Filosofia

Filosofia da linguagem (4): Wittgenstein e os infinitos jogos de linguagem

Josué Cândido da Silva, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Uma rápida comparação entre o "Tractatus Logico-Philosophicus" e as "Investigações Filosóficas" é suficiente para perceber a radicalidade da mudança no pensamento de Wittgenstein.

Embora permaneça com a mesma temática, ou seja, o problema da linguagem, o Wittgenstein das "Investigações Filosóficas" é profundamente crítico de si mesmo, a ponto de abandonar a forma sistemática e precisa do Tractatus, por aquilo que ele chamou de um álbum de "anotações" e "esboços de paisagens", às vezes saltando rapidamente de um tema a outro e usando imagens e metáforas.

Por outro lado, há certa continuidade no trabalho de Wittgenstein. No Tractatus ele pretendia romper com a visão tradicional da filosofia, que dava prioridade à função designativa da linguagem e pouca importância às relações entre as palavras ou entre as coisas no mundo. Nas "Investigações Filosóficas" ele aprofunda essa temática, criticando inclusive a si próprio.


 

Partes da realidade

Para Wittgenstein, o grande problema na filosofia da linguagem tem sua origem em Platão, que interpretava todas as palavras como nomes próprios, em que cada nome corresponde a um objeto. Os nomes comporiam as unidades simples das quais são tecidas as afigurações do mundo, sua estrutura lógica. Sempre seria possível reduzir as unidades complexas de significação aos seus elementos mais simples.

Nas "Investigações Filosóficas", Wittgenstein coloca esse modelo em xeque ao se perguntar quais são as partes simples que compõem a realidade. Por exemplo: quais são as partes constituintes simples de uma poltrona? A resposta, naturalmente, depende do contexto em que surgiu a pergunta, se ela parte de empregados de uma empresa interessados em desmontar a poltrona para transportá-la, ou de um cientista interessado em analisar os riscos de combustão dos materiais etc.

Ou seja, o que é "simples" ou "composto" é completamente dependente do jogo de linguagem que se está jogando. Mas o que é jogo de linguagem? Wittgenstein não nos dá uma definição, pois é justamente com essa visão de filosofia que está tentando romper: a de que cada palavra corresponde a um objeto.



Jogos de linguagem

A linguagem não é uma coisa morta em que cada palavra representa algo de uma vez por todas. Ela é uma atividade humana situada cultural e historicamente. Os jovens, por exemplo, adoram usar termos diferenciados que correspondem ao seu grupo, mas que fora dele poucos compreendem. Assim, "radical" já foi usado para designar algo que é "maneiro" ou "massa", um sujeito "legal" pode ser considerado "sangue bom" ou "moral" dependendo do lugar onde viva.

A ideia de jogos de linguagem rompe com a visão tradicional de que aprender uma língua é dar nomes aos objetos. Imagine que você está em um passeio turístico e se perdeu de seu grupo. No lugar em que você está a população só fala o idioma local, que você desconhece. Como você faria para se comunicar?

Talvez você tentasse se comunicar primeiro por mímica ou tentasse desenhar o que queria. Os nativos falariam alguma coisa na língua deles e você talvez repetisse na esperança de estabelecer algum laço de comunicação. Talvez com um bocado de paciência vocês acabassem se entendendo e essa história acabaria tendo um final feliz. Naturalmente, ocorreriam muito mais equívocos do que acertos, isso porque mesmo gestos que para nós são banais como acenar a cabeça, podem significar coisas muito diferentes em outra cultura.



Linguagem e forma de vida

É claro que designar objetos é uma parte importante da linguagem, mas ela não se reduz a isso. Mesmo uma criança quando está aprendendo a falar ainda não é capaz de entender elucidações indicativas (mímica, jogos com os olhos), justamente por desconhecer o significado daquela palavra que queremos elucidar.

Como ilustra Wittgenstein, quando mostramos um objeto para uma criança e dizemos: "este é o rei", essa elucidação só passa a fazer sentido enquanto denominação de uma peça de xadrez se a criança "já sabe o que é uma figura do jogo". O que pressupõe que ela já tenha jogado outros jogos ou que tenha assistido a outras pessoas jogando "com compreensão" ("Investigações Filosóficas", § 31).

Portanto, o aprendizado de uma língua não pode ser visto apenas como mero aprendizado da designação de objetos isolados. Esse é apenas um ato secundário dentro de um processo em que a criança, ao mesmo tempo em que aprende a língua materna, também se apropria de um determinado entendimento do mundo. A criança aprende junto com a linguagem uma determinada forma de vida.

Formas de vida e jogos de linguagem constituem, portanto, as categorias centrais da nova imagem da linguagem elaborada por Wittgenstein. Nessa nova imagem, a linguagem é sempre ligada a uma forma de vida determinada, contextualizada dentro de uma práxis comunicativa interpessoal.

Josué Cândido da Silva, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é professor de filosofia da Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus (BA).

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