Campanha contra o alcoolismo

Lucila Cano

Lucila Cano

O recente caso de estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro vem provocando reflexões e ações a respeito da segurança das mulheres na sociedade brasileira.

Infelizmente, o debate e a consequente tomada de atitudes para combater a violência, arbitrariedades, infrações e irresponsabilidades nos mais diversos níveis da vida das pessoas, empresas e instituições, acabam ocorrendo apenas depois que os problemas já estão instalados.

O alcoolismo é um desses problemas, gerador de violência doméstica, porta de acesso para drogas químicas de alto poder destrutivo, inibidor do desenvolvimento psíquico, ameaça ao ambiente de trabalho, arma mortífera no trânsito, seja para o motorista embriagado, seja para vítimas indefesas que ele atinge em seu caminho.

Doença perversa

Em todo o mundo, o alcoolismo é considerado uma doença que pode e deve ser tratada. No entanto, até mesmo os países ricos, e considerados os mais desenvolvidos nos rankings de prosperidade econômica, são constantemente desafiados pelo crescente consumo de álcool entre seus cidadãos. Não há idade, não há gênero, não há classe social livre do alcoolismo. Assim como não há clínicas, leitos, nem investimentos suficientes para a recuperação de alcoólatras.

Pesquisa do DataSenado sobre a Violência Familiar e Doméstica Contra a Mulher, entre junho e julho de 2015, portanto há um ano, revelou que, de 1.102 mulheres, respectivamente 21% e 18% foram agredidas por seus parceiros, por causa de ciúme e embriaguez.

Entre os jovens, inclusive meninas, o consumo excessivo de álcool está relacionado à autoafirmação, à aceitação pelos demais membros do seu núcleo social, ao receio do futuro e à pressão da família e da sociedade de que devem ser bem-sucedidos nos estudos, no trabalho, nos negócios. Uma visão consumista do que significa ser feliz torna a relação do jovem com o mundo atual ainda mais deplorável. Além de todas essas exigências sociais, ele se sente atraído pelo desconhecido, pela aventura e consequente experimentação das drogas que lhe oferecem depois do álcool.

A força de trabalho também é maltratada pelo alcoolismo, pois se em alguma camada social ele é associado a glamour, poder, festa, alegria, em outra, a dos menos favorecidos, é o companheiro da perda do emprego, do salário magro que não cobre as despesas cotidianas.

Essa é uma situação alarmante, principalmente no momento atual do país, em que abatidos pela crise econômica, quase 11,5 milhões de brasileiros estão desempregados.

Responsabilidade social

Muito há que se falar sobre o alcoolismo e, por isso mesmo, esse tema deveria estar sempre presente na pauta dos órgãos de saúde pública, das ONGs que se dedicam à recuperação de dependentes químicos, das instituições, das escolas e das empresas.

A responsabilidade social, embora hoje ampliada sob o conceito da sustentabilidade, tem suas raízes no compromisso empresarial com a sociedade. Por isso, as empresas que de longe já entenderam o seu papel, no sentido de desenvolver pessoal e profissionalmente os seus empregados, deveriam manter campanhas preventivas permanentes. Campanhas a respeito de uma série de males que afetam a produtividade, mas também a dignidade dos indivíduos.

E, como a recuperação pós-dano de tamanha gravidade não é ato isolado na sociedade em que vivemos, é importante que a família não desista daqueles que precisam de ajuda e de afeto. A volta à realidade pode ser demorada e penosa, mas é possível para quem aceita se tratar. 

*Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

Lucila Cano

Colunista especialista em temas relacionados ao 3º setor; assumiu a coluna em 9/4/2010.

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