Refugiado sírio consegue bolsa em faculdade de SP com rede solidária

Priscila Mengue

São Paulo

  • Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

    "Tem muitas diferenças no idioma, na cultura, no jeito que as pessoas pensam, mas agora já me acostumei", diz Louran

    "Tem muitas diferenças no idioma, na cultura, no jeito que as pessoas pensam, mas agora já me acostumei", diz Louran

Foi há três anos que a vida de Louran Alchanaa, de 18 anos, mudou. Da Síria para o Líbano, do Líbano para o Brasil, foram dias de viagem até chegar a São Paulo com a família. Quase "100% adaptado", ele hoje não cogita deixar o país - e um dos principais motivos é a graduação em Farmácia. "Tem muitas diferenças no idioma, na cultura, no jeito que as pessoas pensam, mas agora já me acostumei", conta.

Com início em 2018, o curso já está devidamente marcado nas redes sociais do garoto, que termina o ensino médio neste mês. Até pouco tempo atrás, contudo, a situação era distinta: sem dinheiro, não conseguiu se inscrever na Fuvest e, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), considera não ter se saído bem o suficiente para passar em uma instituição pública.

A mudança de perspectiva veio por intermédio de três mulheres, todas de origem árabe, que acompanhavam a família de Louran desde que sua mãe, Amal, engravidou de Gabriella, há dois anos. Dentre elas, estava Rose Ghachache, de 59 anos, professora de pós-graduação das Faculdades Oswaldo Cruz, que inscreveu o garoto no programa de bolsas.

"Levei ele para conhecer (a faculdade), os laboratórios, até para ver se era isso que ele queria", conta. "Ele está superanimado, até porque tem parentes na Síria que também são da área", diz.

O pedido foi aprovado e Louran pode se matricular, com uma bolsa de 60%. Resta, contudo, um valor mensal de R$ 720. Para custear a mensalidade, o garoto está agora atrás de emprego "em qualquer coisa", pois o pai, o cabeleireiro Fadi, é a única fonte de renda da família.

Assim como Louran, Rose é filha de sírios de Damasco. Por falar árabe, ela acompanhou a mãe do garoto durante os três dias que esteve internada até o nascimento de Gabriella, traduzindo tudo o que era relatado por Amal (que tem pouca fluência em português).

A jornalista Maria Alice Jorge Maluf, de 62 anos, também se aproximou da família Alchanaa por ter origem árabe. "Meus avós vieram como imigrantes também, tentar acompanhar eles é até uma forma de agradecimento. Em vez de acolher, eu que fui acolhida. A pequena (Gabriella) até me chama de vovó"

Maria Alice se refere a Louran como um "menino de ouro", que ajuda os pais nos cuidados da irmã caçula - seus dois irmãos mais velhos foram para a Alemanha como refugiados. "Acho que ela (a mãe) ficaria perdida se não tivesse ele para ajudar", aponta.

Esporte

As redes sociais de Louran são repletas de comentários e imagens de futebol, especialmente o europeu. Torcedor do Barcelona, ele adotou o São Paulo como segundo time ao chegar no Brasil. "Na Síria, a gente costuma torcer para clubes de fora, da Europa, é mais Barcelona, Real Madrid", compara.

Como não conhecia as equipes brasileiras, Louran acabou se aproximando do São Paulo, pois conhecia o atacante Kaká, com passagens pela Europa e que, em 2014, jogava pelo time do Morumbi. Em outubro deste ano, até foi na partida em que a equipe paulistana derrotou o Flamengo por 2 a 0 no Pacaembu, pelo Campeonato Brasileiro. "Se não fosse a Farmácia, eu iria procurar uma faculdade de Educação Física", conta o garoto, que costuma jogar como atacante.

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