História geral

Independência do Chile: Estratégia militar garantiu libertação

Érica Turci

Semelhante ao que ocorreu em outras colônias da Espanha na América, o processo de independência do Chile foi marcado por inúmeros conflitos entre os espanhóis de nascimento (chapetones), que defendiam a submissão à Espanha, e os criollos, elite local que desejava a liberdade.

No contexto de crise em que as colônias espanholas viviam após a prisão do rei Fernando 7º por Napoleão Bonaparte, a notícia da Revolução de Maio (em Buenos Aires) chegou à Capitania do Chile causando alvoroço: de um lado, os criollos (patriotas) se entusiasmaram e passaram a desejar a formação de uma Junta de Governo em Santiago; de outro, os chapetones (realistas), sentindo-se ameaçados, buscaram se fortalecer e passaram a perseguir os patriotas.

Nesse momento, o cabildo (assembleia) de Santiago, composto, em sua maioria, por criollos, exigiu que o capitão-geral, Francisco Garcia Carrasco, explicasse a causa das perseguições. Carrasco, que se recusou a dar qualquer explicação, acabou sendo deposto.

Em 18 de setembro de 1810, o cabildo formou uma Junta de Governo, sob a presidência do criollo Mateo de Toro y Zambrano. Apesar de jurarem fidelidade ao rei Fernando 7º, pela primeira vez um criollo se tornava governante do Chile.

Essa primeira Junta de Governo foi liderada por criollos moderados, que não desejavam a separação da Espanha, o que deixou tanto os realistas quanto os patriotas insatisfeitos: o primeiro grupo não aceitava a própria Junta, e o segundo queria a declaração de independência.

O'Higgins e San Martín

A partir desse momento, golpes de Estado ocorreram - e a guerra civil parecia iminente. Diante dessa instabilidade, a colônia vizinha, o Vice-Reino do Peru, governada por espanhóis, decidiu invadir o Chile, a fim de manter a ordem colonial espanhola.

Em 1813, tropas do Peru desembarcaram em Concepción e receberam o apoio dos chapetones. Em contrapartida, os criollos chilenos se organizaram sob a liderança de Bernardo O'Higgins.

O'Higgins era militar e defensor da independência. Na Europa, tinha frequentado os meios intelectuais e políticos de influência liberal, juntamente com Francisco de Miranda, Simón Bolívar e San Martín.

Nessas primeiras batalhas, as tropas chilenas venceram os peruanos, e o vice-rei do Peru buscou a negociação: retiraria seus homens do Chile, desde que os chilenos se mantivessem fiéis a Fernando 7º. O'Higgins aceitou a proposta (maio de 1814).

Nesse ínterim, contudo, a situação política da Espanha mudara: o rei Fernando 7º havia sido libertado e reassumido o trono, decretando que todos os defensores de ideais liberais deveriam ser punidos, tanto na Espanha quanto na América.

Os meios de comunicação da época eram precários e a distância entre Espanha e Chile tornava tudo ainda mais difícil. Quando O'Higgins aceitou o acordo com o Peru, não tinha conhecimento de tais fatos.

Em agosto de 1814, tropas partindo do Peru atacaram novamente o Chile, agora sob ordens diretas da coroa espanhola. Dessa vez, O'Higgins foi derrotado e, por isso, obrigado a se exilar em Mendoza (Argentina), juntamente com grande parte dos criollos patriotas.

As tropas espanholas, ao chegarem a Santiago, iniciaram um processo de perseguição violento, que acabou por aumentar a revolta local.

Enquanto isso, O'Higgins planejava com San Martín (então governador de Mendoza), uma nova estratégia militar para recuperar o Chile e, enfim, proclamar a independência. Juntos formaram o Exército Libertador dos Andes - e em janeiro de 1817 partiram para o confronto.

A estratégia foi ousada: atravessar a Cordilheira dos Andes e dividir o exército (em torno de 5 mil homens) em 6 batalhões que caminhariam em sincronia e atacariam o Chile em pontos diferentes, dificultando a organização das tropas espanholas. Nesse processo, foi essencial a colaboração do líder guerrilheiro chileno Manuel Rodriguez, que, ao mesmo tempo em que desgastava as tropas espanholas no território chileno, passava informações à organização do Exército Libertador.

Em 12 de fevereiro de 1817, San Martín e O'Hoggins tomaram Santiago. O'Higgins foi aclamado Ditador Supremo. Exatamente um ano depois, foi proclamada a independência.

As batalhas contra os espanhóis, no entanto, só terminaram em abril de 1818, na Batalha de Maipú, quando os dois generais, San Martín e O'Higgins, se encontraram e se confraternizaram no chamado "Abraço de Maipú".

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

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