Escolas em área de manancial tem só 3h30 de aula

Em São Paulo

A maioria das escolas estaduais com salas superlotadas fica em área de manancial, no extremo sul da cidade. Das 90 unidades com classes acima do limite de alunos permitido pelo governo do Estado na capital paulista, 52 delas (57,7%) ficam em regiões preservadas pela legislação de proteção ambiental, no entorno das Represas Billings e do Guarapiranga.

Na rede municipal, as classes mais cheias também ficam nessas regiões: das 50 com mais turmas lotadas, ao menos 30 estão ali.

Na escola municipal Professora Odilea Botta de Mattos, no Jardim Floresta, região do Guarapiranga, a principal dificuldade apontada pelos pais é a diminuição no horário. Em vez de terem aulas no período regular, de seis horas, as crianças têm direito a só 3h30 na unidade. A primeira turma, por exemplo, entra às 7 horas e sai às 10h30. Isto ocorre porque a escola oferece três turnos, e não dois, como a maioria das escolas.

"Eu queria procurar emprego, mas tenho de ficar muito tempo com a criança. É pouco tempo na escola", diz Kelly Gleice, de 22 anos. Ela afirma que está tentando transferir a filha para outra unidade, de seis horas, mas ainda não obteve uma vaga.

Eduardo Anizelli/Folhapress

Ampliação 'Ilhada' pela Represa do Guarapiranga, no extremo sul da capital paulista, e rodeada por ocupações irregulares, a Escola Estadual Jardim Aracati 2 é a unidade com mais classes lotadas em todo o Estado. Das 22 classes (oferecidas em três períodos), 18 estão lotadas. Durante a manhã, a unidade é a única do Estado na região a receber crianças do 1.º ao 5.º ano do ensino fundamental.

O Estado esteve dois dias na unidade. Em um deles, a região estava sem energia elétrica e os alunos foram dispensados. Mas o colégio não estava vazio: por volta das 17 horas crianças e adolescentes ainda brincavam na quadra. O colégio decidiu abrir as portas para recebê-los mesmo fora do período das aulas. "Essas crianças não têm opções de lazer na região. E, de qualquer forma, eles já pulavam o muro quando deixávamos tudo fechado", diz um funcionário.

A unidade já solicitou a construção de uma nova escola na região. "E, se possível, duas", diz a vice-diretora Viviane Nivia Titoreli. Matricular os alunos em escolas mais afastadas, oferecendo o transporte, também não adianta. "Os pais não aceitam. A criança vai ter de sair quantas horas mais cedo para chegar em outra escola?"

Ao lado da Jardim Aracati 2 há outra escola estadual, que só atende os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio, a Soichi Mabe - que também tem sete classes superlotadas.

Estudantes ouvidos pela reportagem disseram gostar da Aracati 2 e não a trocariam por outra. Mas reclamam de desordem e dificuldade de se concentrar nas matérias. "Fazem muita bagunça na sala", reclama Lucas Gabriel da Silva, de 9 anos, estudante do 3.º ano.

Já os professores se esforçam para minimizar os problemas e garantir que as crianças sejam bem atendidas. O professor Antonio Lopes Soares, que está na unidade há quatro anos, conta que oferece alternativas lúdicas de aprendizagem e até criou um manual de "regras de convivência" fixado na parede. "Falo que se eles se comportarem, deixo irem ao pátio para brincar, jogar bola, pular corda", diz. Ele dá aulas para as crianças do 4.º ano do ensino fundamental e também, como professor de Geografia, na Soichi Mabe - no caso, para os mais velhos.

Ideb

A boa vontade e o esforço deram resultado: contrariando as estatísticas, o desempenho do colégio no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) só aumenta desde 2007. No ano passado, a escola teve a nota 5.5, o que era projetado somente para 2017. Ainda assim, está abaixo da média do Estado para a etapa, que é 6,4. "Não é fácil, mas é o que temos", desabafa Soares. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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