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Modernismo: Por que Carlos Drummond é tão importante para a literatura brasileira

Antonio Carlos Olivieri

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Para se compreender a importância de Carlos Drummond de Andrade, é preciso encarar sua obra poética sob dois aspectos distintos, embora complementares. Primeiramente, é preciso considerá-la sob a perspectiva da história da literatura brasileira, compreendendo a contribuição que lhe fez o poeta. Em segundo lugar, pelos valores que ela tem por si só, intrinsecamente, os quais devem comprovar a grandeza do escritor e a excelência de seu modo de usar a língua portuguesa, bem como a universalidade e a atualidade permanente de seus textos.

Do ponto de vista histórico, o Modernismo brasileiro – inaugurado na Semana de Arte Moderna de 1922 – surgiu com a intenção de romper com a tradição literária que vigorava no país desde os tempos coloniais e seguia os modelos clássicos europeus. A vanguarda modernista se insurgiu contra isso de modo crítico e destrutivo, desprezando as formas poéticas convencionais, tais como os versos metrificados, as rimas, os sonetos, os lugares-comuns do lirismo, etc.

Era preciso buscar o novo para falar à sensibilidade do homem moderno. Nessa busca, autores como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo e Raul Bopp pretenderam ainda expressar a nossa identidade nacional, valorizando, basicamente, a linguagem e a cultura popular. A ideia era provocar a sensibilidade da época, moldada na poesia do Parnasianismo, que cultivava uma língua artificial, erudita e grandiloquente.

É no panorama da 1ª geração modernista, que Drummond desponta como poeta no final da década de 1920. Mas ele pertence a uma nova geração que quer imprimir novos rumos ao Modernismo. Sua poesia, em termos formais, também se alinha à ruptura com o passado. Entretanto, em termos de conteúdo, ela vai além, não se limitando à necessidade de inovar e de afirmar a identidade nacional.

Em seus poemas, Drummond desenvolve uma reflexão de caráter existencial, questionando a posição do indivíduo num mundo que se tornava cada vez mais artificial e tecnológico, assolado por guerras e pelo surgimento de armas como a bomba atômica. Nesse sentido, ele deu densidade e universalidade à poesia moderna brasileira.

Além disso, sua obra abrange grande multiplicidade de temas e de situações do cotidiano, que o poeta apresenta por meio do filtro da sua subjetividade. As circunstâncias – ou a ausência delas – são recriadas em poesia, mas sempre de maneira inesperada, como se o poeta conseguisse extrair certa beleza melancólica das coisas mais improváveis e dos fatos mais banais.

Ao mesmo tempo, seus poemas não deixam de apresentar um certo desencanto com a vida, traduzido sob a forma de humor e ironia, mostrando que a existência humana oscila entre a tragédia e a comédia. Contudo, como sua carreira literária se estendeu por mais de 30 anos, é verdadeiramente impossível caracterizá-la de um modo breve.

Drummond foi um escritor extremamente versátil, que, em termos de conteúdo, acompanhou os problemas individuais e sociais que sua época lhe apresentou, mas mostrando-os por uma perspectiva pessoal e humana, que a mantém sempre atual. Afinal, desde a Antiguidade, são temas universais, por exemplo, a perplexidade do indivíduo diante de um mundo quase sempre hostil, seus sentimentos pelas pessoas e pelas coisas, o amor, a solidão e a morte.

Em termos de linguagem, Drummond escreveu em versos livres, sem preocupação com métrica e rima, manejando o idioma português com elegância e precisão. Seu estilo é, ao mesmo tempo, sofisticado e simples ou até mesmo popular. Traduzia para o português do Brasil, sem nenhum preciosismo ou pedantismo linguístico, os temas que punha em foco, fossem eles triviais ou metafísicos.

Se escreveu poemas alinhados com a vanguarda modernista, também compôs textos que se enquadram no Concretismo, uma das últimas tendências da poesia brasileira no século 20. Se abordou temas do cotidiano, também os deixou de lado para atingir questionamentos filosóficos ou reflexões metalinguísticas. Reflexões que muitas vezes estão expressas numa simples quadrinha ou mesmo num soneto, mas que têm a profundidade de um tratado de metafísica ou de estética.

Antonio Carlos Olivieri é escritor e jornalista, diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação

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