História geral

Rebeliões do século 18 na América Espanhola: Tupac Amaru 2º e Movimento Comunero

Érica Turci

As novas leis impostas pela Reforma Bourbônica não agradaram às elites criollas, que passaram a se rebelar em várias regiões da América a partir de 1780. Tais rebeliões não eram, ainda, lutas pela independência, mas já sinalizavam a insatisfação geral nas colônias.

Mas muitas dessas rebeliões, iniciadas por criollos, foram abandonadas por eles quando a participação de indígenas e mestiços cresceu em suas fileiras. Se os criollos não aceitavam o centralismo metropolitano, temiam também que as insatisfações dos grupos explorados (indígenas, mestiços, negros e mulatos) aflorassem.

Não por outro motivo alguns historiadores concluem que "os criollos mostravam que temiam mais o povo do que a Espanha e preferiam a dependência à revolução" (Bethell, p. 57.)

Dois desses movimentos aconteceram no Vice-Reino do Peru e no Vice-Reino de Nova Granada:

1. Rebelião de Tupac Amaru 2º no Peru: José Gabriel Condorcanqui Noguera era um rico comerciante mestiço, descendente do último imperador Inca, Tupac Amaru, e a revolta que liderou foi um dos mais importantes movimentos indígenas da América Espanhola, incentivando várias outras rebeliões indígenas americanas, desde aquela época até o século 20.

Por muitos anos, Condorcanqui se identificou mais com sua origem criolla do que com a indígena, até ser aclamado como curaca (ou cacique) de três regiões nativas peruanas, em 1764. Seu contato com essas comunidades o levou a adotar o nome Tupac Amaru 2º e a iniciar uma luta pacífica para acabar com os trabalhos forçados nas minas, impostos pela Espanha aos índios e mestiços.

Nos meios mais ricos que frequentava, seus discursos também criticavam as leis impostas pela Reforma Bourbônica, o que lhe garantiu apoio de parte da elite criolla de Cuzco.

Por muitos anos, Tupac Amaru 2º tentou, pelas vias legais, conseguir do vice-rei o fim dos trabalhos forçados, dos impostos excessivos e das aduanas para o comércio peruano. Mas o governo ou era indiferente aos seus pedidos, ou os negava.

Então, em 1780, Tupac Amaru 2º iniciou um levante militar, contando com o apoio de vários curacas e centenas de indígenas. A reação da elite criolla e espanhola foi violenta.

Depois de algumas batalhas, Tupac Amaru 2º foi preso. Em maio de 1781, na Plaza de Las Armas de Cuzco, ele assistiu à execução de seus colaboradores e familiares. Em seguida, seus braços e suas pernas foram amarrados a quatro cavalos, para que assim seu corpo fosse dilacerado, o que não aconteceu. Então sua cabeça foi decepada e seus membros expostos em várias regiões rebeldes do Peru e da Bolívia, a fim de servir como castigo exemplar.

2. Movimento Comunero da Colômbia: com o aumento dos impostos a partir das Reformas Bourbônicas, a elite latifundiária criolla se uniu aos pequenos proprietários e comerciantes em manifestações contrárias à coroa espanhola. Em abril de 1781, as ruas de Socorro (Colômbia) foram tomadas pelos manifestantes: prédios públicos foram destruídos e funcionários perseguidos. Foi eleita nessa cidade uma Junta para organizar a rebelião, chamada de El Comum. Em pouco tempo, várias outras cidades passaram a apoiar a rebelião.

As comunidades indígenas, inspiradas pela rebelião de Tupac Amaru 2º no Peru, viram no Movimento Comunero a possibilidade de se livrarem dos excessivos trabalhos impostos pelos espanhóis e passaram a apoiar os rebeldes. Mas por causa da participação indígena, muitos criollos - que até então apoiavam os comuneros - começaram a buscar a rendição, pois temiam perder a mão de obra que garantia sua riqueza e seu poder.

Assim, o movimento, com o apoio dos criollos que tinham ajudado a criá-lo, foi aniquilado.

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

Bibliografia

  • CHECCHIA, Cristiane. "As terras indígenas e o Movimento Comunero: Novo reino de Granada, 1781". Anais Eletrônicos do IV Encontro da ANPHLAC, Salvador, 2001.
  • BETHELL, Leslie (org.) História da América Latina: da Independência até 1870. SP.: Edusp; Imprensa Oficial do Estado; DF.: Fundação Alexandra Gusmão, 2001, p. 19.
  • DORATIOTO, Francisco. Espaços nacionais na América Latina: da utopia bolivariana à fragmentação. SP.: Brasiliense, 1994.
  • FERRO, Marc. História das colonizações: das conquistas às independências. SP: Cia. das Letras, 1996
  • MILANI, Aloísio. "Revolução Negra". In Revista História Viva. Nº 51. Editora Duetto.
  • MOUSNIER, Roland. e LABROUSSE, Ernest. "O século XVIII: o último século do Antigo Regime". In História Geral da Civilização. SP: Difel, 1957.
  • MOUSNIER, Roland. e LABROUSSE, Ernest. "O século XVIII: a sociedade do século XVIII perante a Revolução". In História Geral da Civilização. SP: Difel, 1957.

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