PUBLICIDADE
Topo

Jean Wyllys: Como o fechamento da Paulista comove mais que o de escolas?

Deputado federal Jean Wyllys - Danillo Sperandio/UOL
Deputado federal Jean Wyllys Imagem: Danillo Sperandio/UOL

Janaina Garcia

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/11/2015 06h00Atualizada em 29/11/2015 17h15

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL), 41, tem no Rio de Janeiro a base eleitoral, mas é a cidades de pequeno porte do interior da Bahia que ele atribui toda a formação escolar – o ensino fundamental em um colégio público de Alagoinhas, e o fundamental, em uma fundação filantrópica de Pojuca.

Coordenador da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT na Câmara dos Deputados, Jean é ativista de uma série de outras causas inspiradas na defesa pelos direitos humanos – dentre os quais, o direito à liberdade de expressão – que ele sublinha na ação de alunos nas ocupações de escolas públicas em São Paulo. Esta semana, o parlamentar conversou com alunos de uma das escolas ocupadas na zona oeste de São Paulo.

“Esta semana falei com alunos de uma  de Pinheiros (zona oeste de SP) que nunca tinham assistido a uma aula em círculo como estão tendo agora, nas ocupações, pela ação de voluntários que doaram aulas. Doações de aulas! Isso é tão bacana, e tão significativo, a ponto de alguns desses meninos me dizerem que aprenderam mais nesses dias acampados que em todo o tempo em que estiveram na escola regularmente. Como desprezar isso?”, questiona.

Confira, a seguir, o depoimento do parlamentar ao UOL.

Minha vida inteira, praticamente, fui aluno de escola pública – ensino fundamental em Alagoinhas, escola filantrópica (a Fundação José Carvalho) em Pojuca, sem fins lucrativos, ainda que não fosse pública. E Universidade Federal da Bahia, em Salvador, quando fiz jornalismo. 

Tenho acompanhado essa saga dos alunos das escolas ocupadas em São Paulo, a qual não deixa de ser uma nova face, muito interessante, do movimento estudantil – que sempre foi expressivo e do qual dependeram, nas últimas décadas, significativos rumos que a história do Brasil tomou.

Essa nova face tem a cara dos tempos em que vivemos: é marcada muito mais pelas redes digitais e pelas novas formas de organização política que não passam necessariamente por instituições. É uma nova expressão que tem a ver com internet, com um novo tipo de ativismo – nem todos têm, afinal, ligações com UNE (União Nacional dos Estudantes) ou Ubes (União Nacional dos Estudantes Secundaristas).

É um novo tipo de ocupação: se antes os estudantes iam para as ruas reivindicar políticas públicas de ensino, agora eles decidiram permanecer e dar um outro sentido àquele espaço. Como se nos dissessem: o sistema pede que ocupemos de um jeito, então decidimos ocupar de outro, para que tenhamos a garantia de que não haverá retrocessos.

Esta semana falei em uma escola de Pinheiros (zona oeste de SP) com alunos que nunca tinham assistido a uma aula em círculo como estão tendo agora, nas ocupações, pela ação de voluntários que doaram aulas. Doações de aulas! Isso é tão bacana, e tão significativo, a ponto de alguns desses meninos me dizerem que aprenderam mais nesses dias acampados que em todo o tempo em que estiveram na escola regularmente. Como desprezar isso?

Eles me disseram que têm ouvido sobre educação sexual, feminismo, sobre toda sorte de diferenças... inclusive sobre violência policial... A própria dimensão da segurança pública e de vulnerabilidade entraram na agenda dos meninos com força, e a reação da Polícia Militar em algumas dessas ocupações, a meu ver, foi a mesma de quando o Movimento Passa Livre (MPL) foi para as ruas [em 2013, contra o aumento das tarifas de transporte público]. A polícia, ou melhor dizendo, o Estado acabou se voltando contra pessoas que queriam protestar contra uma ordem injusta.

Democracias pressupõem uso legal da força, mas usar policiais contra estudantes que querem discutir o ensino público... é isso mesmo?!

Que cidade é esta que se preocupa com a Paulista fechada para os carros, mas não parece se preocupar com o fechamento de escolas?

Você não sabe como o movimento desses meninos me empolga.

Fui um aluno ativo de escola pública, militei no movimento pela Pastoral Estudantil e ver esse cenário agora me enche de ânimo. Alguma coisa está acontecendo. Apesar de todo o conservadorismo, tem coisas boas acontecendo – seja pela prisão de criminosos de colarinho branco, seja por esses novos movimentos que reacendem a esperança na gente.