Motivo banal

Lucila Cano

Lucila Cano

- A gente só queria dar um corretivo nele. Outro dia ele ficou olhando demais pra minha mina. Qualé, brother? Com mulher minha ninguém mexe! Chamei a turma, decidimos dar uma coça nele!

- O cara era babaca! Não se misturava com ninguém! Olhava a gente por cima, tipo ser superior. Levou o que merecia!

- Semana passada, a gente não conseguiu pichar a casa dele. Um velhote idiota saiu correndo atrás da gente, aos berros. Parecia que tava tomado! Tivemos que revidar. Foi revanche, tá sabendo?

- Sabe como é, a gente cheirou umas, tomou umas cervas e quis fazer festa. Tem pecado nisso?

- Quem não torce pro nosso time é inimigo nosso. Tá claro? No campo é adversário! Aqui é inimigo! Simples, assim!

- Vai dizer o quê? Agora tá feito! O cara provocou primeiro. A gente só se defendeu e ele levou a pior.

- Ah, a gente só queria se divertir um pouco! O cara estragou tudo!

Que guerra é essa

O que leva um grupo de jovens, uma garota entre eles, a vandalizar a fachada de uma casa e se deixar flagrar por câmeras de segurança, como se aquela fosse apenas a cena de um filme?

O que leva um grupo de jovens, uma garota entre eles, a agredir um idoso acuado que, armado de um pedaço de pau, achou que poderia proteger o seu patrimônio?

O que leva um grupo de jovens, uma garota entre eles, a espancar até a morte o filho desarmado que saiu pela rua em defesa do pai?

Uma das frases do início deste texto, ou qualquer outra tirada da imaginação, poderia explicar o delito. Jamais o justificaria.

O crime bárbaro foi cometido na madrugada de sábado (6 de agosto) em um bairro da zona norte da cidade de São Paulo por cerca de dez pessoas, entre elas uma mulher, segundo relatou o pai da vítima que, embora ferido, sobreviveu à pancadaria.

O enredo desse filme de terror não é inédito, nem exclusivo da capital paulista. Chama a atenção, no entanto, o quanto ele se repete, sempre com o mesmo desfecho de violência exacerbada e gratuita, por mais que mudem o cenário e os atores.

Quantos jovens já morreram ou ficaram com sequelas irreversíveis em decorrência de brigas de rua, guerras de torcidas, agressões preconceituosas e motivos banais?

Que guerra é essa que consome o tempo e a energia de uma fase tão gloriosa da vida? Que guerra é essa que banaliza as relações e exalta a imbecilidade?

Recorde de violência

Em março deste ano, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou o Atlas da Violência 2016, com base em indicadores de 2014. Segundo o relatório, o Brasil é campeão de violência, tendo alcançado 59.627 homicídios naquele ano, o maior já registrado no país.

O relatório apresentou considerações importantes em relação à juventude. Delas, me atenho a dois pontos. O primeiro refere-se ao pico de homicídios, ou seja, quando há a maior incidência de homicídios. No caso, aos 21 anos de idade e majoritariamente com homens.

Um segundo ponto destaca o papel da educação. A educação funciona como um escudo que previne a violência. Pautado em trabalhos de especialistas, o relatório indica que indivíduos com até sete anos de estudo estão 15,9 vezes mais propensos a sofrer homicídio no Brasil do que alguém que ingressou no ensino superior.

Paradoxalmente, o rapaz que saiu à procura do pai na madrugada, e foi espancado até a morte, tinha 39 anos e era dentista. Até o momento em que escrevo, os agressores ainda não foram detidos. Portanto, idades e níveis de escolaridade deles permanecem desconhecidos.

O vídeo (imagens das câmeras de rua) exibido nos noticiários revela que alguns deles estavam em um carro, todos eram brancos e parece que tinham garrafas de bebidas nas mãos.

* Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

Lucila Cano

Colunista especialista em temas relacionados ao 3º setor; assumiu a coluna em 9/4/2010.

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