Homens ainda são minoria em creches

Isabela Palhares

São Paulo

  • Hélvio Romero/Estadão Conteúdo

    O professor José Tiago França, responsável por uma turma de crianças de 2 anos em uma creche da zona leste de São Paulo

    O professor José Tiago França, responsável por uma turma de crianças de 2 anos em uma creche da zona leste de São Paulo

Há dez anos, o primeiro dia de aula é sempre igual para o professor José Tiago França. Os pais chegam para deixar seus filhos na escola e estranham que será um homem o responsável pela educação e os cuidados com as crianças de 2 anos.

Apesar de ter crescido a presença masculina entre professores de creche e de pré-escola (de zero a 5 anos), ela ainda é bem pequena. Em todo o País, dos mais de 575 mil docentes dessa etapa, apenas 3,7% são homens - há sete anos, eram 2,8% do total, segundo o Censo Escolar.

"Meu primeiro contato em sala foi surreal. As mães chegaram às 7 horas e, quando me viram, vieram todas juntas perguntar se era eu o professor. Para elas, era muito estranho ter um homem cuidando de bebês", conta França, de 32 anos, que é hoje responsável por uma turma de crianças de 2 anos no Centro Social Marista Robru, em São Miguel Paulista, na zona leste da capital.

Segundo França, ainda hoje sua presença causa estranhamento, mas ele já se acostumou e aprendeu a lidar com a situação. "Na Pedagogia, dos 120 (alunos) da turma, havia apenas eu e outro homem. Isso nunca me incomodou porque tinha muita vontade de trabalhar com crianças. Mas sempre ouvi comentários preconceituosos, até mesmo de colegas de classe."

A presença masculina nos cursos de Pedagogia também continua pequena. Jaime Fontes, de 32 anos, é um dos três homens de uma turma de 40 alunos do 2º ano da graduação no Instituto Singularidades, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.

"É uma questão cultural e esse padrão começa a ser rompido, mesmo que lentamente. É esperado que, se o homem quer ser professor, trabalhe com adolescentes ou procure cargos de chefia. Não acham que o homem possa cuidar de crianças".

O professor do Colégio Ítalo-Brasileiro, Carlos Eduardo da Silva, tem 55 anos - 34 deles na educação infantil e nos anos iniciais do fundamental (1º ao 5º ano). Para ele, o preconceito se deve a uma visão equivocada dessas etapas de ensino. "O estranhamento ocorre, em parte, por acharem que, na creche ou pré-escola, a criança vai somente para ser cuidada e não para aprender. A outra parte é por acharem que só uma mulher sabe cuidar, ser carinhosa."

Hoje, Silva é professor do 2º ano (alunos de 7 anos) e diz que, a cada nova turma, conversa com os pais para ganhar a confiança. "Brinco muito com as crianças, pego no colo. Muita gente ainda estranha essa atitude vinda de um homem. Por isso, peço que, se alguém se incomodar, que me avise, porque eu respeitarei. Foram poucos os casos em que os pais pediram."

Números

A participação dos homens no magistério é maior conforme o avanço das etapas de ensino. Segundo o Censo Escolar 2016, na creche (de 0 a 3 anos), eles somam 2,3% do total de docentes. Na pré-escola (4 e 5 anos), são 4,8 %. Nos anos iniciais do fundamental, a taxa é de 10,7% e nos finais (do 6º ao 9º ano) o índice salta para quase um terço (30,4%) do total.

O último estudo da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico(OCDE) mostrou que, dos 41 países analisados em 2015, 8 em cada 10 professores da pré-escola e dos anos iniciais do fundamental eram mulheres. O relatório diz que a atuação dos homens contribui para que as crianças desenvolvam uma identidade positiva sobre gênero. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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