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2 meses

Indígena que aprendeu português aos 7 anos ganha bolsa de doutorado nos EUA

Jósimo vai viajar no dia 14 de janeiro de 2022 para doutorado em ciência política - EducationUSA/Divulgação
Jósimo vai viajar no dia 14 de janeiro de 2022 para doutorado em ciência política Imagem: EducationUSA/Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL

03/10/2021 04h00

Aos 4 anos, Jósimo Constant deixou a aldeia Barão, em Mâncio Lima (no Acre, já na fronteira com o Peru), e apenas se comunicava em Kãdeyruya, língua originária do seu povo Puyanawa. Aos 7, já em Cruzeiro do Sul, onde a família pôde estudar, aprendeu o português. "Tinha apenas algumas noções da língua até então", lembra o hoje antropólogo, que, aos 32, acaba de ser contemplado com uma bolsa de doutorado em ciência política, nos EUA. Em breve, ele deverá ser o primeiro doutor da história de seu povo.

Ele foi selecionado pelo programa "Oportunidades Acadêmicas Mestrado e Doutorado", uma iniciativa da EducationUSA (grupo do Departamento de Estado Norte-Americano e da Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil).

A universidade ainda será escolhida pelo estudante, com a equipe que o acompanhará nos Estados Unidos, a partir de 14 de janeiro de 2022, data marcada para a viagem. Antes das aulas, fará um intensivo de inglês por nove meses e, então, encara o doutorado de 4 a 6 anos, a depender do programa.

Conquista começou na família

A saída da aldeia na infância foi marcante para Jósimo, especialmente pela determinação do seu pai. "Meu pai sempre foi a minha maior inspiração. Ele foi uma das poucas pessoas que teve a iniciativa de sair, naquela época, da cidade e virou professor. Ganhei através dele essa paixão", diz.

Ele conta que sempre viu o pai elaborando aulas e corrigindo provas — e aquilo o foi encantando. "Muitas vezes ficava de lado, e ganhei muita afinidade por aquela profissão", comenta. A mãe, no entanto, só estudou até a 4ª série (hoje 5º ano do fundamental). Após o estudo dos filhos, a família voltou a morar na aldeia, em 2007.

Meu pai sempre foi aquele indígena bem conectado às raízes, sempre dizia que tinha ido para que a gente estudasse. Quando ele se formou em pedagogia, em 2006, pela Ufac [Universidade Federal do Acre], já voltou para trabalhar na área. E ele teve um grande protagonismo aqui: foi o primeiro presidente da associação extrativista, foi um dos primeiros professores.

Jósimo é antropólogo, sociólogo e tem mestrado em direitos humanos pela UnB - EducationUSA/Divulgação - EducationUSA/Divulgação
Jósimo é antropólogo, sociólogo e tem mestrado em direitos humanos pela UnB
Imagem: EducationUSA/Divulgação

Jósimo foi pioneiro como o pai. Cursou antropologia (concluído em 2016), fez mestrado em direitos humanos (fechado em 2018) na UnB (Universidade de Brasília). Paralelamente, também se graduou em sociologia na mesma instituição e cuidava do filho pequeno, hoje com 10 anos.

Ele chegou a atuar como antropólogo no DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Kayapó, em Colniza (MT). Em 2019, deixou o trabalho, voltou a morar com os pais na aldeia em Mâncio Lima e começou a estudar para o doutorado. "Eles queriam que eu voltasse, mas estava decidido", conta.

Missão de dupla nacionalidade

Nos EUA, Jósimo buscará conhecer a cultura norte-americana, em especial dos povos indígenas e promover um intercâmbio entre os vários povos indígenas que vivem em território norte-americano e a sua comunidade. Diz ainda que, apesar de longe, os estudos devem aproximá-lo ainda mais de sua aldeia.

Isso é uma retomada ancestral ainda maior porque meu povo viveu um momento difícil. Vou provar que o acesso à tecnologia e à universidade não tira a característica indígena de ninguém, pelo contrário: cada vez mais, me aproximo do meu povo. Estamos juntos nos fortalecendo culturalmente.

Estudioso da cultura de seu povo, o antropólogo explica que a luta indígena está no sangue, principalmente para lidar com a defesa do território, em especial, em relação a caçadores predatórios.

Nós somos um povo muito pequeno, temos menos de 700 pessoas que vivem em duas aldeias. Hoje estamos em um movimento muito forte pelo resgate das nossas origens, com reflorestamento, mas também sempre travando lutas contra as invasões. A nossa reserva tem 24 mil km², então nossas fronteiras são muito vulneráveis.

Jósimo junto com integrantes do seu povo Puyanawa - EducationUSA/Divulgação - EducationUSA/Divulgação
Jósimo junto com integrantes do seu povo Puyanawa
Imagem: EducationUSA/Divulgação

Fora do comum

Segundo Fernanda Ribeiro, orientadora do EducationUSA, o agora doutorando chamou a atenção pelo currículo. "Ele é o candidato que a gente mais procura: um perfil de liderança que queira trazer benefícios para sua comunidade, que queira inspirar os seus pares e não tenha condição financeira de fazer esse processo sem apoio", explica.

Ele quer ser um tradutor entre indígenas e não indígenas. Ele viu, no trabalho que fez, que crianças morriam porque o médico muitas vezes não sabia lidar com a mãe e vice-versa. E percebeu que essa comunicação deve ser feita em uma escala maior, mas precisa de políticas públicas que acolham essa diferença

Nos EUA, conta, o brasileiro vai estudar ciência política, mas ainda não sabe em que instituição. "Durante esses meses [do curso de inglês] ele vai entrar em um processo de seleção do programa em que vai ficar, e lá, vai ter um orientador que vai ajudá-lo e colocá-lo na universidade com os programas que tenha interesse".

Para Ribeiro, o espírito social de Jósimo é inspirador para todos e reforça uma carência nas universidades brasileiras. "As grandes vozes sobre a cultura indigena, são pessoas não-indígenas e até estrangeiras. A academia precisa de indígenas que contem essa história", pontua.

Oportunidade

O processo de seleção de brasileiros que queiram ganhar bolsa no programa EducationUSA está aberto até o próximo dia 10. "As pessoas precisam saber que há essa seleção, falta chegar essa informação a todos que têm interesse e precisam de ajuda", diz Fernanda Ribeiro. As inscrições são feitas pelo site da iniciativa.

Entre os requisitos para a provação estão: ter domínio ao menos intermediário da língua inglesa e um ótimo desempenho acadêmico. Estar envolvido em projetos de pesquisa ou estágios acadêmicos ligados a atividades de impacto social são valorizadas na análise do perfil.