Brasil sedia evento com elite da Matemática e terá até entrega de "Nobel"

Roberta Jansen

Rio

  • Fabio Motta/Estadão Conteúdo

    O matemático francês, Etienne Ghys, durante sessão de fotos na sede do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada)

    O matemático francês, Etienne Ghys, durante sessão de fotos na sede do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada)

Cristais de gelo estão entre as mais belas criações da natureza. As estruturas hexagonais apresentam padrões tão intrincados quanto únicos: nunca foram encontrados dois iguais. O cristal se forma em torno de uma simples partícula de poeira, moldado pela umidade e pelas inúmeras variações de temperatura nas nuvens. E pela Matemática é possível enxergar tamanha beleza.

"A Matemática é ligada a muitas coisas bonitas", diz o francês Étienne Ghys, do Instituto de Matemática Pura Aplicada (Impa), vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Ele vai dar uma palestra pública sobre a formação dos flocos de neve no Congresso Internacional de Matemáticos, que começa na quarta-feira, no Rio, e reunirá pelo menos 2,5 mil especialistas. "A Matemática não tem nada a ver com fórmulas feias, equações e contas, mas sim com a beleza e a natureza."

É a primeira vez que o evento internacional, considerado o mais importante da Matemática, será realizado em um país do Hemisfério Sul. Trata-se de um sinal inequívoco do prestígio do Brasil na área. E a maior preocupação dos organizadores é, justamente, aproveitar a oportunidade para desmistificar a matéria, revelando ao público seu lado mais belo e palatável. O evento vai até o dia 9.

"O congresso será não só para celebrar o prestígio da Matemática, mas também para pensar no futuro; há muita coisa a fazer", explica o diretor do Impa e organizador do evento, Marcelo Viana. "Queremos usar o congresso para ajudar a aproximar a Matemática da sociedade, desconstruir essa imagem negativa que ela tem, apresentar uma abordagem mais amigável."

O congresso foi criado em 1897, na Suíça, e acontece a cada quatro anos (foi suspenso só durante guerras mundiais). Durante o evento, são anunciados os ganhadores da Medalha Fields, o "Nobel da Matemática", além de outros prêmios internacionais. Com o carioca Artur Ávila, o País já ganhou a Fields uma vez em 2014. Fernando Codá, que trabalha na Universidade Princeton (EUA), é considerado outra referência brasileira na área.

Mulheres e números

Durante os nove dias do evento, estão previstas 1,2 mil palestras e painéis de debates. Haverá ainda cerca de 40 eventos científicos paralelos, entre eles o Encontro Mundial de Mulheres na Matemática, no qual serão discutidas questões de gênero. "Na verdade, o Brasil tem até um número elevado de mulheres na Matemática, se comparado com outro países. Por aqui, 25% das pesquisas são feitas por mulheres", diz Carolina Behring de Araujo, a única mulher entre os 47 pesquisadores do Impa. "Mas você vai a um congresso e são menos de 10% de mulheres. Por que não estamos representadas?"

A popularização da Matemática é o tema do ciclo de palestras Impa-Serrapilheira, aberto ao público. A relação entre Arte e Matemática será outro dos temas abordados.

"Desenvolvemos algoritmos matemáticos que podem ser usados para muitos propósitos na arte e na conservação. Há várias ferramentas de análise de imagem, por exemplo, por meio das quais podemos saber o que está por baixo de uma pintura", diz Ingrid Daubechies, belga que atua na Universidade Duke (EUA) e a primeira mulher a presidir a União Matemática Internacional, entre 2011 e 2014. "Nada pertence a mundos opostos."

Elite da Matemática

O Brasil passou a integrar, este ano, o seleto grupo de 10 países que formam a elite da matemática mundial. O País entrou no Grupo 5, o topo do ranking mundial, formado pelas nações mais desenvolvidas na pesquisa da matéria.

São eles: Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia. É o primeiro país do Hemisfério Sul a alcançar tal posição. Entre 1976 e 2016, o volume de estudos matemáticos no Brasil saltou de 0,4% da produção mundial para 2,3% desse total. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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