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Professor do Mackenzie é denunciado após ironizar vítimas de Abdelmassih

Janaina Garcia

Colaboração para o UOL, em São Paulo

05/04/2016 10h04Atualizada em 05/04/2016 10h57

O comentário de um professor durante uma aula do curso de arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, gerou revolta em alunos e motivou denúncias assinadas por eles e pelo diretório acadêmico cobrando medidas da reitoria contra o profissional. Para os alunos, o arquiteto Paulo Giaquinto, responsável pela disciplina de urbanismo, teria feito “apologia ao estupro” ao comentar, em tom supostamente de deboche, as acusações de estupro contra o médico Roger Abdelmassih – condenado, em 2010, a 278 anos de reclusão pelos crimes de estupro e atentado violento ao pudor contra 56 pacientes.

O UOL teve acesso à denúncia encaminhada à ouvidoria da instituição e à coordenação do curso. Nela, alunos do sétimo período de arquitetura relataram que, no último dia 15, um grupo apresentava um trabalho em sala sobre o Jardim América, área nobre da cidade, quando um dos alunos mencionou que a antiga clínica de Abdelmassih – que teve o registro médico cassado – ficava no bairro.

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Imagem: Reprodução

“Giaquinto comentou, em tom de deboche, sobre como o médico não tinha praticado o crime de estupro, pois ‘o contrato dizia reprodução assistida’ (sic)”, diz um trecho da denúncia, subscrita por 39 estudantes. Ao final da aula, segundo o texto, um grupo de alunas ainda teria abordado o professor sobre a conduta e ouvido dele que tudo não passara de “uma piada”, com a ressalva: “Uma coisa é certa: muitas mulheres se aproveitaram da situação com denúncias falsas”.

‘Professores são formadores de cidadãos’, diz diretório acadêmico 

A presidente do diretório acadêmico de arquitetura, Victoria Braga, 21, afirmou que tão logo a denúncia dos alunos chegou ao órgão, no dia 21, o caso foi comunicado, também em nota, a toda a comunidade universitária.

“Redigimos uma nota a toda a comunidade acadêmica, a partir da nota dos alunos, para que todos estivessem cientes e se posicionassem contra todo e qualquer discurso de teor preconceituoso, seja de aluno ou de professor”, afirmou, para completar: “É inadmissível algo como isso acontecendo ainda mais dentro do ambiente de uma sala de aula, de uma universidade – por isso buscamos esclarecimentos por parte das autoridades administrativas. Professores são formadores de cidadãos com consciência crítica, portanto, de forma alguma devemos tolerar situações como essa”, avaliou.

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Imagem: Reprodução

Professor divulga pedido de desculpas

No último dia 22, nota assinada pelo diretor do curso, Valter Caldana, endereçada à presidente do diretório acadêmico informou que o professor formalizara um pedido de desculpas. O diretor destacou ainda que a posição da faculdade é de “repúdio a qualquer manifestação de cunho racista, sexista ou preconceituoso”, mas não citou nenhuma penalidade ao docente.

Já o professor denunciado pelos alunos, em nota de desculpas no mesmo dia ao diretor e ao coordenador do curso, alegou que as afirmações em sala ocorreram “em um período de descontração na sala em que estavam sendo feitas algumas ironias”, mas representavam “um grave erro”.

A reportagem tentou falar com o professor, mas foi informada, pela assessoria de imprensa da universidade, que ele não se manifestaria sobre o assunto. Giaquinto também não respondeu o pedido de entrevista feito a ele por e-mail.

Ainda pela assessoria, a reitoria da universidade confirmou o recebimento da denúncia dos alunos, mas resumiu que “o processo corre trâmite interno. As circunstâncias estão sendo apuradas para subsidiar as possíveis providências.”

Professor foi demitido em 2013 em outra polêmica

Não é a primeira vez que um professor do Mackenzie é alvo de manifestações contrárias de alunos a partir de opiniões pessoais controversas.
Em 2013, o promotor de Justiça Rogério Zagallo foi demitido da instituição – na qual lecionava Direito Penal desde 2006 – depois de um post, em seu perfil no Facebook, sugerindo que a Polícia Militar liberasse à força ruas ocupadas em protestos do Movimento Passe Livre pelas Jornadas de Junho.

Segundo o post, que foi apagado na sequência, se a Tropa de Choque matasse alguém, Zagallo "arquivaria o inquérito policial".

À época, o Mackenzie negou que a demissão de Zagallo tivesse relação com o post – alegou se tratar de "coincidência" e a atribuiu a uma suposta "realocação de professores" de fim de semestre. Ele ainda seria suspenso por 15 dias pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) por conta do teor da manifestação no Facebook – decisão que acabou mantida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no começo do ano passado.

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