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Uso de nome social em universidade pode diminuir evasão, diz transexual

Brune Brandão é aluna do mestrado em psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora - Arquivo Pessoal
Brune Brandão é aluna do mestrado em psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora Imagem: Arquivo Pessoal

Rayder Bragon

Do UOL, em Belo Horizonte

11/03/2015 06h01

Aprovada recentemente pelo Conselho Superior da Universidade Federal de Juiz de Fora, a adoção do nome social em identificação estudantil que será usada por alunos e funcionários transgêneros, transexuais e travestis nas dependências da universidade é tida como um instrumento para diminuir a evasão de alunos.

A opinião é da transexual Brune Brandão, 23, aluna do mestrado em psicologia da universidade, que fica na cidade de Juiz de Fora (278 km de Belo Horizonte).

Segundo ela, quando as pessoas desse grupo social passam a ser respeitadas nas suas escolhas, dentro da comunidade universitária, a tendência é a diminuição de desistência de alunos em frequentar os cursos que, em muitos casos, de acordo com Brune, preferem sair da universidade a passar por possíveis constrangimentos.

“Ajuda bastante no tocante à evasão escolar e de casos de desrespeito dentro da universidade. O benefício maior é que sua identidade é legitimada pela universidade e isso vai permitir às pessoas trans a possibilidade de fazer valer os seus direitos”, afirmou a universitária.

A opinião dela é compartilhada pela pró-reitora de Apoio Estudantil e Educação Inclusiva, Joana Machado. Por meio da assessoria de imprensa da universidade, a educadora disse que a implantação da identidade social contribui para o enfrentamento da evasão, considerada um problema para esse grupo de alunos e alunas.

“A rotina acadêmica com um nome que remete a um gênero com o qual o estudante não se identifica pode motivar a desistência do curso”, informou o setor.

Brune Brandão disse ter tomado conhecimento de casos nos quais alunos da universidade passaram por constrangimentos dentro de sala de aula.

“A gente sabe de casos de professores que não aceitam fazer a chamada pelo nome social, tem algumas pessoas que passam por constrangimentos. Na biblioteca, quando você apresentava a identidade, que difere do seu nome social, causa um estranhamento. Essa nova política vai evitar que essas violências simbólicas se perpetuem aqui dentro”, afirmou.

Assinaturas        

A iniciativa de adoção do nome social dentro da universidade surgiu a partir do caso de um aluno trans que tinha solicitado a mudança, mas havia sido impedido em razão da inexistência de regulamentação interna.

Um grupo que discute as diversidades sexuais e de gênero na universidade iniciou a coleta de um abaixo-assinado, que contou com 958 assinaturas. Em seguida, o caso foi apresentado à Diretoria de Ações Afirmativas. A solicitação de mudança foi feita em dezembro do ano passado.

"A instituição atendeu aos anseios dos estudantes de adotar o nome social e defendeu a aprovação da medida no Conselho Superior com o objetivo de incluir alunos e servidores e coibir práticas como a que foi relatada", disse a universidade sobre situações descritas pela aluna de mestrado.

No caso de servidores, poderão ser alterados os cartões de acesso, ramais de telefones, e-mails, crachás e cadastro no sistema eletrônico. No caso dos estudantes, além da carteirinha, a mudança na identificação pode ser feita nos diários de classe, cadastros, fichas, formulários e nas divulgações de notas e em processos seletivos internos. Além disso, nas atas de dissertações e teses, chamadas orais e nominais para verificação de frequência e em solenidades como entrega de certificados, colação de grau e premiações.

Uma ressalva, no entanto, é observada no tocante aos diplomas, históricos escolares e outros certificados para uso externo, que continuarão a constar o nome civil do aluno.

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