'Queremos tempo para a família': a greve dos pais contra lição de casa

Um grupo de pais organizou uma "greve dos deveres de casa" na Espanha na qual crianças e adolescentes deixarão as tarefas de lado durante todo o mês de novembro para passar mais tempo livre.

"Queremos mais tempo para a família", disse à BBC José Luis Pazos, presidente da Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães de Alunos (Ceapa, na sigla em espanhol), que está por trás da campanha "Na minha escola falta uma tarefa: meu tempo livre".

A greve, que já começou em algumas províncias da Espanha nesse último final de semana, convocou crianças e adolescentes a não fazer o dever de casa e se focar apenas em atividades recreativas durante todos os sábados e domingos de novembro.

"Nosso sistema educativo está cada vez mais orientado a fazer com que o período escolar invada o tempo com a família e nossos filhos e filhas estão ficando praticamente sem infância nem adolescência. Todo seu tempo está voltado ao que acontece na escola e ao que a escola ordena que tragam para casa", afirma Pazos.

Segundo o presidente da Ceapa, o objetivo da greve e da campanha é "uma mudança de metodologia e de modelo educativo".

"Nós mantemos um sistema que desmotiva o aluno e o afasta do processo de aprendizagem", diz ele. Não há números oficiais sobre quantas famílias participam da greve, mas Pazos afirma que a organização que preside representa outras 12 mil associações em todo o território espanhol. "Estamos falando de vários milhões de famílias".

'Finais de semana sem deveres'

A Ceapa fez um cartaz com propostas de atividades que pais e filhos podem fazer juntos com o título "Novembro de 2016: Finais de semana sem deveres". A ideia é priorizar atividades familiares e não as escolares.

Muitos pais espanhóis simpatizam com a proposta de dar prioridade ao tempo com a família, como Merche, cuja filha tem 10 anos e vai a uma escola semiprivada.

'Pouco tempo de lazer'

"Acho que dão muitos deveres às crianças e sobretudo muitos trabalhos que além de tudo demandam a ajuda dos pais", disse Marche à BBC. "Se eu saio do trabalho às 20h, chego em casa às 20h30, ajudo minha filha com seus deveres, acabamos jantando às 22h e indo dormir às 23h".

Para Merche, as crianças já estão acostumadas com essa dinâmica, mas isso não significa que não seja possível mudá-la. "Entendo que os deveres são necessários, mas deveriam ser cobrados de outra maneira. Por exemplo, não deveriam repetir os exercícios que já foram feitos em aula", diz Merche.

"Eu só tenho uma filha, imagine os que têm três. Eu reviso os exercícios de ciências naturais, sociais, os que são em valenciano (dialeto espanhol)... E fico exausta, imagine quem tem três filhos. Realmente não sei como fazem".

Como muitos pais, Merche sente que tem "pouco tempo de lazer" com sua filha por conta das tarefas.

Raul tem uma filha de seis anos que está na primeira série de uma escola semiprivada. "Minha filha quase não tem tempo para brincar", disse em entrevista à BBC Mundo, o serviõ em espanhol da BBC.

A menina passa duas tardes por semana nas aulas de inglês e outras duas praticando esportes. "Ela sai da escola às 17h, vai a suas aulas extracurriculares e chega em casa às 19h para fazer suas tarefas escolares. Com seis anos, passa no mínimo uma hora por dia fazendo deveres".

Ainda que a filha goste de fazer os deveres, "uma vantagem", segundo Raul, em alguns momentos isso deixa de ser um prazer.

Críticas

Por outro lado, a campanha também é alvo de fortes críticas. A Associação Nacional de Professores Públicos (ANPE) emitiu um comunicado rechaçando iniciativas do tipo por "questionar o trabalho dos professores e atentar contra a liberdade de ensino e ao princípio de autonomia pedagógica e organizacional dos centros educativos".

"As propostas de boicote e insubmissão não se encaixam em uma boa dinâmica educativa, enviando uma mensagem negativa sobre a relação professor-aluno que tira a autoridade do docente, atenta contra a boa convivência escolar e em última instância contra o rendimento acadêmico do aluno", disse a organização.

O ministro da Educação, Íñigo Méndez de Vigo, também rejeitou a campanha , dizendo que trata-se de uma "proposta ruim".

No entanto, a ANPE disse estar disposta a participar do debate sobre as tarefas escolares, apesar de achar que o cerne da discussão não são os deveres, mas uma "conciliação" entre a vida familiar e a profissional.

"Como mãe, eu compartilho a preocupação de que os filhos não passem a tarde toda fazendo dever de casa para que também façam outras atividades, mas esse tipo de greve coloca a criança entre professor e família e não deveria ser assim. Escola e família devem ser aliadas e trabalhar juntas".

Maria José, uma professora de uma escola em Cádiz, opõe-se à campanha. "Não sei como farão em outras escolas, mas onde eu trabalho damos como lição de casa o que eles não terminaram em aula. Nós tentamos motivá-los a terminar na sala, mas muitos não terminam e levam para casa. Não podemos obrigá-los a terminar tudo na escola", disse Maria José à BBC.

Os benefícios das tarefas

A ANPE, por exemplo, diz que entre os benefícios das tarefas estão em "afiar o que foi aprendido em aula, incutir o hábito de estudo, fomentar o esforço pessoal, incluindo organização e planejamento do aluno".

No entanto, para a Ceapa, as vantagens são questionáveis. "O argumento de que os deveres de casa trazem benefícios não correspondem à realidade porque os relatórios internacionais dizem justamente o contrário: que não oferecem nada positivo e que, em muitos casos, trazem prejuízos, diminuem a igualdade de oportunidades e desmotivam o aluno", diz Pazos.

Para Pazos, a defesa das tarefas é resultado do medo de grande parte da sociedade de que uma mudança poderia desestruturar a escola.

A edição de 2012 do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indica que a média entre os países do grupo é de quatro horas de dedicação aos deveres de casa por semana.

No entanto, essa quantidade varia de país para país. Os alunos de Rússia, Itália, Irlanda, Polônia, Espanha e Hungria dizem passar mais de seis horas por semana fazendo tarefas de casa.

No Brasil, a média é de 3,3 horas semanais. Na China, o tempo semanal gasto com tarefas chega a 14 horas, enquanto na Finlândia, tida como um exemplo de educação há mais de uma década, não chega a quatro.

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