Batalha de Iwo Jima (2): O significado da ocupação da ilha pelos EUA

Túlio Vilela

  • Batalha de Iwo Jima (1)
  • Finalmente, no dia 19 de fevereiro de 1945, três divisões dos fuzileiros navais dos Estados Unidos, com pouco mais de 70 mil homens, desembarcaram na ilha. Para transportá-los foram utilizados 68 veículos anfíbios. Quase a metade dos fuzileiros dessas três divisões já tinha experiência em combate.

    Alguns deles, como, por exemplo, o sargento de artilharia John Basilone mais conhecido pelo apelido "Manila John" (que ele ganhou por ter servido o exército norte-americano nas Filipinas antes de se juntar aos fuzileiros), já haviam lutado contra os japoneses na batalha de Guadalcanal (uma das ilhas Salomão), travada em 1942. Ele recebeu a Medalha de Honra, em reconhecimento a suas ações em Guadalcanal, mas se recusou a receber patente de oficial e se apresentou como voluntário para voltar a lutar no Pacífico.

    Outros eram bem mais jovens, caso do recruta Anthony Muscarella, que se alistou quando tinha apenas 14 anos (ele mentiu na idade para poder se alistar). Dois anos depois, ele já era um veterano que havia lutado nas ilhas Marianas, apesar de seus apenas 16 anos de idade.

    As praias da ilha de Iwo Jima

    O primeiro obstáculo enfrentado pelos fuzileiros navais norte-americanos em Iwo Jima foram as própria praias da ilha. A areia preta das praias imobilizava veículos de quatro rodas, chegando a entupi-los.

    Kuribayashi ordenou aos seus soldados que não disparassem durante os primeiros momentos do desembarque. Assim, para não revelar suas posições, a artilharia japonesa permaneceu em silêncio. Logo após o desembarque, a maioria dos fuzileiros começou a seguir em direção ao monte Suribachi. Os norte-americanos contavam com os pesados tanques M-4 Sherman, mas subir a colina era tarefa para os fuzileiros a pé (o que significava correr vários riscos).

    Tão logo os norte-americanos avançaram uns 500 metros no interior da ilha, eles foram surpreendidos quando os japoneses começaram a disparar com força total usando morteiros e outras armas. Um dos que morreram no ataque foi o sargento Basilone.

    A tomada do monte Suribachi

    Enquanto não conseguissem tomar o monte Suribachi, os norte-americanos permaneceriam extremamente vulneráveis aos ataques inimigos. Para eles, era de vital importância tomar o monte. Por sua localização, a elevação oferecia uma vantagem estratégica para quem estivesse no alto: de suas encostas era possível lançar fogo de artilharia para qualquer direção.

    Poucas horas antes do amanhecer do dia 23 de fevereiro daquele ano, os norte-americanos tomaram o monte Suribachi. Escolheu-se esse horário para a tomada porque daria uma dupla vantagem: a escuridão permitiria que os norte-americanos passassem pelos inimigos sem ser vistos e logo depois poderiam enfrentá-los à luz do dia. Naquela manhã, ocorreu o momento que seria imortalizado numa das imagens mais famosas da guerra: o hasteamento da bandeira dos Estados Unidos no topo do Suribachi.

    Dois hasteamentos

    Na verdade, ocorreram dois hasteamentos da bandeira, ambos registrados pelo fotógrafo Joe Rosenthal, que faleceu em agosto de 2006. O tenente-coronel em comando ordenou que fosse feito um segundo hasteamento, dessa vez com uma bandeira maior, para que ficasse mais visível para todos. A segunda bandeira tinha cerca do dobro do tamanho da usada no primeiro hasteamento.

    A foto do segundo hasteamento acabou se tornando uma das imagens mais famosas da Segunda Guerra Mundial e a mais bem explorada pela propaganda de guerra. A cena foi reproduzida em inúmeros cartazes e selos comemorativos. Essa foto rendeu um prêmio Pulitzer, o "Oscar" do jornalismo norte-americano, para Rosenthal. Fato semelhante na Segunda Guerra Mundial ocorreria no dia 30 de abril daquele ano: durante a batalha de Berlim, os soldados soviéticos hastearam duas vezes a bandeira da União Soviética no prédio do Reichstag (foi feito um segundo hasteamento porque o primeiro não havia sido fotografado).

    Seis soldados participaram do hasteamento, mas na foto um deles não está visível. Três dos soldados que participaram do evento acabaram morrendo durante combates em Iwo Jima. Segundo relatos de veteranos, a bandeira hasteada elevou a moral dos combatentes norte-americanos na ilha. O fato foi comemorado, mas a batalha ainda estava longe do fim.

    Espírito de samurai dos soldades japoneses

    Para atacar no terreno íngreme, os fuzileiros norte-americanos usaram lança-foguetes, que eram colocados em jipes. Os norte-americanos recorreram a tanques lança-chamas para penetrar nos abrigos de concreto construídos pelos japoneses.

    Muitos soldados japoneses que estavam nesses abrigos ao ouvirem o som dos lança-chamas cometiam suicídio: era preferível tirar a própria vida do que esperar ser queimado pelas chamas. Os norte-americanos também chegaram a explodir cavernas onde estavam escondidos soldados japoneses.

    Samaji Inouye, um capitão da marinha imperial japonesa, decidiu lançar um ataque "banzai" em 9 de março. Um ataque "banzai" consistia em uma última tentativa de resistência, um ato de desespero. Esse tipo de ataque era fiel ao espírito samurai, segundo o qual era melhor morrer lutando a passar pela humilhação de uma derrota (a rendição era considerada um ato de covardia). "Banzai" é uma expressão japonesa, cuja tradução literal é "dez mil anos", no sentido de "vida longa".

    Durante esse ataque "banzai", os japoneses conseguiram matar dezenas de fuzileiros norte-americanos, mas perderam cerca de 800 homens. Apesar da resistência violenta, o esforço foi em vão. Os combates continuaram intensos.

    Em fins de março, não se sabe com certeza a data exata, o general Kuribayashi cometeu suicídio em seu posto de comando. Desde o início, ele sabia que morreria na ilha. Diante da derrota iminente, no dia 26 de março, os japoneses lançam um novo ataque "banzai". Cerca de 300 soldados japoneses participaram dessa última grande investida. Mais uma vez, em vão. A vitória foi dos norte-americanos. Poucas horas depois, um general dos fuzileiros navais dos Estados Unidos, Harry Schmidt, declarou que a operação militar em Iwo Jima havia sido concluída.

    Saldo final da batalha de Iwo Jima

    Os Estados Unidos saíram vitoriosos da batalha de Iwo Jima, mas a vitória custou muitas vidas humanas. Mais de 5 mil norte-americanos morreram na ilha (os historiadores divergem quanto ao número exato, alguns hoje falam em mais de seis mil). O número de baixas (que inclui os feridos) entre os norte-americanos foi ainda maior: passou de 24 mil.

    No lado japonês, as perdas foram ainda maiores: cerca de 20 mil japoneses morreram. Os norte-americanos não conseguiram fazer muitos prisioneiros: apenas pouco mais de mil japoneses foram capturados vivos.

    Quatro dias depois da tomada de Iwo Jima, teve início a invasão norte-americana à ilha de Okinawa. Os caças norte-americanos já estavam utilizando as pistas de voo conquistadas, que se tornou também um local para reabastecimento. Com a tomada de Iwo Jima, pela primeira vez, todas as ilhas que compõem o arquipélago japonês estavam sendo bombardeadas pelos aviões norte-americanos.

    O número de civis japoneses que morreram em bombardeios aéreos foi superior ao número de vítimas dos bombardeios aéreos da força aérea alemã sobre a Grã-Bretanha. Durante ataques aéreos noturnos, os aviões norte-americanos lançavam bombas incendiárias. A maioria das casas japonesas era de madeira, o que fazia o fogo se espalhar mais depressa.

    Violência crescente

    Na época, as notícias sobre a carnificina em Iwo Jima geraram muita repercussão entre o público norte-americano. O elevado número de mortos e feridos na batalha levou parte da opinião pública norte-americana a questionar sobre a real necessidade de se invadir a ilha. Durante a campanha do Pacífico, uma coisa pareceu ficar clara: conforme os norte-americanos iam avançando de ilha em ilha, os combates iam se tornando cada vez mais violentos e o número de baixas em cada nova batalha era sempre maior do que a da anterior.

    Em Iwo Jima haviam morrido mais norte-americanos que nas batalhas anteriores. A batalha seguinte, travada na ilha de Okinawa, custou a vida de cerca de 13 mil norte-americanos. Já existia um plano de invasão ao Japão, uma operação militar que seria mais ambiciosa do que o Dia D. A vitória norte-americana já estava garantida, mas os estrategistas norte-americanos estimavam que, caso a invasão ocorresse, o número de mortes em ambas os lados, seria ainda maior que os registrados nas batalhas de Iwo Jima e Okinawa.

    No final, a invasão não foi necessária, pois, numa decisão polêmica, o governo dos Estados Unidos ordenou os lançamentos das duas bombas atômicas contra o Japão, que acabou se rendendo.

    Túlio Vilela formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).

    

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