Vai ter golpe? Historiadores comparam crise atual com a de 1964

Edgard Matsuki

Colaboração para o UOL, em Brasília

  • Arte/UOL

    João Goulart (à esq.), presidente de 1961 a 1964 e Dilma Rouseff, presidente desde 2011

    João Goulart (à esq.), presidente de 1961 a 1964 e Dilma Rouseff, presidente desde 2011

No dia 13 de março de 1964, o então presidente do Brasil João Goulart fez um comício no Rio de Janeiro para pedir apoio popular e apresentar Reformas de Base (agrária, bancária, fiscal, urbana, administrativa e universitária). A estratégia não deu certo. Menos de um mês depois, os militares deram um golpe e assumiram o poder por 21 anos.

Exatamente 52 anos depois, milhares de brasileiros saem às ruas para pedir a saída da presidente Dilma Rousseff. Em meio à crise política e com a ameaça real do impeachment, defensores do governo comparam o período atual com o golpe de 1964. Para saber o que há em comum e quais as diferenças entre as crises dos governos Jango e Dilma, o UOL conversou com os historiadores José Otávio Nogueira e Antônio José Barbosa, ambos professores da UnB (Universidade de Brasília).

O que é parecido

Conservadorismo - 2016

No que se refere a uma onda conservadora, os historiadores discordam se ela toma conta da sociedade realmente. "Há um discurso moralizador em crescimento. Podemos comparar a bancada do Congresso do BBB (Boi, Bala e Bíblia) com a TFP (Tradição, Família e Propriedade), que organizou a Marcha da família", diz Nogueira. Barbosa aponta que o discurso sobre o crescimento do moralismo é uma estratégia. "Eu vejo uma tentativa de quem está ao lado do governo de desqualificar conservadores".

O que tem de diferente

Envolvimento internacional - 2016

Hoje, o comunismo quase não existe mais. E os EUA têm outras preocupações (como a questão do Oriente Médio) consideradas mais importantes do que quem fica no poder no Brasil. "Hoje ninguém está preocupado com o que acontece aqui", diz Barbosa. "Hoje há, sim, uma polarização. Mas não se pode falar em discurso de direita e esquerda. O que sobrou disso foi uma reação elitista a projetos sociais de Lula e Dilma", aponta Nogueira.

Poder do Judiciário - 2016

Nos dias atuais, o papel do Judiciário é outro. "Hoje, tenta-se tirar o governo pela via legal. E o Judiciário começou a ter um papel fortíssimo na política. É o STF que define os rumos do país", aponta Nogueira. "Temos um Executivo fraco e um Legislativo [que funciona] pela Justiça. Aí, sobra o Judiciário, que simplesmente está agindo porque chegou a uma organização criminosa que está no poder. Isso sim é uma mostra que a nossa democracia evoluiu", afirma.

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