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Voluntários escrevem cartas para migrantes em estações de trem em SP

O aposentado Vital de Carvalho Araújo faz a trilha sonora da ação nas estações - Janaina Garcia/UOL - Janaina Garcia/UOL
O aposentado Vital de Carvalho Araújo faz a trilha sonora da ação nas estações
Imagem: Janaina Garcia/UOL

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

14/09/2016 12h00

A refugiada haitiana que deixou um país arrasado pelo terremoto e, entre caronas e caminhadas, percorreu a pé, por 16 dias, um sem número de cidades brasileiras; a dona de casa que mandou o filho para a missão religiosa e só vai vê-lo dentro de dois anos; o pai que não consegue dizer ao filho, olhos nos olhos, que o ama; o sujeito que não conseguiu assumir a sexualidade em uma cidade pequena e pouco aberta ao que foge do dito "convencional". Ou a mulher que abdicou da proximidade com os parentes para manter distância segura do companheiro –que a agredia.

São muitas as histórias de quem tentou a vida em uma cidade como São Paulo, mas deixou, pelo caminho, pequenos ou grandes retalhos que formam uma colcha espessa e complexa de memórias. Comum a todas elas ficou a saudade –palavra tão portuguesa e tão presente nas cartas que um grupo de voluntários, em estações de trem da capital paulista e da região metropolitana, escreve para aplacar um pouco do que aflige quem os procura.

O coletivo chama "Estopô Balaio" e leva artistas às estações da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), uma vez por semana, com placas e chamamentos verbais para quem quiser escrever uma carta. O grupo nasceu há cinco anos no jardim Romano, extremo leste de São Paulo, e divide entre si as despesas postais. Assim como a maior parte do público que os procura, vários dos integrantes do coletivo são migrantes nordestinos (especialmente do Rio Grande do Norte) que vieram à cidade em busca de melhores condições de trabalho.

O coletivo "Estopô Balaio" há um ano e meio escreve cartas em estações de trem de SP e região metropolitana  - Janaina Garcia/UOL - Janaina Garcia/UOL
O coletivo "Estopô Balaio" há um ano e meio escreve cartas em estações de trem de SP e região metropolitana
Imagem: Janaina Garcia/UOL

Entre os autores das cartas estão não apenas migrantes do Norte e Nordeste em busca de trabalho, mas mulheres que deixaram situações de violência doméstica, homossexuais que fugiram das consequências de se expor a sexualidade em lugares pequenos e tradicionais e aqueles que sonham com a chance de pedir o que for possível, de uma vez só, em programas de televisão. A maior parte dos que buscam a ajuda dos voluntários ainda não é alfabetizado.

Para o coletivo, por outro lado, a tarefa o auxilia nas próprias criações –tanto que a ação que já passou pelas estações Poá, Ferraz de Vasconcelos e Brás faz parte do que chamam de “atelier de memórias e narrativas”. A proposta é desenvolver nos integrantes a escrita literária e a pesquisa de histórias, a partir de memórias, e, ao mesmo tempo, reconstruir ou construir vínculos para as comunidades, vizinhas ou não, das estações.

A dona de casa Maria Aparecida Barbosa escreveu para o filho, que é missionário - Janaina Garcia/UOL - Janaina Garcia/UOL
A dona de casa Maria Aparecida Barbosa escreveu para o filho, que é missionário
Imagem: Janaina Garcia/UOL

De acordo com a artista e jornalista Ramilla Souza, 29, em um ano e meio de oficina em estações, cerca de 300 cartas já foram escritas e enviadas. Antes da iniciativa, o grupo já havia feito três peças sobre o alagamento que, em dezembro de 2009, deixou o jardim Romano inundado com as águas do rio Tietê durante três meses.

“Fazemos uma pesquisa baseada em memória e narrativa ao colher as histórias das pessoas. Por aí tivemos, por exemplo, três espetáculos sobre os alagamentos no bairro onde nasceu o coletivo. Há um ano e meio começamos a testar o dispositivo das cartas --nem todos que nos procuram são analfabetos; algumas pessoas querem ajuda para escrever suas cartas. Tem gente que escreve para a esposa, os filhos, boa parte escreve para programas de TV para encontrar parente perdido, mas a grande maioria são migrantes nordestinos que perderam contato com parentes”, relatou. Em troca, os atores pedem que o emissor providencie ao menos um endereço para onde a carta possa ser enviada.

Haitiana escreveu ao pai anos depois de terremoto; boliviana queria ajudar o filho

Ramilla lembrou de alguns casos que ela considerou emblemáticos –e vindos migrantes também estrangeiros, sobretudo bolivianos e haitianos.

“Tempos atrás uma haitiana queria escrever para o pai e dizer que estava bem. Ela veio depois do terremoto de 2010 [em que mais de 300 mil pessoas morreram] e não o via desde então.

A migrante nos contou que andou a pé 16 dias pelo Brasil para evitar fronteiras e que estava juntando dinheiro para voltar para casa e havia sido acolhida por uma mulher que fazia perucas” 

“Em outra carta, uma trabalhadora boliviana disse que o filho de 12 anos nunca tinha cortado o cabelo porque queria vender e ter dinheiro para construir um quarto. Mandamos a carta a um programa de TV e eles ajudaram a família”, completou a artista.

Também integrante do grupo e há dois anos em São Paulo, o ator potiguar Juão Nin, 27, se disse privilegiado pelo contato com realidades distintas da dele. “Fico imaginando que, se minha vida é difícil, imagina a de outras pessoas? É muito triste ver a quantidade de brasileiros, de nordestinos que estão em São Paulo e não sabem ler e escrever”, afirmou.

“Como artista e cidadão, isso me move e me faz querer fazer, dentro do meu contexto, uma pequena revolução."

"Amo muito você, filho"

O coletivo fica às quintas-feiras, das 10 às 13h, em uma estação de trem previamente definida. A reportagem o UOL acompanhou na semana passada a ação dos artistas na estação de Itaquaquecetuba, cidade da região metropolitana que faz divisa com o jardim Romano.

A dona de casa Maria Aparecida Barbosa, 43, aproveitou para pedir ao grupo que enviasse ao filho, missionário, uma carta de próprio punho. “Carta lembra um tempo bom em que a gente esperava o carteiro passar em casa”, relembra. Um morador da região que não se identificou escreveria a segunda carta do mês ao filho –que mora no mesmo bairro que ele, na cidade. “Amo muito você, filho, e estou trabalhando para dar uma vida melhor para sua mãe, que está doente”, ditou aos voluntários.

A trilha sonora da ação fica por conta do aposentado Vital de Carvalho Araújo, 74, mineiro de Mariana que mora na zona leste de são Paulo desde a década de 1960. Seo Vital, que se considera “parte mineiro, parte nordestino” contou que só foi alfabetizado depois de aposentado –quando, então, aprendeu a tocar o acordeão que hoje acompanha o coletivo artístico.

Nesta quinta, os voluntários voltam à estação em Itaquaquecetuba. No próximo dia 17, às 14h, eles estreiam uma peça sobre as histórias da região em que se instalaram. A apresentação começa dentro dos vagões de trem que partem da estação da Luz, no centro da capital, rumo ao jardim Romano –onde a ‘plateia’ desembarca para ter contato, nas palavras dos integrantes do “Estopô Balaio”, com as “consequências da urbanização desenfreada”. A peça dura quatro horas –quase nada, perto dos três meses de alagamento que não vão desimpregnar, tão cedo, da memória dos moradores do jardim Romano.

"Uma carta sempre conta você melhor"