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Professores oferecem próprias casas para alunos da Rocinha não perderem Enem

Professora voluntária, Maitê ofereceu casa para alunos dormirem antes do Enem - Bruno Aragaki/Colaboração para o UOL
Professora voluntária, Maitê ofereceu casa para alunos dormirem antes do Enem Imagem: Bruno Aragaki/Colaboração para o UOL

Bruno Aragaki

Colaboração para o UOL, no Rio

03/11/2017 04h00

A última aula antes do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) – a primeira prova será aplicada no domingo (5) – trouxe uma recomendação especial aos alunos do Pecep, um dos cursinhos comunitários que recebem alunos da maior favela carioca, a Rocinha. Além das dicas clássicas, como “faça refeições leves”, a lista deste ano incluiu: “durma cedo e em local seguro”, o que, para muitos ali, significa passar a noite fora de casa.

“Não queremos que vocês percam a prova de novo. Por isso, não tenham vergonha de pedir para dormir em nossas casas. De verdade”, disse na última quarta-feira (1º) a professora voluntária Maitê Ramos, 24 – ex-aluna do curso e hoje formada em letras pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Com “de novo”, Ramos se refere ao domingo 17 de setembro, dia do vestibular da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), que coincidiu com o início dos conflitos entre traficantes na Rocinha. Devido aos tiroteios, ao menos 12 dos 30 moradores da comunidade inscritos no exame, segundo cálculos dos cursos da comunidade, não conseguiram sair de casa e perderam a prova.

Uma dessas estudantes, Lara Torres, 18, que há dois anos estuda por uma vaga em direito, se diz mais confiante às vésperas do Enem – “[a Rocinha] está um pouco mais calma agora”. Mas ainda assim classifica a situação como “injusta”. “Mesmo quando você consegue chegar ao local de prova, dá de cara com aqueles carrões que valem mais do que meu fígado. É claro que tem muita diferença”, diz.

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Aula do cursinho Pecep, que atende alunos que moram na Rocinha
Imagem: Bruno Aragaki/Colaboração para o UOL

Moradora de uma comunidade vizinha à Rocinha, fora do foco dos confrontos, a estudante Daniele Carvalho, 18, convidou duas amigas para dormir com sua família no dia antes da prova. “Pedi a meus pais e eles aceitaram na hora. Uma das garotas perdeu a prova da Uerj. Foi muito frustrante”, completa a estudante, que sonha estudar Arquitetura.

A apreensão pela violência no dia do exame atinge também os estudantes de outros bairros. Felipe da Silva Feijó, 18, candidato a uma vaga de Engenharia Mecatrônica, conta que na Cidade de Deus “você nunca sabe o que vai acontecer. Você pode acordar e não conseguir sair de casa. Fiquei vários dias sem conseguir ir ao cursinho”. Ele completa: “Mas sei que sou privilegiado. Minha família me permite estudar e me preparar, então vou fazer a prova”, diz.

Em nota, a Polícia Militar do Rio de Janeiro disse que “reforçará o policiamento para garantir a paz durante o Enem”. Na capital fluminense, segundo o Inep – órgão responsável pelo exame – são mais de 170 mil estudantes para a prova.

Recuperação

Em outro cursinho da região, o Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha, “com o ano mais turbulento, a turma está mais reduzida”, afirma o coordenador do curso, Marcos Barros. Das 27 vagas, só 15 seguem preenchidas. “Sempre que tem tiroteio, precisamos cancelar a aula. Ou não chega o professor, ou não chega o aluno”, resume.

Há alguns meses, a violência crescente no bairro atingiu diretamente o curso – um dos alunos foi esfaqueado ao sair da aula, em junho, e morreu.

"Ficamos alguns dias de luto. Daí começaram os tiroteios, e muitas vezes não dá para ir para aula. Daí os professores mandam as listas de exercício por e-mail mesmo, e assistimos aulas em uma plataforma virtual", diz Adrielle Magalhães, 24, que quer estudar administração de empresas.

Com um semestre marcado por tanto tumulto e dias sem aula, os cursos comunitários tentam não apenas recuperar o tempo perdido, como também o ânimo da turma.

Antes de liberar os alunos, já quase 22h, os professores do Pecep passaram um vídeo gravado especialmente para os alunos. Era o judoca Flávio Canto, que mantém um instituto de educação e esporte próximo à Rocinha.

“Acompanhei com tristeza o que aconteceu com vocês no dia da Uerj, mas lembrem-se de que em Londres, chamaram Rafaela Silva de macaca. Ela não baixou a cabeça, continuou tentando e, mais tarde, virou medalhista olímpica. A vida é assim: um dia você perde, mas se não desistir, pode lutar de novo e vencer”, dizia o atleta. Ao término do vídeo, os alunos se amontoaram em volta dos professores, pedindo horários para tirar dúvidas durante o feriadão.

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