Nas escolas, França luta por sua identidade

Rachel Donadio

Em Paris (França)

  • Jacky Naegelen/Reuters

A temporada dos biquínis -- e burquínis -- terminou, mas com o novo ano escolar a batalha da França sobre a identidade nacional irrompeu em uma nova frente: o currículo de história.

Os currículos escolares há muito fazem parte das guerras culturais, inclusive nos EUA, onde houve discussões sobre escravidão e evolução. Mas na França, onde o Estado define os programas escolares de todo o país, a compreensão do passado --e do uso da educação para moldar os jovens cidadãos -- tornou-se um tema quente numa temporada eleitoral perturbada.

As mudanças na maneira como Joana d'Arc e outras figuras históricas chaves são ensinadas na escola elementar, assim como alterações no ensino de francês, latim e grego, provocaram discussões acirradas entre políticos de inclinação à direita e intelectuais, que acreditam que as escolas devem promover o orgulho nacional, e a ministra socialista da Educação, Najat Vallaud-Belkacem, e seus defensores, que afirmam que o currículo deve refletir as mudanças na sociedade.

Em um recente discurso de campanha em uma coluna de jornal, um ex-primeiro-ministro que disputa as primárias pelo Partido Republicano (de direita), François Fillon, disse que a França "não deve se desculpar" por sua história. E na semana passada o ex-presidente Nicolas Sarkozy, também candidato nas primárias pelo partido de direita, elevou a aposta. "Quando você se torna francês, seus ancestrais são os gauleses", disse, acrescentando que os estudantes devem ser ensinados: "Eu amo a França, eu aprendi a história da França, eu me considero francês".

Esta crescente politização da educação está acontecendo em uma época de intenso debate sobre a imigração, o pluriculturalismo e a identidade nacional, segundo Rachel D. Hutchins, professora na Universidade de Lorraine, na França, e autora de "Nationalism and History Education: Curricula and Textbooks in the United States and France" [Nacionalismo e educação histórica: Currículos e livros de texto nos EUA e na França].

"Para os políticos, visar a educação histórica oferece uma resposta simples e retoricamente poderosa aos temores do público sobre a imigração", disse ela.

Fillon, que foi primeiro-ministro de 2007 a 2011 no governo de Sarkozy, disse que se for eleito insistirá que o Ministério da Educação ordene uma "narrativa nacional". Seus comentários foram considerados uma censura a décadas de modificações nos livros escolares, que passaram a projetar as conquistas coloniais da França, especialmente no norte da África, sob uma luz negativa.

"Nossa história tem momentos gloriosos e momentos trágicos, mas é uma inteireza", disse ele. "Devemos assumi-la e não temos de pedir desculpas por ela." Ele também lamentou a remoção neste outono de Júlio César, do cardeal Richelieu e de Voltaire do currículo escolar elementar.

O currículo da escola elementar foi alterado de modo significativo neste ano -- para se concentrar mais na história francesa e menos na história mundial --, depois de "um debate muito intenso", disse Michel Lussault, presidente do Conselho Superior de Programas, o comitê independente nomeado pelo Estado de 18 especialistas que definem os currículos.

O debate se concentrou em como é melhor ensinar a história e a língua francesas, e como dividir o currículo elementar em ciclos de três anos. Mas em um momento em que os atentados terroristas trouxeram ao primeiro plano questões de identidade nacional e educação cívica, ele rapidamente adquiriu uma carga política. No final, a decisão do comitê de se concentrar na história francesa foi um compromisso entre os tradicionalistas, que queriam mais "narrativa nacional", e os progressistas, para os quais o currículo deve refletir mais os estudantes de hoje e fazê-los participar mais ativamente na sala de aula.

Lussault, que é professor de geografia na Universidade de Lyon, disse que Fillon está jogando com a política. "Esse é um tipo de retórica política que não tem muito a ver com a realidade do currículo", afirmou.

Mesmo que o novo currículo tenha eliminado listas detalhadas de figuras históricas, incluindo Joana d'Arc e César, os professores ainda têm de cobrir suas épocas. "Imagino que se você ensinar a conquista romana da Gália terá de falar de Júlio César", disse Lussault.

Depois dos ataques terroristas em Paris no ano passado, o Ministério da Educação aumentou o número de horas dedicadas ao ensino do secularismo e dos valores republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade.

Essas mudanças ocorreram em meio a um debate sobre o que significa ser francês. "Muita gente tem carteira de identidade francesa, mas a questão do que é a França e como transmitir o conhecimento ou o amor pela França foi o que os ataques introduziram no debate", disse Alain Finkielkraut, um intelectual cujo livro de 2013, "A Identidade Infeliz", sobre as tensões em uma sociedade pluricultural, lamenta o que ele considera um declínio nos padrões escolares.

Desde que a Revolução Francesa -- e certamente desde que o Estado francês tomou o controle das escolas da Igreja Católica, no início do século 20 --, a educação foi o principal método do governo para instilar certos valores de cidadania. Mas para que tipo de cidadãos?

"A história deve ser a história cívica? Ou uma maneira de ensinar curiosidade e alteridade? Essa é uma grande questão", disse Patricia Legris, professora de história contemporânea na Universidade de Rennes. Quanto ao tipo de cidadão, "deve ser um cidadão nacional? Ou um cidadão europeu? Um cidadão do mundo?"

Em "A Escola Fantasma", publicado neste mês, o intelectual de direita Robert Redeker afirma que os jovens franceses estão fora de sincronia com os valores franceses porque as escolas decaíram. "Muitos são de origem norte-africana e estão em dissonância, são como um povo separado", disse Redeker, que vive sob proteção policial desde 2006, quando escreveu um artigo de opinião no jornal "Le Figaro" dizendo que o islamismo é uma religião violenta.

"Eles têm ódio do país onde nasceram", continuou Redeker. "Mas em vez de ensinar amor e respeito a esse país, sua língua e sua história, a escola desde o início dos anos 1990 lhes ensinou que afinal somos maus, escravagistas, colonialistas, quase assassinos."

Redeker e outros que enfatizam o passado greco-romano da Europa estão incomodados porque este ano latim e grego, que são matérias opcionais, foram mudadas para enfocar mais as civilizações antigas e menos a gramática. "É turismo pedagógico", disse ele. "Latim e grego, como matemática, são uma escola de lógica, que ensina rigor no pensamento."

Se os currículos poderão ajudar a solucionar os problemas da França é outra questão. "Uma espécie de pensamento mágico os envolve", disse Mark Lilla, professor de ciência humanas na Universidade Columbia, em Nova York, que escreveu extensamente sobre a política francesa contemporânea. "Existe a suposição de que se aumentarmos em 15 minutos isto ou aquilo fizemos algo para combater o homem ou os bárbaros que estão no portão."

"Em certo sentido, é um testemunho a sua fé na vida da mente", acrescentou Lilla, "mas também é uma maneira de evitar opções políticas difíceis."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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