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Visão cronológica da história é "tradicionalista", dizem especialistas

Dia do fico, D. Pedro 1º, Aclamação de Dom Pedro I, Imperador do Brasil, no Campo de Sant"Ana, Rio de Janeiro. - Wikimedia commons
Dia do fico, D. Pedro 1º, Aclamação de Dom Pedro I, Imperador do Brasil, no Campo de Sant'Ana, Rio de Janeiro. Imagem: Wikimedia commons

Isabela Palhares

São Paulo

07/04/2017 08h47

O ensino de História - área que foi alvo de mais críticas e polêmicas durante a elaboração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) - deverá ocorrer na ordem cronológica. O método, que segue uma linha "tradicionalista", é criticado por parte dos especialistas da disciplina.

Hoje, como o Brasil não tem um currículo nacional, as escolas seguem diretrizes municipais e estaduais e material didático de livre escolha. Alguns estabelecimentos também consideram conteúdos cobrados em avaliações, como é o caso do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

"No fundo, o novo documento reproduz muito do que, nos últimos anos, os currículos, as propostas pedagógicas e os livros didáticos mais tradicionais sugerem para os alunos. É uma perspectiva cronológica, mais preocupada com exemplos convencionais do que com uma formação e conhecimentos mais amplos", criticou Roberto Catelli, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com ele, faltou ousadia para pensar em outra forma de trabalhar a disciplina, valorizando conceitos importantes para a formação do cidadão. "Sinto falta de uma abordagem que permita formular e refletir sobre períodos históricos. Não adianta apenas conhecer um conjunto de informações."

Ele também destacou que a base traz de forma "tímida" a história africana. Desde 2003, o ensino de história e cultura africana e indígena é obrigatório nas escolas brasileiras. "Nos conteúdos, há uma referência às sociedades africanas, mas na forma tradicional em que costumam aparecer. A relação com a cultura brasileira aparece de forma muito eventual."

África

A cultura africana surge novamente no documento na parte de Educação Física, com brincadeiras, jogos e danças a serem aprendidos pelos alunos do 1º ao 9º ano do ensino fundamental. Quando a primeira versão da BNCC foi lançada, em setembro de 2015, a área de História recebeu muitas críticas, uma vez que o modelo tinha maior ênfase na história da África e das Américas do que na História Antiga e europeia.

O currículo de História também é apontado pelos especialistas como uma das áreas em que há maior possibilidade de diversificação nos Estados e municípios. Isso porque a base deixa 40% do conteúdo a ser ensinado na educação básica livre para a complementação. Um exemplo são os fatos locais: a Revolução Farroupilha ou o M.M.D.C., por exemplo, podem entrar na vertente local dos Estados onde ocorreram.

Mudanças

O ensino religioso foi excluído da terceira versão da base. O Ministério da Educação alegou respeitar a legislação que determina que o tema seja optativo nas escolas e destacou que é competência das secretarias estaduais e municipais definir a regulamentação.

A versão anterior estabelecia diretrizes para o ensino religioso em todo o fundamental e defendia que a escola poderia "contribuir para a promoção da liberdade religiosa e dos direitos humanos, com práticas pedagógicas".

Gênero

Para especialistas, apesar de o documento colocar nas competências gerais para a educação básica o respeito à diversidade de orientação sexual e de gênero, os temas são pouco abordados nas disciplinas.

Educação sexual, por exemplo, só é considerada no 8.º ano em Ciências, quando é esperado que os alunos saibam o que ocorre na puberdade e as formas de transmissão de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). O debate sobre questões de gênero é destacado em História apenas no 9.º ano, quando se espera que os alunos saibam relacionar as mulheres à conquista de direitos políticos.

"Esses temas ganharam uma importância muito grande e foram motivo de polêmica durante a elaboração dos planos municipais e estaduais de educação. Pode ser que seja tardio abordar esses assuntos só nessas séries, mas o Conselho Nacional da Educação (que fará a análise final do documento) talvez tenha maior legitimidade para debater com mais tranquilidade esses assuntos tão sensíveis", disse Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.