Zumbi era um líder autoritário e tinha escravos? Veja as polêmicas sobre a escravidão no Brasil

Thiago Minami

Em São Paulo

Zumbi, considerado o grande herói de Palmares, tinha escravos. Fatos como esse, que ainda passam em branco em muitas aulas de História, fazem parte do lado pouco explorado da escravidão no Brasil. Em vez de meras vítimas, os negros tiveram papel mais complexo na sociedade colonial, às vezes até com status semelhante ao dos portugueses.

Nesta sexta-feira (13), em que se celebram os 123 anos da abolição da escravatura no Brasil, reunimos mitos e verdade mostrados pelo jornalista Leandro Narloch no Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Ed. Leya, 2009). O best-seller questiona o que aprendemos até o ensino médio.

Narloch diz que o objetivo não é desmerecer os negros. "Pelo contrário, acho que eles podem se orgulhar de que seus antepassados não eram pobres coitados, mas, em muitos casos, pessoas prósperas, que não abaixavam a cabeça", diz em entrevista ao UOL Educação. O autor lembra que, nos tempos do Brasil colonial, a escravidão era vista como algo natural. Portanto, era de se esperar que negros em ascensão na sociedade, como Zumbi, tivessem escravos também.

Outro erro comum, segundo Narloch, é considerar os africanos um grupo homogêneo. Na verdade, eles vieram de regiões e grupos étnicos diferentes, cada qual com sua cultura e hábitos.

Veja alguns mitos sobre a escravidão no Brasil.

Mito 1: Palmares era um quilombo baseado em princípios democráticos e Zumbi, seu líder, era um mártir da resistência contra a escravidão.

Zumbi estava longe de ser um herói da democracia. "Mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhassem forçados no Quilombo dos Palmares. Também sequestrava mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo". A vocação para o poder de Zumbi vinha de família. Ele descendia dos imbangalas, considerados os "senhores da guerra" na África Centro-Ocidental. Ou seja, nada mais natural que se considerasse no direito de ter seus próprios servos.

Mito 2: Todos os negros eram subjugados pelos portugueses.

Quando chegavam ao Brasil na condição de monarcas, os negros não sofriam os mesmos maus-tratos dos escravos. Alguns vinham até para estudar, como é o caso dos filhos do rei Kosoko, de Lagos, hoje capital da Nigéria. O pai enviou os filhos ao Brasil "provavelmente de carona num navio negreiro cheio de escravos vendidos por ele".

Mito 3: Não havia mobilidade social entre os negros escravos.

Sobretudo em áreas mais prósperas, os negros tinham possibilidade de ascender na sociedade. Após conquistar a alforria, eles poderiam adquirir bens e, inclusive, outros escravos. Essa é uma diferença importante entre o Brasil e os Estados Unidos, onde os negros não tinham direito a agregar posses. Algumas escravas chegaram a atingir certo status.  "Contando com escravos como mão de obra barata, algumas fizeram fortuna. A angolana Isabel Pinheira morreu em 1741 deixando sete escravos no testamento". Mas Narloch adverte: "apesar disso, essas mulheres nunca se livraram do estigma de negras, que sempre as marcaria na sociedade independentemente das posses". 

Mito 4: A Inglaterra tinha só interesses comerciais no fim da escravidão.

Os abolicionistas ingleses tinham motivações mais ideológicas que econômicas. Um grupo de 22 religiosos ingleses se reuniram em 1787 para brigar pelo fim da escravidão e, segundo Narloch, constituem um dos "primeiros movimentos populares bem-sucedidos da história moderna, um molde para as lutas sociais do século 19". E, em vez de prosperar economicamente, a Inglaterra teria perdido lucros com o fim do tráfico negreiro. "Muitas das cidades mais ativas na abolição, como Manchester e Liverpool, eram as que mais lucravam vendendo para reinos escravistas da África e da América".

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