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Estudantes da USP entram em confronto com imprensa durante assembleia

Guilherme Balza

Em São Paulo

08/11/2011 00h06Atualizada em 08/11/2011 00h20

Enquanto estudantes da USP (Universidade de São Paulo) realizavam uma assembleia na noite de segunda-feira (7) para discutir a ocupação da reitoria, um grupo de alunos que fazia o cordão de isolamento da assembleia entrou em confronto com profissionais da imprensa que estavam no local.

Dois profissionais tiveram seus equipamentos – uma filmadora e uma máquina fotográfica – danificados, e outros dois ficaram feridos. Estudantes também se machucaram no incidente. Na assembleia, os estudantes recusaram a proposta apresentada pela reitoria na tarde de segunda, durante reunião de negociação, e decidiram manter a ocupação.

A confusão começou por volta de 23h, ironicamente no momento em que os participantes da ocupação debatiam, na assembleia que transcorria normalmente, estratégias de como lidar com a mídia. A maioria dos estudantes que estavam reunidos não se envolveu na briga. O tumulto teve início depois que dois alunos se incomodaram com uma jornalista do “SBT” que, segundo os estudantes, teria dito que “na USP só há maconheiros.”

Irritado, um dos dois teria dado um tapa no microfone empunhado pela jornalista. Na sequência, cinegrafistas foram para cima dos dois estudantes em defesa da jornalista. A confusão se alastrou. Segundo testemunhas, o fotógrafo Cristiano Novais agrediu alguns alunos que estavam pelo caminho. Um cinegrafista da Rede Record levou um chute de um estudante.

Após a situação ter se apaziguado, um novo incidente reacendeu o tumulto. Um homem que aproveitou a assembleia e a presença da imprensa para tentar divulgar os bolos que confecciona agrediu uma estudante que tirava fotos do rosto dele, arrancando violentamente a blusa que cobria o rosto da jovem – segundo relatos, o “boleiro” provocava os alunos desde que chegou ao local.

Em resposta, um grupo de estudantes partiu para cima do boleiro. O empurra-empurra atraiu os cinegrafistas e fotógrafos que estavam no local e tentavam registrar a confusão. No novo tumulto, a máquina de Novais foi jogada no chão por um estudante. Algumas filmadoras foram atingidas por pedras.

“Como a gente (da imprensa) está em minoria, tínhamos combinado que se os estudantes fossem para cima, a gente se uniria. Um estudante deu um tapa no microfone da repórter do ‘SBT’. Eu fui apartar. Nisso veio um monte de estudante. Eu corri atrás e fui para cima de alguns”, disse Novais.

No momento da confusão, um aparelho de choque foi usado pelos profissionais da imprensa contra os alunos. Depois do tumulto, um estudante da Letras, identificado como Eduardo, falou em nome dos ocupantes da reitoria e classificou o ocorrido como resultado de atitudes individuais.

 “Sobre o infeliz acontecimento, há um colega de vocês que há alguns dias está vindo aqui, diariamente, e enfrentando alguns estudantes. Os ânimos estão alterados, até por conta de informes que chegam de reintegração (de posse). É triste o confronto, de fato. Há iniciativas isoladas de estudantes que infelizmente se submetem a provocações de pessoas que não respeitam o trabalho da imprensa e muito menos o espaço de estudantes”, afirmou.

Questionado sobre as pedras que foram atiradas no momento do tumulto e sobre o tapa contra a repórter do “SBT”, Eduardo disse não saber o que aconteceu e lamentou “qualquer iniciativa individual de algum estudante contra a imprensa”.

Os estudantes que estão na ocupação não permitem que a imprensa filme ou fotografe as assembleias. Segundo o estudante de Letras, a precaução se justifica pelos processos que estudantes podem eventualmente sofrer caso sejam identificados, como já ocorreu em mobilizações anteriores. 

“Nós cobrimos os rostos porque existem na USP processos administrativos, educativos e criminais movidos contra estudantes e funcionários que se mobilizam politicamente”, disse.

Assembleia

Na assembleia, os alunos rejeitaram a proposta apresentada pela reitoria na tarde de hoje e decidiram continuar a ocupação do prédio da administração da universidade.

Os alunos ocupam o local desde a madrugada da última quarta-feira (2), em manifestação contra a presença da Polícia Militar na Cidade Universitária e contra processos administrativos envolvendo funcionários da USP.

O prazo dado pela Justiça para que os manifestantes deixassem o prédio terminava hoje, às 23h. Não há, entretanto, policiais no local para um possível processo de reintegração de posse. A assessoria de imprensa da PM afirmou que o policiamento é normal e que ainda não há ordem para realizar a desocupação.

A reunião entre integrantes da Comissão de Negociação da Reitoria da USP, representantes dos alunos que ocupam o prédio da Administração Central e diretores do Sintusp (Sindicato dos Funcionários da USP) demorou três horas e meia e não chegou a nenhum acordo sobre a desocupação.

A direção da USP propôs a criação de duas comissões: uma, para avaliar a atuação da Polícia Militar no campus, já que a reitoria não abre mão da presença dos policiais; outra, para a reavaliação de processos administrativos contra alunos e funcionários. Após análise, os processos que tiverem orientação "política" seriam anulados. No entanto, a gestão João Grandino Rodas só aceita implantá-las se os estudantes desocuparem a reitoria até as 23h de hoje --o que não vai ocorrer.

Além de manter a ocupação, os estudantes marcaram para esta terça-feira (8), às 14h, um ato que deve começar em frente à reitoria.

A assessoria de imprensa da USP foi procurada para comentar o resultado da assembleia, mas não atendeu os telefonemas.

Debate sobre a PM

O debate sobre a presença da PM no campus voltou à pauta na quinta-feira (27), quando policiais abordaram três estudantes que estavam com maconha no estacionamento da faculdade de História e Geografia. A detenção gerou confusão e confronto entre estudantes e policiais –que culminou com a ocupação da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) e, posteriormente, da reitoria. 

A presença dos policiais no campus –defendida pelo reitor, João Grandino Rodas, e pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB)– passou a ser mais frequente e em maior número após a morte do estudante Felipe Ramos de Paiva, em maio deste ano. Em setembro, o reitor e o governador assinaram um convênio, autorizado pelo Conselho Gestor do Campus, para regulamentar a atividade da PM na USP.

Os contrários à PM no campus dizem que a medida abre precedente para a polícia impedir manifestações políticas –que comumente ocorrem dentro do campus– e citam o episódio de junho de 2009, quando a Força Tática da PM entrou na universidade para reprimir um protesto estudantil e acabou ferindo os estudantes e jogando bombas dentro de unidades.

Como alternativa à PM, o DCE defende que a segurança do campus não seja militarizada, isto é, que seja de responsabilidade da Guarda do Campus. A entidade defende que haja mais iluminação das vias do campus e que a USP mais seja aberta à comunidade externa, aumentando a circulação de pessoas.

Uma parcela dos alunos –sobretudo da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) e da Escola Politénica– defende a presença da PM, argumentando que isso aumenta a segurança dos frequentadores do campus.

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