar dos problemas financeiros foram feitos repasses de custeio que totalizam R$ 767, 4 milhões em 2016, sendo R$ 578,2 em pagamento de pessoal. Segundo o comunicado, o orçamento para 2016 era de R$ 1,1 bilhão, o que significa que 76% do orçamento total da UERJ foram repassados. O restante ficou comprometido devido à crise nas finanças estaduais provocada pela queda na arrecadação de tributos, informou o governo.

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