Debate entre professor e aluno sobre situação do país vira motivo de ameaça

Rafael Pezzo

Colaboração para o UOL

Desde a última quarta-feira (11), uma escola estadual de Fortaleza virou assunto nas redes sociais devido a um vídeo gravado durante a discussão entre um professor e um aluno em sala de aula.

A cena ganhou repercussão depois de páginas de apoio ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) compartilharem os vídeos alegando que o garoto teria sido expulso por ser adepto das propostas do candidato à Presidência.

Foram divulgados no Facebook dois vídeos, nos quais o professor aparece argumentando com um aluno. Em um momento da gravação, ele questiona o garoto sentado no fundo da sala: "De que livro você tirou isso?" À reposta do menino de "não importa", o homem replica: "Importa. Eu estou falando a verdade. Quem está mentindo pra você é o policial imbecil ou o pastorzinho vagabundo da sua igreja".

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O caso aconteceu na Escola Estadual de Ensino Médio Otávio Terceiro de Farias durante aula de História, Filosofia e Sociologia na última terça-feira (10), ministrada por Euclides de Agrela.

Ao UOL, o professor disse que sua fala registrada no vídeo foi "estabanada" e "descabida". No entanto, ele afirmou que o aluno o provocou e o ofendeu durante o debate. Segundo ele, no começo da aula, os estudantes o perguntaram sobre a atual situação política do país, especificamente após a prisão do ex-presidente Lula e a ascensão de Bolsonaro em pesquisas de opinião.

De acordo com sua versão, ao discutir "limitações de liberdades democráticas do país e, por conseguinte, um clima de ameaça sobre fazer oposição", o professor declarou que "paira sobre o país um perigo nazifascista". "Depois de explicar que Adolf Hitler e Benito Mussolini foram os líderes da doutrina até a eclosão da 2ª Guerra Mundial, falei que o atual representante desta linha no Brasil é Bolsonaro", completou.

Neste momento, de acordo com Agrela, um aluno pediu a palavra, disse que ele estava mentindo para a classe e que, na verdade, os dois eram comunistas. Foi então que o professor fez as perguntas registradas no vídeo, sobre a fonte da informação do menino. "Àquele ponto (registrado no vídeo), ele já havia me insultado de burro, de mentiroso e dito que eu estava enganando a sala", afirmou Agrela à reportagem. "Depois, ele se levantou, veio na minha direção e ficou parado, me encarando, na parte da frente da sala. Ele fingiu que iria me agredir, mas eu mantive as mãos atrás do corpo e mandei que ele saísse da sala", explicou o professor, se referindo à segunda gravação.

Além de Agrela, outros professores da escola ouvidos pelo UOL declararam que o aluno envolvido na discussão é discreto e que dificilmente participa das discussões em sala.

A reportagem tentou entrar em contato com a Secretaria da Educação (Seduc) do Ceará e com a escola por telefone e e-mail, mas não obteve resposta de ambas até o fechamento da nota. A apuração também tentou contato com a diretora da escola, mas não foi atendida.

Discussão nas redes sociais

Desde a publicação dos vídeos, o professor e a escola se tornaram assunto de intenso debate no Facebook. Ele afirma ter sido alvo de "ataques verbais, ameaças de agressão e até de morte para mim e minha família. Um clima de terror completamente absurdo", diz. Tanto a página dele como a da escola estão fora do ar na plataforma.

Segundo o professor, os ataques afirmam que ele teria agido de tal forma pelo fato do garoto ter se declarado apoiador de Jair Bolsonaro. "Os vídeos foram editados e publicados cortados, sem o real contexto da discussão. Eu não o retirei da sala porque ele apoiava o deputado, mas porque ele me ofendeu e me agrediu verbalmente", explicou. Após o ocorrido, o aluno foi encaminhado à direção da escola.

Outro argumento colocado contra o professor nas redes sociais é o fato de ele ser filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), confirmado por ele à reportagem.

Um dos perfis que compartilhou os vídeos do professor com o boato foi Heitor Freire, presidente do PSL no Ceará. "'Professor' militante do PSOL humilha e expulsa aluno de sala de aula por ser apoiador de Bolsonaro. Este patife, militante comunista travestido de professor, utiliza de sua posição privilegiada para proferir mentiras contra Jair Bolsonaro", publicou em sua página na rede social.

"Estou tomando as medidas jurídicas cabíveis contra essas pessoas que estão me atacando e se aproveitando da minha situação para fazer propaganda política", disse Agrela. O professor contou à reportagem que, devido às ameaças, está morando provisoriamente na casa de um amigo. O educador também esclareceu que em nenhum momento pensa em processar o aluno. "Não, minha briga não é com ele. O problema que tive com ele, relacionado ao ato de indisciplina dele, será resolvido no âmbito escolar."

Posicionamentos

À reportagem, o presidente do Sindicato dos Professores e Servidores da Educação e Cultura do Estado e Municípios do Ceará (Apeoc), professor Anizio Melo, afirmou que realizará uma reunião nesta segunda-feira (16) para tratar do assunto. "É uma situação complexa e, por isso, teremos uma reunião com o professor envolvido. Esse problema coloca em risco a autonomia da escola e dos educadores. Não é a primeira vez, nem será a última que esse tipo de embate em sala de aula acontece", declarou.

A reportagem tentou contato com os pais do aluno por meio da direção da escola, mas não obteve retorno.

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