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'Heroínas sem Estátua': alunos do DF contam histórias de mulheres notáveis

Vanessa Lisboa contou a história de Angela Davis, defensora dos direitos dos negros - Pilar Acosta
Vanessa Lisboa contou a história de Angela Davis, defensora dos direitos dos negros Imagem: Pilar Acosta

Edgard Matsuki

Colaboração para o UOL, em Brasília

31/03/2016 06h00

Homenagear mulheres que não tiveram os seus feitos reconhecidos nos livros de história e ensinar aos estudantes um pouco mais sobre valorização feminina. Com esses objetivos, a professora Pilar Acosta criou o “Heroínas Sem Estátua”. O projeto, que contou com a participação de 350 alunos, se iniciou no 1º semestre do ano passado e ganhou o Prêmio Professores do Brasil (categoria ensino médio) em 2015.

A ideia surgiu de um diagnóstico que Pilar teve do ambiente escolar e do material didático distribuídos aos alunos do Centro de Ensino Médio 01 de São Sebastião (cidade-satélite do Distrito Federal):

Apesar de existirem mais professoras e alunas mulheres, o ambiente escolar é extremamente violento com elas. Parte disso se deve ao currículo escolar, que mostra apenas contribuições masculinas na maioria das vezes. Isso cria um senso comum de que a mulher não é capaz”.

Pilar também aponta que na literatura, a participação de escritoras é ainda mais discreta: “No ensino médio, só se estuda escritoras mulheres ao final do 3º ano”. Com base no que enxergava no ambiente escolar, Pilar incluiu as atividades no currículo da disciplina de língua portuguesa no ano passado.

A primeira parte das atividades foi a apresentação de como as mulheres também contribuíram para as artes e literatura. “Falei da biografia de Frida Kahlo, músicas feitas por Vanessa da Mata e também da perspectiva da história com a visão dos vencidos como, por exemplo, no filme Uma História de Amor e Fúria [de Luiz Bolognesi]”, conta Pilar.

Em um segundo momento, a professora pediu para os alunos contarem a trajetória das “heroínas sem estátua”. Ou seja, de mulheres que não estão nos livros tradicionais de história ou literatura. A apresentação foi dividida em duas formas: um trabalho com moldes acadêmicos e um produto. Muitos alunos escolheram mães e pessoas próximas. Outros preferiram apresentar biografias de mulheres defensoras de minorias.

É o caso de Darlley Santos, 16. Ele escolheu contar a história de Harriet Tubman, mulher que lutou em defesa dos negros nos EUA no século 19. “Escolhi porque foi uma mulher que lutou até o fim por liberdade. Quando estava quase morrendo, doou todo o dinheiro para construir um lugar para negros e analfabetos”, conta.

Além de contar a história dela, Darlley fez uma escultura de Tubman. “Isso foi legal do trabalho. Me fez descobrir coisas que eu nem mesmo imaginava que saberia fazer, como a escultura”. Ele também diz que mudou a visão em relação a contribuição da mulher: “Existem mulheres batalhadoras que querem um bem para a sociedade. São fortes e não ‘sexo frágil’ como alguns homens dizem que são”, completa.

A estudante Vanessa Lisboa, de 16 anos, escolheu contar a história de Angela Davis, defensora dos direitos dos negros nos EUA. “A história dela ? maravilhosa. Desde criança, ela sempre lutou contra o racismo e o machismo”, conta. Ela apresentou a trajetória de Davis por meio de cartazes e uma pintura. 

A estudante afirma que aprendeu com o projeto a não se limitar pelo fato de ser mulher.

Eu me dei conta que não é só porque sou mulher que tenho que me limitar, que não vou fazer uma coisa que é considerada ‘coisa de homem’. O projeto ajudou muito na minha confiança, tanto como mulher quanto como negra”, diz Vanessa.

Na parte final do projeto, os alunos fizeram uma exposição na escola mostrando as biografias das “heroínas”. Ao todo, foram 112 mulheres homenageadas. Além da exposição foi criada uma página com as biografias. “Fizemos um blog, mas estamos buscando recursos para construir um museu virtual”, conta Pilar.

Neste ano, a professora Pilar trocou de escola e o projeto se diluiu. Enquanto os alunos do CEM 01 seguem tocando atividades semelhantes na disciplina projetos diversificados, Pilar quer implantar o Heroínas Sem Estátua no Instituto Federal de Brasília. “Ainda não sei se vai ser no ensino médio, técnico, tecnológico ou superior. Mas devemos começar algo novo no segundo semestre”, planeja.