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Nomeado por Bolsonaro, novo reitor da UFFS elogiou programas do PT

O professor Marcelo Recktenvald, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para ser reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul - Reprodução Facebook/Marcelo Recktenvald
O professor Marcelo Recktenvald, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para ser reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul Imagem: Reprodução Facebook/Marcelo Recktenvald

Vitor Pamplona

Colaboração para o UOL, em São Paulo

01/09/2019 04h00

Cristão conservador, defensor da família e pastor batista. Assim se define nas redes sociais o professor Marcelo Recktenvald, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) para ser o novo reitor da UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul), que abrange municípios do oeste de Santa Catarina, sudoeste do Paraná e noroeste do Rio Grande do Sul. A nomeação foi publicada sexta-feira no Diário Oficial da União. O novo reitor assume neste sábado.

Recktenvald foi o terceiro candidato mais votado na eleição para o cargo, resultado que o deixou fora do segundo turno, realizado em maio. Apesar de não ter sido o preferido da comunidade acadêmica, o professor integrava a lista tríplice enviada ao MEC (Ministério da Educação), por isso a escolha do presidente da República é legal. A indicação dos eleitos, porém, tinha se tornado a regra nas instituições federais nos últimos anos.

De perfil alinhado com o novo governo, como indicam postagens na internet favoráveis ao presidente da República e desqualificadoras da esquerda, Recktenvald recentemente comentou em seu perfil no Facebook a crise decorrente do aumento das queimadas e do desmatamento na Amazônia. Com ataques à "imprensa esquerdopata mundial", "ONG's hipócritas e interesseiras" e "governantes canhotos", reproduziu a retórica presidencial. "A Amazônia é só a cortina de fumaça. Só não vê quem não quer. Que Deus abençoe o nosso presidente!", escreveu.

No Twitter, sua conta ressoa influenciadores de direita, mas há um buraco na linha do tempo —todas as postagens de maio de 2012 a fevereiro deste ano foram aparentemente excluídas.

O engajamento pró-Bolsonaro e antiesquerda é recente, segundo colegas de universidade.

"O professor Marcelo mudou o tom do seu discurso apenas neste ano, mais precisamente próximo do início do nosso processo eleitoral na universidade. Anteriormente o discurso dele era muito diferente", diz o professor Anderson Alves Ribeiro, que ficou em primeiro na eleição para reitor. "O Marcelo inclusive foi pró-reitor de Assuntos Estudantis e posteriormente de Gestão de Pessoas, numa gestão que é classificada como de esquerda na universidade."

A produção acadêmica de Recktenvald reforça a reviravolta ideológica. Há um ano e meio, ele obteve o título de doutor em administração pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) com uma tese na qual valoriza políticas educacionais dos governos Lula e Dilma.

Com o título "Política de permanência em uma universidade pública popular: compreendendo os clamores de acadêmicos em situação de vulnerabilidade socioeconômica", o trabalho analisa o processo de inclusão de estudantes de baixa renda oriundos do ensino público e a formulação de políticas de permanência na Universidade Federal da Fronteira Sul.

O texto ressalta, por exemplo, que, com "o advento do governo social-desenvolvimentista decorrente da eleição de Lula à Presidência em 2002, o foco (do ensino superior) se deslocou para a oferta de vagas públicas", em oposição à expansão "centrada na demanda lucrativa dos interesses da iniciativa privada" durante o governo FHC.

Recktenvald elogiou o Pnaes (Programa Nacional da Assistência Estudantil), criado na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com objetivo de fornecer a alunos de baixa renda ajuda de custo, alimentação barata e auxílio-moradia, entre outros benefícios. Citando definição de outro autor, chamou o programa de "marco histórico na política de reconhecimento de direitos sociais em se tratando de educação superior".

Campus de Chapecó da UFFS  - Tadeu Salgado e Cléber Tobias/UFFS - Tadeu Salgado e Cléber Tobias/UFFS
Campus de Chapecó da UFFS
Imagem: Tadeu Salgado e Cléber Tobias/UFFS

O novo reitor da UFFS defendeu que o Pnaes precisava de ajustes para garantir não somente o acesso mas também a permanência dos estudantes na universidade. Nesse contexto, lamentou a redução do orçamento do programa após o impeachment de Dilma Rousseff. De R$ 1,03 bilhão em 2016, o valor destinado às universidades caiu para R$ 967 milhões no último ano do governo de Michel Temer (MDB) —em 2019, os recursos para assistência estudantil somam R$ 1,07 bilhão e ficaram fora do corte global de 30,33% efetuado pelo MEC, de acordo com a Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior).

"O tom neoliberal deste novo grupo de comando no governo não se preocupa adequadamente com a educação como um direito universal", afirmou Recktenvald sobre a administração Temer.

Em comentário sobre a política educacional implantada pelo sucessor da petista, afirmou que no período de Lula e Dilma "era possível compreender as intenções com a educação, especialmente com a educação pública".

E prosseguiu com críticas semelhantes às de opositores do atual governo: "Com uma nova coligação no poder, novas intenções se revelam, sobre as quais se instaura uma dinâmica de direita-volver, com ataques à universidade pública, patrocinados por interesses financeirizados do Banco Mundial, que possivelmente coloquem em xeque as políticas de acesso e permanência".

A tese de doutorado do reitor escolhido por Bolsonaro para comandar a UFFS ainda se atém à influência do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) em alunos contemplados no programa de assistência estudantil. As origens e histórias de vida de alguns deles são objeto de análise de Recktenvald, que constata a simpatia dos jovens pelo movimento.

"O simples envolvimento com o MST, a meu ver, não potencializa vulnerabilidades destes estudantes", afirma. Em seguida, reconhece potenciais benefícios da convivência com o MST: "o conhecimento que se desenvolve nos espaços de militância, seja neste ou em qualquer outro, pode ser riquíssimo para o crescimento cidadão destes estudantes".


Reitor eleito promete "reação democrática"

A nomeação de Marcelo Recktenvald foi recebida como afronta à democracia na UFFS, mas previsível segundo o vencedor da disputa. "Recebemos a notícia com certa surpresa, embora soubéssemos da possibilidade", diz Anderson Alves Ribeiro, até o início de agosto o diretor do campus de Erechim —a sede da universidade fica em Chapecó (SC), e também existem campi em Laranjeiras do Sul (PR), Realeza (PR), Cerro Largo (RS) e Passo Fundo (RS).

Ribeiro questiona a motivação da escolha do presidente Bolsonaro. "O processo de consulta e de composição da lista tríplice foi realizado dentro dos marcos legais, sem problemas judiciais, democrático e participativo. Não há motivo que desqualifique nosso processo e tampouco a nomeação do primeiro indicado na lista tríplice".

"Qual a motivação de não indicar o primeiro?", pergunta. "A lista não é apenas uma coleção de nomes, com um ordenamento qualquer, é uma ordem de indicação. O primeiro é o indicado pela comunidade universitária, no impedimento deste o segundo é nomeado e assim por diante".

"Na administração pública, diferente da esfera privada, os atos devem ser motivados e o gestor público deve, além de seguir a legislação, dar transparência e clareza aos seus atos", defende. Ribeiro afirma que a comunidade acadêmica deve reagir "por vias democráticas" e que não vai abandonar o programa de gestão que foi aprovado pela maioria da comunidade universitária.

Procurado, o reitor nomeado Marcelo Recktenvald não foi localizado. Segundo um funcionário da coordenação do curso de administração em Chapecó, onde o professor voltou a dar aulas recentemente, seu número de telefone não estava atualizado. Ele também não respondeu e-mail enviado pela reportagem.