História do Brasil

Brasil na Segunda Guerra - Monte Castelo: Vitória, volta da FEB e fim do Estado Novo

Túlio Vilela, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

(Material Atualizado em 18/11/2013, às 11h34)

No final de novembro, os soldados brasileiros receberam a missão de conquistar uma elevação na região dos Apeninos: Monte Castelo. A campanha dos Aliados na Itália, aliás, foi essencialmente travada em montanhas e colinas.

Para que os Aliados pudessem alcançar Bolonha, era preciso romper a Linha Gótica: um complexo defensivo dos alemães, formado por fortificações nos montes Apeninos. Se conseguissem romper a Linha Gótica, os Aliados poderiam utilizar uma estrada conhecida como Rota 64.

Esse tipo de terreno favorecia o exército que estivesse na defensiva; no caso, o alemão. A principal vantagem dos alemães era a posição privilegiada: do alto das montanhas e colinas, eles podiam ver os inimigos tentando avançar. Sem a vantagem do fator surpresa, os soldados que escalassem as colinas e montanhas defendidas pelo exército alemão podiam ser facilmente atingidos pelos tiros das metralhadoras alemãs MG42, apelidadas de lurdinhas pelos brasileiros.

Além de tomar cuidado para se proteger do inimigo, os soldados precisavam ter habilidades de alpinista: cada pracinha carregava cerca de 25 quilos de equipamento. Os brasileiros não haviam recebido treinamento para o combate em montanhas, sequer tinham feito exercícios básicos de combates em terreno elevado, embora o Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, oferecesse locais adequados para esse tipo de treinamento.

Outra vantagem do exército alemão era a experiência: o marechal Kesselring, que comandava os grupos de exército alemães, dispunha de vinte divisões bem treinadas e com experiência em combate (muitos dos soldados alemães que estavam lá já haviam lutado na frente russa).

Monte Castelo

Tomar Monte Castelo não foi nada fácil. As primeiras tentativas, realizadas nos dias 24, 25 e 26 de novembro, fracassaram. Uma quarta tentativa também fracassou. Em dezembro, as nevascas e o intenso frio do inverno europeu tornaram as condições ainda mais desfavoráveis aos brasileiros.

Os pracinhas se viram obrigados a ficar entrincheirados nos fox holes (tocas de raposa), buracos cavados no solo pedregoso. Além dos atiradores alemães, os brasileiros tiveram que enfrentar o frio e o risco de terem os pés congelados, o que poderia causar gangrena e tornar necessária a amputação.

Em fevereiro de 1945, com o final do inverno, uma nova operação foi lançada. Num esforço conjunto com a 10ª Divisão de Montanha do Exército Americano, os brasileiros atacaram. No dia 21 de fevereiro, após doze horas de combate, finalmente conquistaram Monte Castelo.

Para dificultar a visão dos atiradores alemães (que estavam nas melhores posições), os brasileiros queimavam óleo diesel, o que criava uma nuvem de fumaça escura. Os pracinhas também contaram com a ajuda da artilharia comandada pelo general Cordeiro de Farias e da aviação. Mais da metade das baixas fatais da FEB se deveu às tentativas de se tomar Monte Castelo.

Série de vitórias

Com o moral elevado, a FEB prosseguiu numa série de vitórias. Em 5 de março de 1945, os brasileiros conquistaram Soprassosso e Castelnuovo. Antes que os Aliados pudessem chegar ao vale do rio Pó, os alemães ainda resistiam numa última cadeia montanhosa: a linha Gêngis Khan, que passava pela cidade de Montese e pelos montes Serreto, Possessione e Montello.

A FEB começou a mover uma verdadeira perseguição aos alemães, motivada pelo desejo de vingar os companheiros mortos em Monte Castelo. Em Montese teria início a mais sangrenta batalha travada pelos brasileiros na Itália. Os brasileiros conquistaram Montese na manhã do dia 15 de abril. Essa vitória custou caro para a FEB: cerca de mais de quatrocentas baixas (contabilizando mortos, feridos e desaparecidos). Em 21 de abril, os brasileiros tomaram Zocca.

No mesmo dia, os Aliados entraram em Bolonha. No dia 29 de abril, véspera do suicídio de Hitler, a FEB capturou, na cidade de Fornovo di Taro, a 148ª Divisão Alemã, o que significou o aprisionamento de mais de quinze mil alemães, dentre os quais, dois generais.

A partir daquele momento, a FEB se transformava numa força de ocupação militar. No dia seguinte, ocupou Alessandria, a 60 quilômetros de Turim, e, junto com soldados norte-americanos, também participou da libertação da própria Turim. Em dois de maio, o general Mark Clark dava por encerrada a campanha dos Aliados na Itália. Para os brasileiros, a guerra terminava naquele momento.

Volta para casa

No Brasil foram organizadas festas para receber os combatentes. Vargas temia que a FEB fosse usada como símbolo para derrubar o Estado Novo. Afinal, o fato de os pracinhas terem lutado contra ditaduras na Europa poderia ser usado como pretexto para derrubar a ditadura no Brasil.

De fato, dentro da FEB, as ideias democráticas ganharam a simpatia de oficiais e soldados. Exemplo disso é que, enquanto ainda estava na Itália, a tropa brasileira lançou um jornal de trincheira intitulado E a cobra fumou!, cujos editores incluíram sob o cabeçalho a frase "Não registrado no D.I.P.", uma provocação ao Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão de censura do Estado Novo.

Os membros da FEB logo perceberam as diferenças entre os Estados Unidos, um país moderno, em que se realizavam regularmente eleições diretas, e o Brasil, então um país atrasado, que vivia sob uma ditadura parecida com as que os pracinhas estavam enfrentando na Europa.

A propósito, o nome do jornal era uma alusão ao distintivo da FEB, que trazia o desenho de uma cobra fumando um cachimbo e a frase "A cobra está fumando", uma resposta bem-humorada àqueles que cinicamente diziam que seria "mais fácil ensinar uma cobra a fumar" do que o Brasil conseguir mandar uma força expedicionária para lutar na guerra.

Fim do Estado Novo

Para evitar a exploração do significado político da volta dos pracinhas, o governo Vargas dissolveu a FEB quando a maior parte do contingente ainda estava na Itália. Após os desfiles, os expedicionários foram proibidos de andar uniformizados pelas ruas ou de portarem medalhas e condecorações. Também estavam proibidos de dar entrevistas ou declarações públicas.

Nada disso impediu que, no dia 29 de outubro de 1945, tropas lideradas pelo general Góis Monteiro cercassem o Palácio do Governo e forçassem Getúlio a renunciar. Era o fim do Estado Novo.

Ao todo, morreram 460 homens da FEB na Itália, quase três mil foram feridos em combate ou sofreram acidentes. Também morreram 22 pilotos da FAB. Vários ex-combatentes voltaram para ao Brasil com problemas psicológicos e tiveram dificuldades para se adaptar novamente à vida civil. Eram comuns os casos de alcoolismo e violência doméstica.

Associações de ex-combatentes reivindicaram leis que beneficiassem os pracinhas. Uma delas, que acabou sendo concedida, era a que dava preferência a ex-combatentes nos casos de empate em concursos públicos. Infelizmente, contudo, muitos ex-combatentes não conheciam seus próprios direitos e não lutavam por eles.

Décadas depois, em 1988, com a aprovação de uma nova Constituição Federal, os ex-combatentes conquistaram o direito de uma pensão especial, mas o benefício havia chegado tarde demais para a maior parte deles: menos de dez mil estavam vivos quando a lei foi aprovada.

Um fator que contribuiu para a desvalorização da participação brasileira na guerra foi que muitos militares que participaram do Golpe de 1964, que instalou a ditadura do chamado regime militar (1964-1984), fizeram parte da FEB. Entre eles, o primeiro presidente do regime militar, o general Castelo Branco, que serviu na Itália como tenente-coronel.

Por causa disso, parte da esquerda que se opunha à nova ditadura passou a relacionar a FEB ao Golpe de 64. O que essa parte da esquerda havia se esquecido é que muitos esquerdistas (inclusive membros do PCB) também haviam participado da FEB, um dos quais, o historiador marxista Jacob Gorender, que se apresentou como voluntário.

Na FEB estavam pessoas que permaneceram em lados opostos durante os anos da ditadura militar. Bem de acordo com o espírito da Guerra Fria, após a derrota do inimigo comum (no caso, o nazifascismo), antigos aliados se tornaram adversários.

Túlio Vilela, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores do livro Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula (Editora Contexto).

Bibliografia

  • Livros: Irmãos de armas: um pelotão da FEB na II Guerra Mundial, de José Gonçalves e César Campiani Maximiano. São Paulo: Códex, 2005. (O livro é um relato de caráter semi-autobiográfico. A co-autoria é de César Campiani Maximiano, doutor em História pela Universidade de São Paulo. Sem ser piegas, o livro é comovente em vários momentos.)
  • O Brasil na mira de Hitler: a história do afundamento de navios brasileiros pelos nazistas, de Roberto Sander. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. (Sem perder o rigor da pesquisa, a narrativa de Sander é tão envolvente quanto um bom romance de espionagem.)
  • National Geographic Brasil: Edição Especial, nº 63-A, São Paulo: Abril, 2005. (Edição especial lançada por ocasião dos sessenta anos do término da Segunda Guerra. Traz uma coletânea dos melhores artigos sobre o assunto já publicados pela revista. Há três reportagens sobre o Brasil.)
  • Filme: Senta a pua! - Direção: Erik de Castro. Brasil, 1999. (Documentário que conta a história dos pilotos da FAB durante a Segunda Guerra Mundial.)

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