Educação infantil é lugar de homem? Eles mostram que sim

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Arte/UOL sobre fotos de Ricardo Matsukawa

    Os professores Douglas (esq.) e Eduardo formam uma minoria na educação de crianças no Brasil

    Os professores Douglas (esq.) e Eduardo formam uma minoria na educação de crianças no Brasil

Eduardo Carmelo Conidi, 42, natural de São Paulo, e Douglas Sanches da Silva, 36, de Osasco (Grande São Paulo), fazem parte de uma minoria no Brasil: a dos homens que escolheram ser professores de crianças, trabalhando com educação infantil, universo historicamente ocupado (quase) exclusivamente por mulheres.

Segundo o Censo Escolar 2016, estudo oficial com os dados mais recentes da educação básica no Brasil, há hoje 575 mil docentes na educação infantil brasileira, sendo 554 mil mulheres e 21 mil homens. Quer dizer, para cada professor homem numa creche ou sala de pré-escola, há 26 mulheres.

A baixa participação de homens nessa faixa da educação tem raiz em grande medida na divisão sexual do trabalho, social e historicamente motivada.

"A docência dedicada à infância é uma área profissional que ilustra a segmentação decorrente dessa perspectiva de divisão sexual do trabalho, com o trabalho das mulheres associado à esfera reprodutiva e o dos homens, à esfera produtiva. A educação de crianças pequenas é associada ao âmbito do trabalho doméstico e à esfera reprodutiva, sendo, dessa forma, naturalizada como área de atuação feminina", afirmam as pesquisadoras Mariana Kubilius Monteiro e Helena Altmann, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), no estudo "Homens na Educação Infantil: Olhares de Suspeita e Tentativas de Segregação".

As autoras explicam que a "ideologia naturalizadora" de trabalhos exclusivos para homens e para mulheres se orienta também segundo perspectiva hierárquica, isto é, que atribui valor maior ao trabalho executado por homens. Daí uma das razões, pontuam, para o salário mais baixo pago aos professores de educação infantil em relação, por exemplo, ao pago aos professores de educação superior.

Apesar do destino comum, as origens das trajetórias de Eduardo e Douglas com a educação infantil têm características próprias.

"Você está realizando meu sonho por mim"

Douglas Sanches da Silva, hoje professor de educação fundamental 1 do Colégio Soka do Brasil, em São Paulo, sempre soube o que queria: "Quando criança, me perguntavam o que queria ser quando crescesse, eu já dizia que ia ser 'professoro'", relembra, ressaltando o gênero também masculino da profissão, na invenção de vocabulário infantil.

Único filho homem de sua família (ele tem também uma irmã, Deise, mais nova), Douglas precisou frustrar os planos do pai, Nelson, para se tornar professor: "Meu pai queria que eu fizesse Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial]. Ele ficou muito, muito bravo comigo à época."

Nelson, hoje com 65 anos, estudou até o quinto ano da educação básica e queria, claro, ajudar: o filho seguiria uma carreira segura, semelhante à sua, como empregado de fábrica --ele trabalhava na multinacional ABB, gigante do setor elétrico. Com o curso do Senai do filho não seria difícil conseguir uma vaga para ele na empresa também. Tal pai, tal filho.

Com o apoio da mãe, Naíra, e apesar da contrariedade do pai, Douglas concluiu o magistério, aos 16 anos.

A grande surpresa e revelação se deu na noite da festa de formatura. Ele relembra com emoção: "Naquele momento vi meu pai como nunca tinha visto em toda a minha vida: ele estava com lágrima nos olhos. Ele olhou, me abraçou e falou: 'Obrigado'. 'Mas por que obrigado?', perguntei. 'Desculpe a posição que tive, na verdade eu queria ser professor. Você está realizando um sonho por mim.' Ele não pôde estudar, por força de trabalho e da estrutura da família dele. Eu lutei contra tudo aquilo e aí ele criou coragem para me falar. A vontade do meu pai era ser professor de matemática". Tal pai, tal filho.

Ricardo Matsukawa/UOL
Douglas e a aula de geometria

"A minha bagagem foi muito importante"

Eduardo Carmelo Conidi, professor de grupo 1 (de crianças de um ano e meio a pouco mais de dois anos) da escola Estilo de Aprender, na capital paulista, sempre gostou muito de crianças, de brincar com elas, mas só viria a se envolver mais profundamente com o universo infantil após uma perda dolorosa.

"Minha primeira mulher [Mônica] morreu em 2001, em decorrência de um tumor no intestino. E eu fiquei com os cuidados de pai e mãe [do primeiro filho, Igor]. Cuidava, dava banho, comida. Foi o contato mais expressivo que tive na minha vida", aponta.

Da união com sua segunda mulher, Roberta, jornalista especializada em educação, nasceu o interesse formal por ser professor de educação infantil, intenção depois formalizada com o ingresso numa faculdade de pedagogia, paralelamente ao nascimento de seus dois outros filhos, Lorena e Giorgio.

Eduardo só veio a entrar numa sala de aula de educação infantil há seis anos, aos 36 anos de idade. Mas começou a trabalhar cedo, já aos 9 anos, com o pai, Francesco, alfaiate. Depois, aos 14, se tornaria operário da fábrica Lorenzetti, montando chuveiros, passando depois pelo ramo de turismo e até trabalhando como motoboy de um grande banco.

"Essas experiências foram muito importantes, porque na educação você acaba fazendo um pouco de tudo, montando uma coisa aqui, desmontando outra lá, pegando, puxando, subindo, descendo, articulando com várias coisas. Quanto maior é o seu universo de conhecimento, melhor é para oferecer boas experiências aos estudantes. A minha bagagem foi muito importante", sublinha.

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Eduardo vê mágica na relação com os pequenos

"Não me avisaram que não tinha professora"

Douglas assumiu suas primeiras turmas de educação infantil no segundo semestre de 1999: uma de maternal, de manhã, e outra à tarde com alunos que ficam período integral numa escola de Guarulhos (Grande São Paulo).

O argumento para vencer a resistência da própria escola a possíveis reações contrárias dos pais a um professor homem em sala foi este aqui: "Se ele tem o direito de fazer magistério, as meninas [professoras] também têm. Se a questão é uma troca de fraldas, como ele vai se portar com as crianças, as meninas podem ter uma conduta errada também. O diploma dele não tem nada de diferente, é o mesmo delas. Então, vamos arriscar", cita Douglas, relembrando a discussão.

"A princípio, foi complicado com os pais dos menores. De passar uma situação de a mãe chegar à sala e falar: 'Quero saber onde está a professora da minha filha! A minha filha jamais vai ficar com um troglodita desse tamanho! Por que não me avisaram que não tinha professora?'. Mas ela mesma me agradeceu no fim do ano e disse que traria o outro filho mais novo para ser cuidado por mim."

 

Douglas assume que "o perfil masculino assusta", porque ainda é incomum a posição do homem no cuidado dos pequenos, mas diz ter aprendido uma lição nos 20 anos que soma de profissão.

"Você precisa ter uma estrutura muito grande para aguentar toda essa negatividade e essa dúvida e dar a oportunidade de os pais te conhecerem. Quando você tem esse relacionamento transparente e mostra que consegue avaliar o desenvolvimento de uma criança, eles se abrem de maneira encantadora. O que me deu força para seguir é essa garra de empreitar para transformar essa situação. Alguns desistiram, eu não ia desistir."

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"Se o amigo não sabe, o amigo tem o direito de perguntar para aprender", diz Douglas

Eduardo avalia a presença mínima de homens na educação infantil como decorrente do "papel higienista" conferido historicamente à escola, como espaço onde a criança vai ser alimentada e limpa por mulheres, que fazem as vezes das mães, que ainda resiste no presente.

"Aqui [na escola Estilo de Aprender, onde há outros homens trabalhando como professores, numa proporção de quase equivalência com as mulheres] é como se a gente fosse uma ilha. Há ainda muitas escolas higienistas, aquilo tudo limpinho, as mulheres todas de uniforme, as crianças todas de uniforme branquinho, limpinho. O universo masculino é só para arrumar a porta, pintar uma parede, trocar uma luz, quando ainda não tem ninguém na escola. Isso é ainda bem separado hoje."

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Para Eduardo, ser professor é uma brincadeira alegre

"A escola não é um depósito de crianças"

Douglas e Eduardo escolheram serem professores dos pequenos porque veem espaço privilegiado para a criação e a emoção.

"Entendi que a educação infantil não era só assistencialista, não era só trocar uma fralda, cuidar bem de uma criança. Tinha potencial ali dentro, porque eu poderia criar com aquelas crianças", frisa Douglas.

"A educação infantil é única. O momento em que estou com elas ali não vai voltar mais. Se eu pegar uma turma de primeiro ano, é o único primeiro ano da vida daquelas crianças. Então tem que ser o primeiro ano que marque a vida delas. Você precisa saber o que vai fazer, a escola não é um depósito de crianças."

"Quanto menores as crianças, mais legais, porque são muito verdadeiras. Essas relações acontecem como mágica. Todo dia é uma coisa diferente, pode ser até a mesma coisa, mas diferente", descreve Eduardo.

"O olhar que elas têm sobre o mundo ainda é de maravilhamento, de descoberta, de experimentar gostos, pegar coisas. São sensações e emoções bem profundas, que marcam muito a criança. E quanto mais tranquilas são essas experiências, mais calmas essas crianças se tornam. Ficam mais seguras de estar ali com você, um adulto."

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Trabalhos de alunos em paredes da escola Estilo de Aprender

"A mudança que se quer começa com o pequenininho"

O fato de ter um professor homem em sala pode se converter em ganhos para todos, conforme a experiência dos próprios professores, em nome até da diversidade.

"Eu empodero primeiro meus alunos, dou responsabilidade. E eles ficam mais autônomos, têm menos medo de errar, se tornam mais críticos e abertos. Começam a entender a diferença de habilidade dos gêneros, mas não mais o 'isso é de homem e isso é de mulher'. Diminui o conflito entre eles. Eles já veem em você algo ousado, porque seu papel e modo de agir já são diferentes", qualifica.

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A presença masculina pode trazer ganhos para os alunos

"A vibração que a gente tem, as brincadeiras corporais, aquilo de brincar de lutinha, medir força, aqui a gente pode propor também essas brincadeiras de forma leve, respeitar o corpo do outro, brincar junto, dar a mão, fazer uma roda, pular junto, pegar na mão para pular junto, descer o escorregador de trenzinho com todo mundo junto. Acho que essa é uma energia masculina. Claro que as mulheres têm também essa energia, mas acho que nos homens isso é mais forte, de força, levantar, pôr na árvore", identifica Eduardo.

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Sala de aula da escola Estilo de Aprender

Ao lado da desinformação, Eduardo cita também o comodismo do lado masculino na questão de haver poucos homens no infantil: "Uma coisa é ter isso [de profissão de mulher] como verdade socialmente falando, outra é você se arriscar, dizer: 'Quero experimentar'".

Assume que a profissão exige certo tipo de perfil, uma vez que as crianças choram, fazem barulho, querem atenção, mas diz não ver lugar melhor para quem quer contribuir com um mundo melhor: "Quando você tem a experimentação de estar numa sala de aula, se aproxima dessas pequenas pinceladas que pode dar no mundo, suas contribuições, as transformações que podem acontecer em muitas vidas que passam por você, então você acaba sendo picado pelo bichinho da educação. E não quer mais sair. Eu não quero". Daí o seu convite: "Tem que experimentar e refletir sobre que mundo a gente pode construir a partir da educação infantil e da educação em geral. A mudança que se quer começa com o pequenininho".

No colégio Soka se encerra mais um dia de aula. "Quem está com a mesa organizada, com o material dentro do estojo, pode des..." E os alunos completam a fala do "prô" Douglas, em coro: "... CER!". "Quer me ver infeliz é me deixar fora de sala de aula. Já tentei, não consegui", avisa, depois de passar a lição de casa de matemá... TICA!

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