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Último de lista, novo reitor da UFC diz que apelou a ministro de Bolsonaro

O advogado criminalista Cândido Albuquerque, 62 - Arquivo Pessoal
O advogado criminalista Cândido Albuquerque, 62 Imagem: Arquivo Pessoal

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

23/08/2019 04h00

Apesar de ter recebido apenas 4,6% dos votos e ficado em último na lista tríplice para a cadeira de reitor da UFC (Universidade Federal do Ceará), o advogado criminalista Cândido Albuquerque, 62, foi indicado ao cargo pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) na última segunda-feira (19).

Como ele conseguiu o feito? "A minha proposta. Fui ao ministro [da Educação, Abraham Weintraub] e mostrei", afirmou Albuquerque ao UOL. "Fui a Brasília e conversei muitas vezes com o ministro e com todos os políticos do Ceará. Falei com senadores, deputados e mostrei meu projeto."

O advogado, que foi presidente da OAB-CE na década de 1990, recebeu 610 votos da comunidade acadêmica, que a cada quatro anos participa de uma eleição para indicar os três primeiros nomes ao MEC.

O piauiense, há oito anos diretor da Faculdade de Direito da UFC, ficou muito atrás do segundo colocado, Antônio Gomes de Souza filho, com 3.499 votos, e do mais votado, o então vice-reitor da universidade, Custódio Luís Silva de Almeida, que recebeu 7.772 votos.

A indicação foi tão mal recebida na universidade que um protesto na noite de terça-feira (20) reuniu centenas de estudantes, que bloquearam o cruzamento da principal avenida da UFC. "Havia muitas bandeiras do 'Lula Livre', CUT [Central Única dos Trabalhadores], MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra]. Eles são muito bem-vindos, mas não entendem de administração acadêmica", afirma Albuquerque.

Protesto de estudantes contra a indicação de Albuquerque - Reprodução/Facebook
Protesto de estudantes contra a indicação de Albuquerque
Imagem: Reprodução/Facebook

A convocação do protesto foi feita por um vereador. Quem falou foi o PT, o PSOL. Qual a legitimidade de quem estava com a bandeira Lula Livre?
Cândido Albuquerque, novo reitor da UFC

Albuquerque diz não se constranger com os protestos porque discorda do processo de escolha do reitor por lista tríplice, uma tradição que remonta a 2003. "Nenhuma dentre as 250 melhores universidade do mundo adota eleição direta. Precisamos de um processo de escolha que identifique um gestor, e não um político", sugere.

Quando me candidatei a reitor, sabia que não seria o primeiro da lista, mas queria tirar a universidade dessa situação.
Cândido Albuquerque, novo reitor da UFC

Universidade Federal do Ceará - Divulgação
Universidade Federal do Ceará
Imagem: Divulgação

Para Albuquerque, Bolsonaro não se comporta como um "interventor" ao escolher um candidato que não foi o mais votado. Em junho, o presidente já havia escolhido o segundo colocado para ocupar a reitoria da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro), e deve usar o mesmo critério para indicar o novo procurador-geral da República.

"Eu não vou responder sobre a Procuradoria-Geral porque não sei como funciona lá", afirmou o reitor. "Só faz essa associação [de intervenção] na universidade quem não conhece administração acadêmica."

Procurado, o MEC disse que não comentará o encontro do advogado com Weintraub e diz em nota que "não há hierarquia na lista tríplice". "Qualquer um dos três nomes pode ser indicado para o cargo de reitor e vice-reitor."

Ao UOL, Albuquerque evitou criticar o corte federal de R$ 45 milhões da UFC, 30% de seu orçamento, porque "o grande corte de verba aconteceu em novembro de 2014". Sua ideia é aderir ao Future-se, um projeto do MEC (Ministério da Educação) que estimula as universidades federais a atrair investimento privado.

"Temos de buscar os setores produtivos", diz. "Também vamos cortar gastos e chamar o governo federal. Tenho diálogo com o MEC."

Bolsonaro

Questionado, o novo reitor preferiu não dizer em quem votou na última campanha presidencial.

Não vou discutir isso porque faz uma associação. Mas ele é nosso presidente, foi legitimamente eleito. Devemos apoiá-lo e apostar em sua administração, apostar no Brasil.
Cândido Albuquerque, novo reitor da UFC

Pouco antes da disputa de segundo turno da campanha para presidente em 2018, o advogado escreveu um artigo no jornal O Povo em que analisava a adesão dos eleitores à campanha de Bolsonaro.

"O candidato de um partido nanico e sem estrutura adequada, com um discurso radical, mas com fama de honesto e prometendo mudanças, começou a se comunicar e a representar o homem comum", escreveu. "O povo está dizendo não a esse sistema apodrecido, onde as oportunidades são manipuladas."

Sobre os adversários na UFC, Albuquerque chegou a escrever em uma rede social que "os candidatos oficiais usaram a máquina pública". "Não quero voltar para campanha", declara hoje.

"Esse é o momento da união. Estou com as mãos estendidas a todos, montando a minha equipe com pessoas que não votaram em mim, mas acreditam em minha proposta", afirma.

Meu foco será em inovação, empreendedorismo e internacionalização. [...] Me dê dois anos para mostrar o que vou fazer na UFC. Aí quem estava lá no protesto, o Lula Livre, os vereadores, eles vão me pedir desculpas.
Cândido Albuquerque, novo reitor da UFC

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